Por que eu perdi o tesão com o Corinthians

Provavelmente vão fazer comigo o que fizeram com o Reinert, autor do texto que inspirou esse aqui, e vão falar que eu não sou torcedor de verdade ou que o Corinthians não é pra mim. E, de fato, eu não me sinto torcedor e nem pertencente ao Corinthians nos últimos meses. Quem me conhece sabe que eu nunca, mas nunca mesmo, achei que ia dizer isso. Meu sonho de criança era ser goleiro por causa do Dida. Uma das minhas maiores felicidades até hoje veio no dia 4 de julho de 2012. A maior delas em 16 de dezembro do mesmo ano. Só existia um lugar nesse mundo que eu me sentia tanto em casa quanto na minha própria casa mesmo e era o Pacaembu. Devem ter sido centenas de tardes e noites naquela arquibancada amarela, na verde, no tobogã e até mesmo nas cadeiras. Sem contar os jogos no Morumbi ou no Canindé.

Ir para jogos do Corinthians e estar no meio da torcida sempre foi o meu maior refúgio. Sempre foram aquelas três ou quatro horas entre sair de casa, ir pro estádio, assistir o jogo e voltar que me deixavam tranquilo, sem pensar em nenhum dos problemas da vida. Até a construção da maldita Arena Corinthians e a vinda da Copa do Mundo pro Brasil. Não que eu não ache o estádio lindo (apesar de todos os excessos e super-faturações) e não goste da sensação de ter uma casa pra chamar de nossa, afinal sempre foi um dos meu sonhos. Mas sim pelo público que ali passou a frequentar — e se você acha que ele não mudou me desculpa, mas você não enxerga o óbvio ou não ia no Pacaembu regularmente — e pela herança mais maldita do Mundial.

Tá cada dia mais difícil ter orgulho

O nojento grito de bicha a cada tiro de meta. “Inspirado” no puto dos mexicanos, a torcida do Corinthians que trouxe essa praga pro Brasil, primeiramente contra o Rogério Ceni. Mas, como a praga que é, ela se espalhou pros outros jogos e também pras torcidas adversárias.

Porém eu não quero nem um pouco esconder, ao contrário, que Itaquera é o lugar que esse grito sai mais alto e com mais raiva, com mais ódio. E tá cada vez mais insuportável pra gente, o povo LGBT que frequenta estádio. E ai de você se tentar mostrar pras pessoas o quanto aquilo é errado. “Torcedor modinha”, “vitimista”, “frescurento” e “o futebol tá ficando cada vez mais chato” são as coisas mais ouvidas. Toda vez que a Arena Corinthians enche os pulmões pra gritar bicha, eu sinto que aquilo não é direcionado ao goleiro adversário e, sim, a mim.

A mim e a todos da nossa comunidade que ousam pisar num lugar de “macho” e que tem a pachorra de querer ser sentir igual aos outros que ali estão. O que eles mais querem dizer, mesmo que sem perceber, é que o futebol não é lugar pra nós. A gente não tem espaço ali.

A cada tiro de meta do adversário, eu me sinto menos parte daquilo que eu aprendi a amar incondicionalmente. A cada reposição rival eu me sinto mais odiado por aqueles que eu sempre achei que iriam me abraçar como um familiar. A cada jogo eu me sinto mais excluído de um lugar que deveria ser democrático e pra todos. A cada vez que eu tenho que cruzar a cidade pra ir pra Itaquera, eu volto me sentindo menos corinthiano e mais afastado da minha torcida. A cada quarta e domingo, o sentimento diminui.

Mas enquanto ele ainda existe, a gente continua indo em todo jogo e, inclusive, comprando o pacote de todos os ingressos disponíveis pro Campeonato Brasileiro. Porque a gente não pode deixar o ódio vencer, não pode.