Pesquisa aponta dez youtubers como mais influentes entre jovens do Brasil, e ignora 98 milhões de pessoas que não tem acesso à internet.

A pesquisa “Os novos influenciadores: quem brilha na tela dos jovens brasileiros”, aponta as 20 personalidades mais admiradas por adolescentes; dez são youtubers. Realizada Pela Provokers para Google e Meio & Mensagem entre outubro e novembro de 2015, o estudo conversou com mil entrevistados, de 14 a 17 anos, em seis regiões do Brasil, que tem por hábito estarem conectados à internet e assistir à TV. Os jovens indicaram espontaneamente cinco nomes de personalidades de cinema, vídeo online e televisão. E, dessa maneira, apareceu a lista com dez youtubers entre os mais influenciadores do Brasil.

“A pesquisa aponta a força dessas novas celebridades”, afirma Susana Ayarza, diretora de marketing B2B do Google no Brasil, em entrevista para o Meio & Mensagem. E ainda disse que “Eventualmente, elas ainda não têm um alcance tão forte quanto as da TV, mas geram um engajamento muito intenso”.
Só que, no Brasil, 98 milhões de pessoas não tem acesso à internet. Isso significa que quase metade da população não sabe o que acontece em tempo real com o próprio país. Logo, como pode uma pesquisa afirmar e generalizar que dez youtubers são os mais influentes do Brasil se quase metade da população nunca esteve online — inclusive, nas pesquisas? Quantos adolescentes, de 14 a 17 anos, estariam dentro dessa área sem sinal? Aliás, as empresas do ramo de pesquisa estão vendendo o quê? Para quem? Estão fazendo pedaços de bolo e vendendo como se fosse o bolo inteiro? Ou, estão brincando de faz de conta?

Ultrapassando as nossas fronteiras, aí é que a área sem sinal aumenta significativamente. Cerca de 57% da população mundial — mais de quatro bilhões de pessoas — ainda não utilizam a internet ativamente ou regularmente. E é sobre esse real impacto do digital na vida das pessoas que, no ano passado, em eventos distintos de publicidade, explodiram duas bombas. A primeira, no Cannes Lions (O Festival Internacional de Criatividade), o iraniano Amir Kassaei, chief creative officer da DDB, não economizou munição contra os colegas de trabalho. Começou sua palestra afirmando que o próprio festival era uma falácia, e que 90% das peças enviadas não foram criadas para ajudar as pessoas. Em suas viagens diárias, de casa para o trabalho, revelou a realidade de sua pesquisa ocular: “Vejo trabalhadores da construção, empregadas de lojas, gente que acorda muito cedo para deixar os filhos na escola antes de um dia longo. São pessoas que não estão interessadas naquilo que fazemos. Não estão interessadas em publicidade. Não estão interessadas em marcas. E nós estamos esquecendo disso, perdemos o foco das pessoas reais”. Continuou com o dedo no gatilho, afirmando que “Estamos falando de mídia social, de conectividade, e nada desta merda importa”. E por fim, desconectando a plateia do comodismo latente, alertou: “Peguem a ideia mais inovadora que viram aqui esta semana e mostrem-na a alguém fora daqui… Nem precisam de sair de Cannes. Mostrem-na às pessoas reais que aqui vivem e vão ver se essas pessoas se importaram com isso”. A segunda bomba veio do executivo Brad Jakeman, presidente global de bebidas da PespiCo, na conferência anual “Masters of Marketing, da Association of National Advertising, em Orlando. Jakeman foi duro e direto afirmando que a frase “marketing digital” deveria ser banida dos nossos vocabulários. E ainda de maneira não menos dolorosa, afirmou, com seus mais de 25 anos de mercado, que a publicidade e suas filiais não acompanharam a mudança da indústria. Sem meias palavras e sempre categórico, disse que o modelo de publicidade se fixou em algum momento pré-histórico e de lá nunca mais saiu.

Voltando para o Brasil, abre-se uma fresta de questionamentos: será que nossas pesquisas também estão sendo atingidas por essas bombas? Será que o mercado de pesquisa não está acomodado na frente das telinhas dos computadores esquecendo, assim como as marcas e outras instituições, das pessoas reais?

Antes de finalizar minha pesquisa, devo alertar que não estou dizendo que as pesquisas não são aplicadas com excelência, que suas metodologias estão erradas e, que até o próprio resultado do objetivo inicial, não estão sendo atingidos; pelo contrário, estão fazendo um excelente trabalho dentro de uma bolha exaustivamente conhecida. Será, então, que não está na hora de deixarmos as máscaras do estilo cool, deixarmos a rua Oscar Freire, e adentrarmos definitivamente no estômago faminto do mundo?

A abrangência e afirmação generalizada da pesquisa em questão abre, sem sombras de dúvidas, um viés sistemático. E é, nesse caso, aparentemente, de similar sensação com o que estamos vivenciando no Instagram; isto é, publicamos fotos para um número limitado de amigos — pessoas — acreditando fielmente que estamos aparecendo para o mundo inteiro.

Quem está pagando a conta deveria verificar se estão colocando apenas os 10%.

Afinal, quem vai ler esse texto?

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Lista completa das 20 personalidades mais admiradas:

Fontes:

Os mais influentes entre jovens do Brasil (Meio e Mensagem);

O Iraniano que implodiu Cannes Lions e a indústria dos prêmios (M&P);

O duro recado da PepsiCo para o mercado (Meio & Mensagem);

Mais da metade da população mundial não tem acesso à internet (O Globo).