O centro de São Paulo está sangrando

“Viajar serve para verificar como estão as coisas lá fora. O mundo está em crise. Todo mundo sangrando. Todos à procura de uma mesma coisa: Paz”.

Dr. Celso Charuri.

O presente é o passado de um futuro que se prometia mais justo, em paz. Infelizmente, não aconteceu. Na última quarta-feira, 27, caminhei pelo centro da cidade de São Paulo e o cenário era desolador. As ruas estão ocupadas por mendigos, lixos e um profundo velório impregnado nos rostos das pessoas — a última esperança parece ter morrido recentemente. Nunca estive numa guerra, tampouco presenciei catástrofes naturais, mas, esses dois fenômenos, vistos apenas pela TV, estavam ao vivo diante dos meus olhos. Dos amigos que estavam comigo, e sei que muitos deles lutam por um país menos desigual através da política, não esboçaram nenhuma opinião ou ressentimento a respeito desta triste realidade. Caminharam tranquilamente como se estivessem dentro de um carro com os vidros fechados.

Enquanto isso, bem próximo do centro, uma avenida é a resistência e o símbolo do avanço em diferentes ordens de um país considerado, pelo olhar de alguns, até pouco tempos atrás, injusto, reacionário, preconceituoso; isto é, uma avenida que agora, finalmente, é aberta, democrática, justa e livre. Livre, vale ressaltar, dentro de um paradoxo existencial e latente que está desmoronando a cidade — e o país.

Mas, quem tem olhos para encarar a realidade? Quem tem coragem de abaixar os vidros e sentir o cheiro que achava que nunca iria sentir? Quem assumirá as responsabilidades da tecla “confirma”? Com olhares partidos, entre esquerda e direita, justo ou injusto, branco ou preto, nota-se um país doente, sangrando ininterruptamente, largado, precisando de ajuda imediatamente.

Na década de 60 a televisão americana criou um modelo de debate que é roteiro inquestionável dentro dos programas de TV até o dia de hoje. A fórmula: colocar dois intelectuais de diferentes ideologias para abordarem temas sobre política, religião e sexualidade. E o belíssimo documentário Best of Enemies, retrata o início dessas artimanhas conquistadoras de audiência. Em 1968, a rede ABC, criou um debate entre um liberal e um conservador, mudando a história da televisão para sempre — e as nossas percepções sobre os fatos também.

O documentário relata uma série de 10 debates entre o liberal e escritor, Gore Vidal, e o intelectual conservador, William F. Buckley Jr., numa época que diz muito sobre o nosso momento atual. “Acho que esses grandes debates não têm qualquer sentido. Do modo como eles são desenvolvidos, quase não há troca de ideias, muito pouco até de personalidade”, defende Vidal, no final do documentário. Buckley, articulista de mão cheia, diz que “Há um implícito conflito de interesse entre o que é altamente visível e o que é altamente esclarecedor”.

A cidade de São Paulo, segundo pesquisa realizada entre fevereiro e março de 2015, está com quase 16 mil moradores de ruas (dados fornecidos pela FIPE/USP — Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Isso significa que a população de rua, num intervalo de 15 anos, cresceu 82%. Em contrapartida, a prefeitura de São Paulo minimiza os números. “Não aumentou muito, embora muitos digam que há essa sensação. Antes, as pessoas ficavam escondidas em buracos, hoje ficam mais aparentes porque a gestão não busca um processo de higienização”, comenta Luciana Temer, secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, em entrevista para o jornal Folha de São Paulo (08/05/2015). Enquanto isso, sem precisar esconder o sistema de manipulação com fortes raízes romanas — pão e circo — temos uma avenida aberta, democrática, justa e livre. (Mas se você notar, temos a sensação que até a Avenida Paulista ganhou uma enorme quantidade de moradores de rua).

Antes que o leitor entre em conflito comigo, e, portanto, acabamos por não esclarecer nada, estou convicto em dizer que não vejo discussões calorosas e de primordial importância, pelos bares e todo emaranhado de superficialidades das redes sociais, sobre a pobreza nas ruas, o desemprego crescente, a crise desesperadora que o país se encontra e a inflação diminuindo assustadoramente a porção de arroz e feijão nas mesas das famílias brasileiras. Pelo contrário, há uma mobilização atenta e urgente em lutar por assuntos ilusórios — de liberdade — que nunca encheu barriga, e tampouco mudarão a vida de quem mais precisa.

Uma cidade, ainda mais como São Paulo, pode ser uma maquete do país. E se as ideias estão partidas, o Brasil nunca viverá num mesmo lugar. O país, aparentemente, está avançando somente para quem aparelhou a máquina pública; ou eu não estou vendo que estamos nos escondendo da crise em apartamentos triplex?

As mentiras e as promessas não se sustentam mais nos discursos. Até mesmo quem acreditou piamente está visivelmente cansado. As discussões, como podemos perceber, criadas para gerarem conflitos e, portanto, não esclarecer nossos dedos em tempos de eleição, e a manutenção da nossa realidade, não estão causando a mudança que no fundo todos nós desejamos. “A habilidade de entendimento já era. Mais e mais, estamos divididos em comunidades de interesse. Cada lado pode ignorar o outro e viver seu próprio mundo. Isso não faz de nós uma nação completa, por que o que nos une são nossas perspectivas. Mas se essas pessoas não estão compartilhando ideias… Não estão vivendo no mesmo lugar”, são as palavras finais do documentário Best of Enemies.

E o mais grave que está acontecendo, no entanto, não é o fato de simplesmente ignorar o outro com ideias diferentes, mas, desprezar aqueles que já foram motivo de militância e usufruir do espaço público que outrora fora duramente criticado por ser, talvez, o grande câncer da humanidade: capitalismo (que, por sinal, e com certeza, está com os dias contados).

A manutenção do poder por parte de uns, a vaidade e a hipocrisia por parte de outros, e tantos olhares partidos, abriram profundos cortes no desenvolvimento do país, estados, municípios, cidades, empresas, empregos, dia a dia, vida.

Nem foi preciso viajar para lugares longínquos. O centro da cidade de São Paulo está sangrando.

E assim caminha as visões partidas de todos que estão “…à procura de uma mesma coisa: Paz”.

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Fontes:

Folha de São Paulo;

Guia Folha;

Documentário Best of Enemies.