Salvem o Corinthians

A vergonha passada em Itaquera nesse domingo diante do maior rival é apenas um retrato fiel do que o Corinthians se transformou nos últimos anos. Depois de ganhar o mundo em 2012, a diretoria alvinegra, então comandada pelo ilustríssimo Mario Gobbi, deixou a humildade de lado, virou as costas para a nossa história e começou a destruir tudo de bom que havia sido construído.

Se aproveitando do ótimo momento vivido naquela época, os diretores alvinegros começaram a dar passos maiores que as pernas e colocaram o Corinthians em uma situação quase sem saída. Sabendo que a Arena viria no ano seguinte e faria toda a receita de bilheteria ser destinada ao pagamento dela, a diretoria deveria segurar os gastos e mantê-los num patamar que fosse possível de administrar junto à dívida do estádio. Ao invés disso, preferiram gastar um caminhão de dinheiro no Pato, que hoje recebe cerca de R$ 400 mil por mês do clube para fazer gols pelo rival lá da Vila Sônia.

Em 2015, o cenário não mudou. Mesmo se classificando para a Libertadores na bacia das almas no Brasileirão do ano anterior, a diretoria, agora comandada por Roberto de Andrade, manteve a soberba e continuou gastando como se não houvesse amanhã: trouxe Cristian e Love com a promessa de salários astronômicos. E ficou só na promessa. Depois de cerca de dez meses atrasando direitos de imagem dos principais jogadores, tudo apontava para uma crise sem tamanho.

Ainda assim, o primeiro trimestre mostrou um Corinthians que prometia, dentro de campo, voltar as glórias. Até que veio o dia da eliminação diante do maior rival no Paulistão. O fracasso no estadual destruiu a equipe psicologicamente e fez os jogadores cansarem de se esforçar para não receberem no final do mês e culminou na vergonhosa eliminação na Libertadores para o fraco, mas aguerrido Guarani do Paraguai, em casa.

O palco das eliminações, inclusive, é um dos principais símbolos dessa destruição. Superfaturada até o último detalhe inútil de mármore, a Arena realizou o sonho de 90% dos corinthianos e nos deu uma casa própria. O problema, entretanto, foi o custo desse sonho, cerca de R$ 1 bilhão. Com a desculpa de que precisava pagar o estádio, a diretoria começou a implantar o seu principal — e mais sórdido — plano: cobrar ingressos abusivos, elitizar o Corinthians, afastar do clube aqueles que sempre estiveram ali por ele nas horas mais difíceis e transformar o torcedor em cliente.

Afinal, para a diretoria do “business” não interessa ter por perto o torcedor que se mata para assistir a um jogo e, por isso, cobra o máximo possível quando as coisas não vão bem. Interessa ter apenas o consumidor, que vai ao estádio sentar no lugar marcado, gastar dinheiro, apreciar o “espetáculo” e que solta aos quatro ventos os bordões do marketing, sem sequer entender os que eles significam. A torcida que entende que “eu nunca vou te abandonar” é o mesmo que “eu vou te apoiar cegamente não importa o que esteja acontecendo” e que o “eu não vivo de títulos” significa que a gente gosta de perder só pra bater no peito e dizer que “aqui é Corinthians, não importa o resultado”. Ainda que isso signifique ter um setor do estádio (oeste) completamente vazio em 99% das partidas da equipe desde a inauguração.

Foi essa torcida que aplaudiu a equipe depois de uma das mais vergonhosas eliminações da nossa história e que transformou o ídolo Guerrero no principal vilão na “novela da não renovação”. Ao invés de olhar para os erros da diretoria, que arca com salários de mais de 40 jogadores fora do clube, a torcida preferiu acreditar na história de que um jogador que ficou dez meses sem receber e ainda assim foi o principal jogador da equipe durante esse período não passa de um mercenário. É essa torcida que não questiona como, um ano após a inauguração, o estádio não tenha o tal do naming right, que seria uma das principais fontes de receita da equipe, vendido.

Aos poucos, estão matando o Corinthians que eu sempre conheci e me identifiquei. O clube que sempre se identificou com o povo, que acolheu a todos e que se destacou pela humildade está se transformando no clube que segrega e se acha superior aos outros, que não reconhece que erra e que, assim, vai acabar entrando em um caminho sem volta. E o que a maioria da torcida está fazendo em relação a isso? Levantando para aplaudir, afinal, a gente “nunca abandona”. E a pequena parte que protestou depois do clássico direciona os protestos para os alvos errados: os jogadores são quase tão vítimas quanto a gente. O principal vilão da nossa crise é a diretoria.

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