O dilema da senha do celular.

Em um relacionamento sério, é saudável ter a senha do celular da pessoa amada?

Você está namorando e, pronto! Começam os devaneios: “Com quem ele fica falando o tempo todo?”; Por que ela não desgruda desse celular?”; “Por que quando me aproximo ele para de mexer subitamente?”; “A essa hora da noite só pode ser outro”; e por aí afora…

A medida que, numa relação, tais comportamentos são recorrentes, o desejo de saber o que é que acontece dentro do celular da pessoa amada, torna-se uma doença incurável. Ocupa muito espaço dentro da gente. Não conseguimos ler um livro tranquilamente. Perdemos o foco no trabalho. Dormimos com um leve incomodo na cabeça. E, então, por esses aspectos, o fato de querer dividir a senha do celular, e não obter sucesso, abre profundas crateras de incertezas em relação a outra pessoa — inclusive, o princípio de brigas desnecessárias. Por outro lado, a maneira como cada um enxerga a vida — também digital — é totalmente diferente e não tem com o que se preocupar. “Você não confia em mim?”, dirão os mais confiantes. Relacionamento é como um espelho côncavo, que distorce a imagem, mas reflete uma figura assustadoramente similar. A confiança, portanto, onde é que se forma: em você ou no outro?

Mas que a pulga atrás da orelha continuará dando picadas de dúvidas, independentemente dos meios, ah!, meu amigo, isso eu tenho certeza que continuará.

Falar sobre o assunto — se é saudável ou não dar a senha do celular para a pessoa amada — é um sistema complexo como o mundo digital. São infinitas as possibilidades, combinações, sentimentos e variáveis, que acabamos esquecendo do essencial: o amor!

E parece que não só esquecemos, mas tivemos um profundo apagão. Segundo o dicionário online Priberam de língua portuguesa, os brasileiros não sabem o que é amor. Ao longo de 2015, a palavra foi a quinta mais consultada. A primeira foi “resiliência”.

As duas palavras citadas acima — amor e resiliência — demonstram que o problema “Qual é a senha do seu celular?”, e tantos outros “mimimis”, é apenas a ponta do iceberg dentro dos relacionamentos (relações humanas). Tem muita coisa em jogo debaixo da água. A blogueira do jornal Estadão, Ruth Manus, anda cabisbaixa com a falta de comprometimento dos apaixonados com o amor. “O que venho me perguntando é se as pessoas não estão jogando a toalha cedo demais”, alerta Manus. E complementa: “Uma vez li em algum lugar que os relacionamentos são como as casas: quando uma lâmpada queima você não muda de casa, você troca a lâmpada. Nunca esqueci disso. Sobretudo porque às vezes acho que as pessoas não estão tendo saco para trocar lâmpadas, nem para cuidar de casa nenhuma”.

O tema não vem sendo exposto com grande destaque e assiduidade nas diferentes mídias. Porém, se observarmos o comportamento dos casais nas ruas, e dos amigos mais próximos, parecem que estão vivendo uma guerra fria, prontos para se entregarem a qualquer momento. “O ser-humano está enclausurado na vida digital, ao ponto de uma senha de celular redundar em brigas conjugais”, compartilha um amigo. E vai mais longe: “Parece um quarteto amoroso, pois inclui-se os celulares nas relações”.

Quando a gente começa a falar mais com os dedos, o diálogo, que sempre foi o meio mais saudável de uma relação, naturalmente tende a desaparecer. E quando isso começa a acontecer, infelizmente Manus, a gente simplesmente troca de casa, e nem dá chances de trocar a lâmpada. Afinal, quem é que gosta de ficar falando sozinho?

Outra senha que está em evidência, e que supostamente é sinônimo de relacionamento sério, já comentado (Pós-Graduação em Netflix), é o compartilhamento da conta do Netflix. E pelo mesmo motivo da senha do celular, parece ser o termômetro de confiança, do amor verdadeiro, ou se realmente estão unindo forças para o tão sonhado dia do casamento.

Ao que tudo indica, os fatores externos têm influenciado constantemente as nossas emoções (ou sempre foi assim?); e definindo, irracionalmente, nossas escolhas. E o mundo aí fora, hoje em dia, com tantos estímulos e informações, tem causado maiores ansiedades, angústias e medos. Tais fatores são a gota d´água, que, em processo de transbordamento, tem gerado abusos em todos os aspectos, crimes, violência, comportamentos inaceitáveis e uma confusão generalizada. Brigas, e dilemas, como por exemplo, dividir ou não a senha do celular, e outros assuntos corriqueiros, são “aceitáveis” levando-se em consideração o panorama mundial relatado.

Tanto é verdade que, há quem diga, que o mundo está chato. Discordo. São as ideias das pessoas que estão deixando o nosso planeta insuportável. O relacionamento é uma entidade absoluta; as pessoas que são, e estão cada vez mais, relativas.

E é o âmago da palavra dilema, proposto no título desse excerto, que propõe nossas conclusões. Isto é, e segundo o dicionário, é um “…raciocínio que parte de premissas contraditórias e mutuamente excludentes, mas que paradoxalmente terminam por fundamentar uma mesma conclusão”.

Poderíamos abordar as virtudes e os deliciosos sentimentos causados pelo amor. Mas, ainda precisamos gastar tais assuntos.

Esqueça a senha.

Viva o amor!

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Fontes:

Época Negócios — Os brasileiros não sabem o que é amor

Blog Ruth Manus — Parem de ser mimados e lutem pelos seus relacionamentos

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