Sábado à noite

Guilherme Ribeiro
Nov 6 · 5 min read

São aproximadamente 19h45 de um sábado como qualquer outro. Saio às 7h00 rumo à faculdade e chego às 20h00 do trabalho. Parei no mercado antes de ir para casa, como faço todos os sábados.

Terminei de passar as compras no caixa e sentei em um banco, ainda dentro do mercado, para pedir um Uber — porque até que enfim esse negócio chegou aqui e é horrível depender de transporte público em Bauru aos sábados. Antes mesmo de pegar o celular, um cara foi se aproximando, olhando fixamente, e de longe me cumprimentou com um aceno de cabeça. Vestia branco, como alguém que trabalha na parte de frios dali, mas era um branco sujo. Eu cheguei a pensar que eu poderia estar fazendo algo de errado sentado ali e que o funcionário vinha me avisar sobre a infração. Ele então estende a mão e pergunta se poderia conversar comigo.

Pronto! Uma hora dessas, eu cansado depois de um dia exaustivo e chega mais um típico pedinte, dentro de um estabelecimento, com esse papo de “você pode ouvir minha conversa fiada e me dar umas moedas?”. Dito e feito! Ele queria moedas para completar o valor de uma passagem para algum lugar; nem me lembro o destino. Disse a ele que não tinha moedas, apenas meu cartão, mas caso ele quisesse algo para comer, eu poderia comprar. Ele fez alguma expressão como “não é disso que eu preciso”, me deu mais um aperto de mão e foi abordar outras pessoas dentro do mercado. Diga-se de passagem, um banho, uma troca de roupa e ele poderia estar em qualquer capa da Men’s Health: era alto, moreno, forte e muito bonito.

Pedi meu Uber e fui até a porta do mercado, já que o carro chegaria em 2 minutos. As compras nas mãos, o cansaço batendo. Eu só queria chegar em casa, comer alguma coisa, tomar um banho, quem sabe ver um filme e dormir. De repente, uma mulher se aproxima. Tentei desviar o olhar, mas ela foi ágil e me estendeu um pote com doces, pedindo que eu comprasse algum. Era negra, roupas simples, cabelos despenteados. Eu tinha acabado de dizer para o cara dentro do mercado que não tinha moedas… repeti o argumento. Ela saiu em direção à entrada do mercado. Então, resolvi olhar para trás: duas crianças junto dela reviravam um cesto de lixo recolhendo latinhas.

Tanta coisa passou pela minha cabeça. Eram uma menina e um menino. Antes de desviar o olhar — porque eu não queria olhar aquilo, era muito difícil — reparei que a menina era muito parecida com minha sobrinha: o mesmo cabelo, o mesmo corpo, a mesma altura. Minha sobrinha reviraria aquele lixo, caso estivesse naquela situação, com a mesma destreza e competência. Reparei que era maior que o menino, o que me faria associá-lo ao meu sobrinho também, caso me demorasse em reparar nele. Tanta coisa passou pela minha cabeça.

Eu pensei em ajudar, talvez oferecendo à mãe das crianças algo do mercado. Mas o Uber chegaria em aproximadamente 1 minuto. E oras! Imagina o carro chegar e eu não estar lá. Ele poderia me dar uma nota ruim ou viria uma tarifa para pagamento na próxima viagem. Não havia tempo para ajudar aquela família. Quanto egoísmo.

Eu tenho o costume de pensar que dois seres não deveriam passar por sofrimentos em hipótese alguma: crianças e animais. Não estou comparando um ao outro, por favor. Mas eu penso que quando um adulto sofre, geralmente já tem repertório suficiente para compreender, pelo menos em parte, os possíveis porquês de estar passando por aquela adversidade. Quando uma criança ou um animal sofre, são apenas criaturas minúsculas nesse mundo gigante cheio de interrogações: eles não têm a menor capacidade de lidar ou compreender as coisas. Menores ainda são as chances de se protegerem. Mesmo que condicionados àquela realidade, um sentimento como a resignação é muito complexo. Em algum ponto eles podem acabar se acostumando com a vida que levam, mas a compreensão acerca de tudo — isso apenas no caso de um ser humano — demora para chegar de fato.

O mercado fica na Avenida das Nações. Carros e mais carro passam de um lado para o outro, gente voltando do trabalho ou arrumada e perfumada pra cair na noite. Pedestres, geralmente adolescentes em grupos, caminham pelas calçadas procurando diversão. Alguns, como eu, passam no mercado para fazer algumas compras. E lá estavam as crianças, em pleno sábado, à noite, pegando latinhas no lixo enquanto a mãe tentava vender doces. Eu não sei se os pequenos estavam sendo explorados. Ao menos sei que, em nenhum momento, eles foram usados como argumento pela mãe para que eu comprasse os doces…

O que fico aqui pensando enquanto escrevo é a significância de oportunidades que essas crianças vão ter para mudar a própria realidade. Chego à conclusão de que algum programa social poderia garantir um prato de comida a elas. Em Bauru, com uma universidade como a Unesp, elas poderiam se esforçar para passar no vestibular com a ajuda das cotas para egressos do ensino público ou mesmo tentar um Prouni. Mesmo sem ensino superior, elas também poderiam trabalhar ou criar algo incrível. Há muitas possibilidades, que dependem, por exemplo, da existência de uma universidade como a Unesp, de programas como o Prouni, de cotas, de uma bolsa-auxílio que possibilite uma refeição saudável… Para qualquer uma das possibilidades é preciso, também, que essas crianças não sejam levadas para o mundo da criminalidade, ou abusadas e mortas. Então, eu volto a perguntar: quantas oportunidades essas crianças têm?

Longe de mim querer falar dessa situação para defender ponto de vista político, mas aqui vai: você deve pensar muito bem antes de criticar cotas, programas que tornem o ingresso ao ensino superior mais acessível e, principalmente, bolsas-auxílio que garantam que famílias tenham o que comer dentro de casa. Esse argumento de que “o governo tem que dar a vara pra pescar ao invés do peixe” é raso e obtuso demais. O Brasil é um país de proporções continentais com uma população historicamente corrupta. População, não apenas políticos. NENHUM programa social será utilizado de forma 100% honesta pela população. Mas a sobrevivência de crianças como estas que eu vi hoje pode ser garantida. A realidade delas também ganha novas possibilidades quando se têm disponíveis programas de acesso ao ensino superior. Não faz sentido, entretanto, defender a ideia de que todos nascemos com oportunidades iguais, baseando-se em discursos vazios sobre meritocracia. Porque respondendo a minha própria pergunta: as chances dessas crianças são mínimas!

Por fim, chego a pensar que gostaria de um dia cruzar com essa mãe novamente para que pudesse colaborar de alguma forma, ainda que comprando um doce do seu pote. A Uber ganhou seu dinheiro, o motorista também. Ganhamos nossas notas. Eu vou dormir de barriga cheia, aproveitar meu domingo para fazer trabalhos da faculdade e segunda-feira o ciclo recomeça. Fico aqui pensando no que essas crianças vão comer durante a semana.

Publicado originalmente em 5 de maio de 2018.

Guilherme Ribeiro

Written by

26 anos. Estudante de Jornalismo pela Unesp de Bauru. Compartilho aqui conteúdos produzidos durante a graduação, jornalísticos ou não.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade