Uma história de amor

A dama da música alagoana, Leureny, completa seus 70 anos e a comemoração não podia ser em lugar diferente: no palco

Essa história de cumplicidade com a música começa aos seis anos de idade de Leureny Barbosa de Barros, quando foi convidada pela sua madrinha a cantar na igreja que frequentava. A cantora credita a experiência como a que a fez “afinar os ouvidos e a entender o que era a música”. Chegou a cantar solo em latim para celebrações em sua cidade natal, Paulo Jacinto. Nascida em 1944 numa família de músicos — seu pai tocava, sua mãe cantava, seu irmão Firmino tocava pandeiro e Fleury canta e toca violão –, ela já gostava de cantar em reuniões de família e passou a cantar nos eventos de colégio e posteriormente na faculdade, sempre de forma amadora.

Leureny chegou a lecionar disciplinas como português, história e francês numa escola em Quebrangulo. Nos anos 1960, iniciou o curso de Letras pela UFAL e acabou desistindo pouco depois. Nessa época, fez parte de uma banda composta basicamente por mulheres, com quem chegou a participar de vários festivais de música e ganhando vários prêmios como melhor intérprete.

Apenas em 1970 teve a oportunidade de ir para o Rio de Janeiro passar férias e aproveitou a chance: conseguiu uma participação no programa “A Grande Chance” (veiculado pela extinta Rede Tupi) do apresentador Flávio Cavalcanti, ganhou nota máxima dos jurados e como consequência, um contrato com a gravadora Copacabana. Chegou a gravar dois compactos simples (pequenos discos com uma canção de cada lado, como o vinil) com outros cinco músicos, que foram lançados em 1970 e 1971. No processo de curação do primeiro compacto, a cantora conta que as opções de estilo que a gravadora lhe ofereceu eram muito limitadas. “Queriam que cantasse algo equivalente ao brega que conhecemos hoje. Não me via cantando aquilo, então resolvi procurar por conta própria um dos jurados do programa que pelo menos tinha me ouvido cantar, que foi o conceituadíssimo Sérgio Bittencourt,” conta. Sérgio colocou Leureny em contato com o maestro Eduardo Souto Neto (compositor responsável pelo famoso “Tema da Vitória” de Ayrton Senna), que se tornou responsável pelos arranjos de seu segundo compacto e acabou criando laços profissionais e afetivos.

Sem outras grandes oportunidades profissionais, passou três anos viajando pelo país para divulgar o seu trabalho e cantando na noite carioca, a quem considera a sua segunda grande escola, até voltar para Maceió em 1973 e continuar a sua jornada em teatros e casas noturnas. A convite, em 1977, chegou a apresentar-se no Festival de Montreaux, na Suíça. Já perto de seus 30 anos de idade, decide prestar concurso na Embratel e cursar Ciências Contábeis no Cesmac, mas sem deixar a voz de lado. “Sempre cantando. Todo ano eu fazia no mínimo um show. Ou no Deodoro, ou no Arena. Nos festivais de cinema de Penedo, eu cantava em todos. Festival de Verão de Marechal Deodoro, eu cantava em todos. Eu não parei, não,” afirma.

Com o incentivo do então governador alagoano Divaldo Suruagy, gravou no Rio de Janeiro seu primeiro e único LP de nome homônimo em 1985, produzido, arranjado e dirigido por Rosinha de Valença. No repertório, composições de autores de renome nacional, a exemplo de Chico Buarque, Djavan, Tom Jobim e a própria Rosinha. 15 anos depois, teve a oportunidade de gravar seu primeiro CD, como conhecemos hoje, intitulado “Dama da Noite”, que contou participações mais que especiais, como a de Leila Pinheiro, os maestros Eduardo Souto Neto e Cristóvão Bastos. Desta vez, dando o merecido destaque aos compositores alagoanos, trazendo canções de gente como Beto Leão, Carlos Moura, Chico de Assis, Eliezer Setton, Heckel Tavares e Ibys Maceioh em seu repertório.

Recentemente, foi obrigada a dar uma pausa na sua carreira devido a um problema na musculatura em que quase perde a sua voz, e no meio disso, Leureny foi atropelada com uma condição de saúde ainda mais grave: estava com pancreatite, doença que quase tirou a sua vida. “Não tive condições de fazer mais nada. Mas a vontade de continuar foi maior.” Tratou de aos poucos fazer o seu retorno aos palcos. Com a criação do projeto de baixo custo “Leureny — É preciso cantar”, a intérprete encontrou uma maneira de se manter na ativa.

Após um período de recesso, sem atividades profissionais, Leureny retorna aos palcos com o show “Festa”, em apresentação única no Teatro Deodoro em comemoração dos seus 70 anos de idade. O espetáculo marca também o fim da programação comemorativa dos 104 anos do teatro, que é o mais importante palco cultural do estado, e também o encerramento provisório das atividades do espaço para reformas.

Durante uma conversa descontraída, pedi que a Leureny me contasse um pouco sobre a concepção do show. “É mágico. Não tem nada igual a um palco. A preparação do show é uma maravilha. A equipe se junta e de pouco em pouco, a coisa vai tomando forma. O show é a minha vida, na verdade, apesar de não seguir uma ordem cronológica,” explica. O repertório está bem eclético, que varia da MPB ao rock, com clássicos de Tom Jobim, Cazuza e Djavan, e participação especialíssima das cantoras Elaine Kundera, Fernanda Guimarães, Irina Costa, Nara Cordeiro, Wilma Araújo e Wilma Miranda, que emprestam seu talento para homenagear uma das vozes mais marcantes do estado em duetos, divididos entre as duas horas de espetáculo. “Cada uma dá um pouquinho de si para completar essa unidade. Além delas, existem duas participações super especiais que eu não posso dizer para não perder a graça,” revela, animada.

Quanto à escolha do local, Leureny conta que não poderia ser outro. “O Teatro Deodoro para mim, é sagrado. Foi o primeiro palco, de fato, que pisei na vida.” E destaca a importância do centro cultural para o estado de Alagoas. “É fundamental. Foi o primeiro e é aonde as coisas acontecem para o artista alagoano. Tivemos um período em que ficamos dez anos sem o Teatro, e infelizmente, não era reforma não, era fechado mesmo. Aquilo ali foi uma dor sem tamanho, perder a nossa referência de arte, que é esse Teatro,” completa.

E ela não perde o fôlego: “Não planejo parar, não. No dia 27, eu estou no Sesc cantando Tom Jobim. E em janeiro também há coisas por vir mas não vou falar mais nada, é surpresa,” finaliza.

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