Bicho é Melhor Que Gente?

Essa semana foi noticiado que um projeto de autoria de Rodrigo Maroni (PR) tramita na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. O tal projeto propõe obrigar todo o lar portoalegrense a acolher em sua casa ao menos um cão ou gato abandonado “para mitigar o sofrimento dos animais acometidos pelo abandono indiscriminado”. Um gesto talvez bonito. Uma intenção talvez questionável. Uma necessidade talvez desnecessária.

O que leva a pensar: estariam nossos políticos mais interessados com o bem-estar de animais do que de pessoas abandonadas? É um assunto delicado, mas não existe nenhum projeto de lei tramitando em nenhuma câmara de vereadores de nenhuma cidade do Brasil obrigando moradores de um município a adotarem crianças carentes. São pesos diferentes dados aos animais — e aqui por animais estou falando apenas de gatos e cachorros — do que a seres humanos em uma situação de vulnerabilidade igual ou pior a destes pets.

Ano passado foi aprovada uma lei pela mesma Câmara de Vereadores, que permitia que as linhas de ônibus admitissem animais de estimação em suas viagens. Por outro lado, o regozijo do trabalhador de aproveitar de uma temperatura adequada em seu transporte público para o trabalho acabava vetado. As companhias de ônibus não precisavam mais trazer para a frota ônibus com ar condicionado.

Por outro lado, tem bicho que vive melhor que gente e gente que vive pior que bicho. “Antes de abandoná-los, o homem deveria ter a consciência de que está cometendo um crime”, diz nosso amigo vereador Maroni. O homem, em primeiro lugar, e em alguns casos não tem condições nem de ter consciência que é homem, quiçá ter condições de criar outro homem ou algum animal. Uma pesquisa feita em 2004 pela ONG Criança não é de Rua, revelou que haviam mais de 650 crianças abandonadas na capital dos gaúchos. Para garantir a esses filhotes de gente, esses pets de pessoas, uma vida melhor, se cada lar portoalegrense doasse 10 reais por mês, já garantiria uma vida mais saudável, mais educação e mais cuidados para essas criaturinhas tão fofinhas que dá vontade de apertar par sempre todos os dias — as crianças abandonadas. Mas não existe nenhum projeto de lei que exija isso da sociedade. Antes de garantir direitos animais se faz mister garantir os direitos humanos, para que, aí se se possa e tenha condições de tratar dos bichos.

“Uma solução para diminuir o grande número de abandonos de animais domésticos é a posse responsável, devendo a sociedade civil evitar esse problema”, continua Maroni, do PR. Não podemos discutir posse responsável sem antes falarmos de estupro doméstico. Outro dado da mesma capital dos gaúchos dizia em 2015 que os casos de abusos a menores de 14 anos já haviam superado os números do ano anterior e haviam aumentado mais de 20%. O ano de 2014 registrou 218 casos de estupro em Porto Alegre. Esses números só tem crescido. Essas crianças sofrem o que bicho não sofre. ELAS SOFREM O BICHO!

E aí você vem com o argumento: “e quem mandou esses pais botarem essas crianças no mundo?”. Bem, até então, isso não era problema seu, já que você não era obrigada a adotar ninguém. Agora com o projeto de lei do excelentíssimo deputado tramitando, seremos — ou não — obrigados a adotar animais. Então porque não obrigar lares sem filhos a adotarem crianças carentes? Nada mais justo.

Vou revelar um segredo para vocês: não são só os pets que sofrem. A diferença é que gente também sofre. E se você não consegue olhar para uma pessoa em sofrimento e não se identificar, mas prefere recolher um animal na mesma situação, desculpe, você é uma vergonha para sua espécie. Bicho é melhor que gente? De gente que não sabe compreender o que é gente e o que é bicho, talvez.

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