Joana

Eram dez para às duas da tarde quando Seu Mário perguntou para Fernando sobre a encomenda que havia lhe deixado há duas semanas atrás.

E aí, guri. Levou para Dona Maria?

Acostumado a enrolar e deixar para último hora, Fernando inventou mil desculpas para o ocorrido. Seu Mário, conhecedor da timidez do guri, pediu-lhe para que levasse ainda no mesmo dia a encomenda. Fernando, ansioso e preocupado, respondeu-lhe que cumpriria o pedido do patrão.

Sim senhor, Seu Mário. O senhor sabe que ando com alguns problemas, mas ainda hoje levo a encomenda lá!

Era quatro de março de 2014, Fernando não havia demorado décadas para levar a encomenda por mera preguiça. Dona Maria era avó de Joana, menina pelo qual Fernando foi apaixonado durante boa parte do Ensino Médio.

Quando ingressou na escola, no início de 2010, Fernando, com sua profunda timidez, tinha problemas de relacionamento. Enquanto isso, Joana possuía uma habilidade profunda em fazer amigos e se relacionar com os colegas. Era confiante. Madura. Bonita. Simpática. E, principalmente, demonstrou no olhar um certo interesse por ele. Daí em diante, foi fácil se apaixonar.

Fernando, burlando seus problemas sociais, conseguiu conversar com ela e deixar mais ou menos claro seus interesses. Pelo Orkut e, depois, Facebook, conversava com a menina diariamente. Na sala de aula, as conversas eram menos rotineiras. Pensava nela o tempo todo, stalkeava profundamente a vida da guria. Conhecia suas melhores amigas; os locais onde visitava; seus parentes; suas histórias. Tudo pela rede social.

Enquanto caminhava pela Loureiro da Silva, Fernando ia ficando cada vez mais ansioso e preocupado. E se Joana estiver lá? Será que me reconhecerá? E se estiver com alguém? Meu deus, que vergonha… E se Dona Maria for mal-educada? Os pensamentos corroíam a cabeça de Fernando enquanto seguia sua jornada…

Joana, embora parecesse interessada, nunca levava a sério os convites do guri. Ora ignorava, ora aceitava. Às vezes lhe cumprimentava, às vezes lhe ignorava. Dependia do ambiente e pessoas. O guri, apaixonado e tímido, não sabia o que fazer. Às vezes acreditava que o fato de ser negro e pobre poderia ter algo a ver, mas olhava o perfil da menina e logo descobria amigos e namorados negros. O que poderia ser? Por que essa atitude?

Quando se deu conta, Fernando já havia chegado à Cidade Baixa. Dona Maria, tinha uma loja de roupas chigues na Lima e Silva. Típica loja que as mulheres da burguesia e classe média costumam frequentar. Conversas fúteis e idiotas.

O coração de Fernando estava à mil, as mãos tremiam muito. O medo havia tomando conta do garoto. Um vazio enorme no peito e na barriga. O que lhe espera mais à frente? Mais sofrimento? Mais humilhações? Logo ele, que havia sofrido tanto e continuava sofrendo e sofreria muito mais. O aperto no peito aumentava na medida que chegava perto do local.

Joana, ora dizia o quanto ele era um negro lindo, inteligente e fofo; ora brigava com ele sem qualquer razão. Enfim, Fernando nunca havia conseguido nem sequer dar um beijo na guria. Tímido do modo que era, nunca avançou o sinal amarelo. Ficou por isso mesmo. O ano passou, Fernando apagou a guria de suas redes sociais e seguiu a vida. Nunca parou de stalkea-la e manter sentimentos, porém o tempo distanciou-lhes… O que sempre faz com os casais apaixonados, e aqueles nem tão apaixonados assim.

Fernando estava na frente da loja. Entrou, olhou para Dona Maria. Entregou a encomenda. A senhora, gentil e educada, lhe agradeceu com muita simpatia e até ofereceu um copo d’água.

Não, obrigado senhora. Estou com pressa. Tchau.

Dona Maria se despediu do guri e abriu um grande sorriso com seus dentes brancos e brilhantes. Fernando saiu profundamente aliviado. Um sentimento de prazer tomou-lhe conta. Quantas bobagens havia pensado e nada daquilo aconteceu. Dona Maria era uma querida. Gentil. Educada. Boa Pessoa! Sentiu-se bobo e constrangido de pensar coisas tão horríveis daquela tão boa senhora. Na José do Patrocínio, as pessoas percebiam a alegria de Fernando e olhavam para ele com um ar de curiosidade, mas o guri nem se importava. Havia descarregado um caminhão das costas.

Quando retornou à Loureiro da Silva, pronto para voltar ao serviço, um carro desgovernado entrou na calçada e matou setes pessoas. Fernando era uma das vítimas.

    Guilherme Giotti Sichelero

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    Historiador, marxista e escritor nas horas vagas! Historian, Marxist and writer in the free time! Contato: guilhermesichelero@gmail.com