Nunca adiante o trabalho. Repito: nunca

(Foto: divulgação)

Ao direcionar o olhar para a mesa do trabalhador, espanta-se, categoricamente, com o amontoado de atividades a cumprir. Prazos, para ontem. Pergunto: é humanamente possível dar conta do recado?

É claro que não. Mas ainda temos heróis engravatados que, não só dão conta, como adiantam o trabalho. Repito, em letras maiúsculas: ADIANTAM O TRABALHO. Lembremos, agora, do título sugerido para esta comedida nota: nunca adiante o trabalho. Repito: nunca.

Não se deve levar a sério as palavras que aqui escrevo embora seja de uma verdade risonha. Assim como também não pretendo que tenha absoluto sentido, afinal, faz algum sentido a rotina que estamos habituados a levar dentro das empresas?

O que me supre é a escrita e o estudo da alma humana. E a isto, pois, como o trabalho faz parte da vida, é natural que questionamentos apareçam quando os olhos ainda estão abertos. Caso contrário, o que é que se terá para percorrer quando os olhos, definitivamente, estiverem fechados?

O cronista Antônio Maria, pensou a respeito. E é com ele que deixo um excerto de uma crônica que se faz pensar em tudo o que se deu até aqui:

“Petrópolis, Abril — Para adiantar serviço, estou escrevendo várias crônicas na Sexta-feira Santa. E me pergunto, com alguma advertência: por que adiantar o serviço, se muito mais decente seria protelar a morte? Os homens nunca pensam nisso — em protelar a morte. A primeira providência seria não antecipar as obrigações. Fazer tudo à última hora, embora o mais bem-feito possível. Porque, se na quarta-feira eu fizer todo o serviço de sexta e morrer na quinta, eu trabalhei depois de morto. Ou melhor, meu patrão recebeu um dia a mais de meu serviço quando eu já houvera saído da folha de pagamento. E será justo prestar desses “serviços altamente extraordinários”? As leis trabalhistas não preveem este caso”.

Final do dia, bate-se o ponto. E ao final da vida?