É bom para o ‘moral’

Heloísa Périssé encena peça autoral no Teatro Deodoro‏ em monólogo no qual interpreta mais de 15 personagens


O casamento e as dificuldades de convivência entre homens e mulheres rendem boas tramas para a dramaturgia. Dessa vez, Heloísa Périssé se inspirou na própria história bem como a de muitos relacionamentos e resolveu contar a história de um casal que vive um “relacionamento chiclete, daquele que vai e volta”, no monólogo “E foram, quase, felizes para sempre”, o primeiro assinado e encenado por ela.

Escrita em parte durante as gravações da novela ‘Avenida Brasil’, a ideia surgiu da vontade da atriz de fazer uma comédia romântica “na contramão”, como ela própria diz, em entrevista exclusiva ao Diversão & Arte. “Eu não falo do casal que quer ficar junto, eu falo do casal que quer se separar e não consegue. Aquele tipo de relacionamento que você perde a moral com os amigos e não tem mais coragem de dizer que se separou ou que voltou, porque ninguém te acolhe e já ri da situação. Eu nem diria que seriam felizes, porque na realidade essa comédia é uma dramédia.”

Sempre muito simpática e bem humorada, a carioca viveu a adolescência na Bahia, iniciou sua vida profissional na ‘Escolinha do Professor Raimundo’ e participou de diversas produções humorísticas na TV, mais notavelmente ‘Sob Nova Direção’ ao lado de Ingrid Guimarães, com quem ficou muitos anos em cartaz com a peça “Cócegas” no teatro. Além disso, lançou um filme baseado no livro “O Diário de Tati”, que ela mesma escreveu, interpretou as gêmeas Analú e Marali na série “Segunda Dama” e estrelou o longa “Odeio o Dia dos Namorados”, dirigido por Roberto Santucci.

Em cena, Heloísa chega a interpretar 15 personagens. Entre eles, o terapeuta, o ex-marido, Paulo Vítor, e os pais da protagonista. Sozinha no palco, a atriz se desdobra numa esquizofrenia sem fim, “Tem que estar completamente concentrado. Em ‘Segunda Dama’ eu tinha tempo de parar entre uma cena e outra, na peça, não. Não troco de roupa, ou coloco peruca. Só mudo voz, corpo, trejeitos. O que eu acho mais legal é que as pessoas falam assim ‘engraçado, você não muda nada mas a gente consegue ver todos os personagens’, conta. O texto promete divertir a plateia com os “desabafos” da protagonista Letícia Amado, interpretada por Heloísa. É possível também que muita gente se identifique com algumas desventuras da personagem. “As pessoas se cutucam, falam umas com as outras, se apontam. No final é quase uma grande festa. Essa história é mais identificável do que eu pensei que ela fosse. Eu acho que a gente chega à conclusão que se separar é tão difícil quanto ficar casado”, continua.

Atualmente Heloísa está no ar em “Boogie Oogie” como Beatriz, uma personagem com alto teor dramático e que tem chamado muita atenção justamente por isso. “Outro dia eu estava no estacionamento e uma moça virou para mim e falou assim, ‘Olha, posso te pedir uma coisa?’, respondi que sim e ela disse ‘volta a fazer a gente rir’. Geralmente quando você faz comédia, as pessoas têm um carinho muito grande por quem as faz rir. É quase uma gratidão. Mas para o meio artístico, foi uma grande oportunidade de mostrar um outro lado do meu trabalho, e isso é muito bom”, analisa a humorista.

Questionada se sente alguma diferença em relação ao drama e o humor, a atriz compartilha que vem descobrindo ao longo de seus mais de 20 anos de carreira que assim como existe o “tempo cômico”, existe o “tempo dramático”. “É um outro ritmo. Existe um elemento é essencial para as duas coisas, que é a sinceridade. Quando como você busca a graça, perde a graça, ou quando você busca o drama, vira o dramalhão. Acho que você tem que entrar em contato com a sua emoção e terá uma resposta sincera em relação aquilo que você está fazendo, seja no drama ou na comédia. E as pessoas sentem”, completa.

As apresentações em Maceió neste final de semana serão as últimas, por ora, até o fim das gravações de “Boogie Oogie”, em fevereiro de 2015, quando deve tirar merecidas férias e depois re-estrear com a peça em São Paulo e seguir viagem Brasil afora novamente. A atriz também pretende adaptar o espetáculo para o cinema no final do próximo ano. O texto será escrito em parceria com José Carvalho, e o marido de Heloisa, Mauro Farias, que também é co-autor da peça e assinará a direção. “A peça é muito cinematográfica. Ela é um filme pronto, é só abrir as personagens”, explica.

Maceió não é exatamente nova para a atriz, que já veio a cidade algumas vezes e coleciona algumas boas memórias de suas visitas. “Tenho certeza de que vai ser maravilhoso. Eu amo fazer peça em Maceió, amo ir para o Nordeste todo. Eu tive momentos inesquecíveis aí. Um povo hospitaleiro, um peixe maravilhoso; eu só tenho pena de uma coisa quando eu vou a Maceió, que é quando eu vou embora. Fica um pedacinho do meu coração aí.” Respondi que na verdade, quem fica com pena somos nós ao vê-la partir.

As sessões ocorrem neste sábado (8), às 21h, e domingo (9), às 20h, no Teatro Deodoro. “Quero convidar a todos para irem me assistir nesse final de semana, e adoro que falem comigo no final também. Eu gosto de saber quem é quem e conversar com as pessoas. Esse contato com o público é muito bom e engrandecedor demais”, finaliza. Fica o convite.


Originalmente publicado na seção D&A do jornal Tribuna Independente, em 8 de novembro de 2014.

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