Sábado à tarde. Coloco um filme e, em 20 minutos, surge uma cena de um casal dançando Aline, do Christophe, que me é irritantemente incômoda. Desligo. Almoço. Volto para o quarto. A vontade de escrever sobre você aparece e o medo de que essa vontade seja a mensuração da sua importância me assusta. Sento-me. Escrevo.

Andando nas ruas do centro, ao som de Don’t Let Me Be Misunderstood nos fones, me deparo com um cartaz: Ouça seu coração. Rio, pois se tem uma coisa que me empenho a fazer, é escutar o meu coração. Mas eu mal o compreendo. Não sei se é uma questão de linguagem, mas fato é que é realmente difícil de ouvi-lo. Continuo andando. Don’t Let Me Be Misunderstood. Ah, como eu gosto desta música. Lembro que você a apresentou na primeira noite em que dormimos juntos. Fico bravo porque a minha referência desta música é você.

Seis meses já se foram desde que você se foi. Não exatamente seis meses, talvez menos, mas essa quantidade simboliza para mim a distância minimamente segura entre meu passado e eu. Seis meses que você se foi. Digo, eu me fui. Fui, é claro, é modo de dizer, pois não posso usar o verbo ir no passado para contextualizar onde estou, porque não FUI, realmente, talvez eu esteja indo, mas acho mesmo é que estou parado. Parado nessas memórias insistentes que surgem a todo dia e todo instante sobre os momentos bons que tivemos, como naquele dia em que eu tinha a casa só para mim e comemos pizza e vimos um filme água-com-açúcar com você deitado no meu colo e eu alisando o seu cabelo. Eu me lembro de não estar nem aí para o filme, porque era tão gostoso estar sentindo o seu peso sobre o meu.

Parado, temendo, a todo tempo, te encontrar, sem querer, em algum lugar. Em algum dos lugares que vou para me entreter com todos os outros, mas que no fundo, fico ali te procurando. Temendo duplamente: o medo de te encontrar e você me ver, ali, com outro alguém. E o medo de te encontrar, e te ver ali, com outro alguém. Ai, como isso ia doer, porque no fundo eu sei que você, ao contrário de mim, só estaria ali se fosse entregue. E é claro que eu quero que você supere e até imagino que isso já tenha acontecido. Mas no fundo eu não quero. E este não querer não tem nome. Este querer também é misunderstood. Há quem chame de idealização do passado. Conveniência. Amor. Falta de evolução espiritual. Imaturidade. Eu chamo de incompreensão.

Mas eu sigo. E você também segue. Eu sigo curioso, querendo saber da sua promoção, das suas viagens. Eu sigo, planejando aquela viagem, me emocionando com Ausência, do Drummond, que antes nunca me fez sentido e que, agora, me é violento. Sigo, ignorando a cena do casal dançando Aline. Eu sigo, me esforçando para acreditar que o que eu insisto em ignorar não é amor, e que vai passar — como já passou, tantas outras vezes, mas a última sempre parece diferente. Será diferente? -. Sigo, procurando uma solução psicológica e espiritual que me ensine a deitar na cama em paz e não pensar em você, porque afinal de contas, quem foi — ou está indo — embora fui eu. Sigo, por fim, temendo olhar para trás e me dar conta de que segui tempo demais sem perceber que nunca fui, e que nunca deveria ter ido.

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