“A história dos meus dentes”

Um livro que mastiga a mesmice e empresta, com inteligência e diversão, inspiração para nossa vida.

Fomos aconselhados, desde o dia em que nos apresentaram o abecedário, que uma história deve conter: princípio, meio e fim. Sobre o trabalho que estou debruçado, no entanto, fugirei à regra. Devo iniciar pela hiperbólica.

Da hiperbólica:

A dona deste livro, Valeria Luiselli, nasceu na Cidade do México, em 1983. Acreditem: suas palavras mastigam o mercado, isto é, a inércia de livros lançados que são fabricados nos exaustivos formatos do marketing, do entretenimento e da linearidade. Por tal razão, e não só por isso, apontam como uma das mais interessantes escritoras da atualidade. Também concordo. Sua maneira de conduzir a história, ou os dentes de Estrada, confirma a reputação que estão lhe atribuindo. Em outras palavras: com aparelho, arrumam-se os dentes; com A história dos meus dentes, encontra-se uma forma inteligente e divertida de se relacionar com o tempo dedicado à leitura. Quanto você pagaria por este exemplar? Quem dá mais?

De fato, tudo o que eu disse até aqui não é exagero.

(Foto: Divulgação — Valeria Luiselli)

Do princípio:

Ainda não sei se li nada igual. Sinto meu dentes rolarem dentro da boca. Mas, talvez, seja possível encontrar raízes fortes. É propício citar, por exemplo, o jornalismo literário, porém não é recomendável se apropriar totalmente de seus recursos literários. Por que, de fato, Luiselli mistura, de maneira muito interessante, ficção e não ficção. Na realidade, tudo se transforma no decorrer das páginas. Repetidas vezes cheguei a pensar: “Como é possível imaginar tudo isso?” Pelos canais da imaginação da autora, veja só se você não faria a mesma pergunta, só com o início da história:

“Sou o melhor leiloeiro do mundo. Mas ninguém sabe disso porque sou um homem comedido. Meu nome é Gustavo Sánchez Sánchez, e todos me chamam, creio que carinhosamente, de Estrada. Posso imitar Janis Joplin depois de duas cubas-libres. Sei interpretar biscoitos chineses da sorte. Posso colocar um ovo de galinha em pé numa mesa, como fazia Cristóvão Colombo na famosa anedota. Sei contar até oito em japonês: ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi. Sei boiar de costas”. 

Do meio:

Luiselli sabe o que está fazendo em cada linha do livro. Seu domínio é claro e objetivo. Tanto é que, empresta para um dos diálogos, a seguinte sentença: “O importante é contar histórias sobre o bairro. Enquanto houver histórias, haverá gente para ouvir. Lugares e pessoas são feitos de histórias”.

Longe de sua mesa de autora, e com um objetivo específico de juntar dois mundos diferentes, a Galeria Jumex, e a fábrica de sucos Jumex, que patrocina a galeria, nasceu, depois de muito trabalho, A história dos meus dentes. Só que antes da concepção do livro, e para fazer esses dois mundos conversarem — artistas e operários — , a escritora escreveu fascículos sob o pseudônimo de Gustavo Sánchez Sánchez. Os operários liam, se reuniam, discutiam, tudo era gravado, e enviado para Luiselli (ela não participou de nenhuma reunião, e os operários só a “conheciam” pelo pseudônimo mencionado). Então, ela escrevia um novo fascículo, outro, mais um tanto, e a dinâmica seguia exatamente a mesma; no final, com informações riquíssimas, e os operários mais próximos do mundo criativo, o projeto lhe obrigou a mostrar os dentes de satisfação. Como bem sabemos, não só o de Luiselli, mas, principalmente, o de Estrada.

Do fim:

A bem da verdade, é que não se pode dizer o mesmo que Michel Melamed, em seu livro Regurgitofagia, sobre um fenômeno que atinge povos de diversos países, a alarmante incidência da cárie cerebral. Pelo contrário, é justamente esse fenômeno que o livro combate. Luiselli passeia por uma excepcional faculdade imaginativa. É criadora de boca cheia, dentes fortes e poderosa inventividade. Sua obra é charmosa e original, mas não espere um romance todo bonitinho.

Se eu fosse um leiloeiro, diria: “De hálito confiante, recomendo o uso desse ‘fio mental’”.