Batismo

Tenho te cultivado em mim através das palavras. Mas este lugar, depois da tua ausência, ficou apertado. Já não cabemos mais aqui. E eu preciso ir, não porque você não mereça ficar — você sempre soube como ficar — mas porque eu imergi fundo em você e agora preciso respirar. Não podemos mais conviver em mim.
 Por isto hoje eu despejarei todas essas palavras num rio e nele eu me batizarei de você e dos seus pecados que eu acolhi. Eu me batizarei, também, dos meus pecados, e então eu partirei. 
 E quando eu partir, todas as bocas que eu beijar não mais serão sabatinadas. E todos os botecos em que eu beber não mais ouvirão teu nome. E todo o sexo banal será só isso: banal, e não a sua ausência gritando em mim, porque você não estará mais lá. Você não mais será ausência porque não existirá. Quando eu emergir, não me lembrarei do teu toque, nem da sua ligação, desesperada, no meio da noite, dizendo que a gente não podia mais ser assim. Eu não serei mais par: serei singular. 
 E eu não revisitarei estes textos até que estas palavras percam toda a força e toda a significação que exalam. 
 Tudo o que você significa morre no próximo ponto final: até aqui, reluto dizer, te amei.

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