Formigas

Fotografia de Sebastião Salgado.

Jogou o teclado do computador contra a parede, puxou os cabelos, mordeu a palma da mão até a primeira camada da pele sair e vasos sanguíneos se romperem, deixando uma marca roxo-avermelhada. Ódio. Viu o estrago feito no teclado e sentiu mais raiva ainda; algumas teclas se espalharam pela mesa e pelo chão, e sua mente tentou formar palavras com as letras delas. Coma respiração ofegante e algumas lágrimas nos olhos, decidiu que era bom tomar banho e sair em busca de um teclado novo, talvez comprasse outras coisas também. Não seria a primeira vez que o consumismo o deixaria mais disposto a escrever.

Como contribuir? Como inovar? A água quente que passava por seu corpo trazia e levava estes pensamentos, sem oferecer alguma resposta ou caminho milagroso. Sua mente parecia tomada por um grande ócio, indisposta; não queria procurar uma solução para o problema. Pelo contrário: o lembrava segundo após segundo dos grandes gênios da humanidade, como que para provocá-lo, atiçá-lo. O seu consolo era pensar que talvez o seu sucesso fosse póstumo. Sim, talvez póstumo, e assim os leitores só poderiam lamentar a oportunidade perdida de terem contato com tal mente enquanto ela estava viva! Algum apreciador mais fanático de suas obras iria, então, buscar todas as pistas e histórias da sua vida, entrevistar amigos de amigos e os ramos mais distantes de sua árvore genealógica, e tentar reconstituir sua jornada em uma biografia, e aquilo e seus livros seriam tudo o que teriam dele, pois não era dado à internet e redes sociais.

Deixou no ralo os devaneios e enxugou-se com uma toalha que, devido ao uso excessivo, pedia também um banho. Nu em frente ao guarda-roupa, nada o apetecia de vestir-se. Algumas camisetas sem graça e cinco variações de uma mesma calça jeans. Pensou com tristeza que provavelmente a humanidade já inventara todas os tipos de roupas possíveis, e tudo que as pessoas poderiam fazer até o fim da suas vidas seria variar cores, tamanhos, espessuras e texturas. Imaginou uma sociedade em que as roupas não seriam necessárias; talvez em algum canto do mundo esta comunidade existisse, e talvez lá, sem ter que decidir o que usar, o que combinar, o que evitar, ele teria como dedicar mais tempo buscando sua criatividade. Ou não. O mais certo é que teria outras preocupações, preocupações de pessoas peladas.

O asfalto ainda exalava o calor do dia quando ele saiu de casa para ir ao shopping, embora não pudesse sentir o calor através de seu sapatênis de cadarços e solas gastos e encardidos. A caminhada era pouca até o ponto de ônibus, mas quando sentou-se no banco para esperar o coletivo o sol já havia se posto e a lua tomava o seu território momentâneo. O automóvel comprido, cambaleante e exausto veio lotado, e por um passageiro ele não teve que esperar pelo próximo. Durante a viagem até o seu destino ele observou as pessoas ao seu redor e perguntou-se se alguém que estava ali apertado, trocando suores com outras pessoas, enfrentava um problema parecido com o dele; chegou à conclusão de que não. Ampliou a questão para uma escala municipal, depois estadual, nacional, continental e então mundial — sua última barreira, pois era cético quanto à existência de vida inteligente fora do planeta Terra. Quantas pessoas sofriam do mesmo mal que ele naquele exato momento? Mil? Um milhão? Alguns milhões? E quantas, assim como ele, estavam pensando em quantas pessoas estavam naquela mesma situação? Será que em uma escala mundial ele poderia ser o único a deter um pensamento, por mais específico que fosse, sabendo da existência de mais bilhões de pessoas mundo afora? Para essa pergunta ele não poderia esboçar uma resposta. Lembrou de um evento da sua infância, aos seus seis anos de idade, no máximo sete. Observava um formigueiro, todas aqueles insetinhos trabalhando e trabalhando incessantemente, vivendo para aquilo, e desconhecendo qualquer coisa além das próprias vidas. Formigas guiadas por extintos, existentes ali somente para servir a um propósito maior. Perguntou ao seu pai se as formigas pensavam, e se, se ele matasse uma, as outras ficariam tristes. Na época seu pai disse que sim, mas não com muita convicção, e não gastou tempo para justificar-se. Seu pai não tinha muita vontade de responder perguntas infantis. Ele aceitou a resposta paterna sem questionar,e levou algum tempo para descobrir que as formigas não pensavam, tampouco sentiam tristeza ou qualquer outro sentimento. Anos depois, no ônibus, se questionava o que pensariam as formigas se as formigas pensassem, e como pensariam. Rápido como seus passinhos ou com calma? Seus pensamentos teriam a voz fina que nós atribuímos aos seres pequenos ou não? Se as formigas pensassem, ainda serviriam fielmente à Formiga-rainha?

Não conseguiu concluir seus questionamentos. O ônibus chegou ao shopping e ele desceu, as pernas formigando por terem ficado muito tempo esticadas na mesma posição. Caminhando vagarosamente, ele andou por outras lojas antes de ir na que encontraria seu teclado novo. Comprou duas camisetas e um boné, também procurou por algum tênis que substituísse o velho que ele usava no momento, mas não achou nenhum que valesse o preço. Tomou um milkshake enquanto observava as pessoas na praça de alimentação, rindo e comendo; julgou as mães e os pais que levavam seus filhos a fast-foods, e então sentiu vergonha de si mesmo pela hipocrisia daquele pensamento. Viu um senhor idoso tropeçar quando chegou ao fim da escada rolante e tentou conceber uma alternativa mais segura que aquela para a locomoção entre andares, além dos elevadores; falhou. Sua bebida acabara e era melhor ele voltar para casa antes de estar tarde demais, então levantou-se e foi até a loja de informática da qual era cliente há alguns anos. Ao entrar, um homem de boa aparência o atendeu, provavelmente um empregado novo, já que ele não conhecia seu rosto. O funcionário mostrou as vantagens de alguns teclados, enfatizando os mais caros, e esperou afastado enquanto ele tomava a decisão. Se não houvesse comprado as duas camisetas, o boné e o milkshake, teria dinheiro para um teclado melhor. Havia também a opção de parcelar, mas ele preferia evitar adquirir mais um boleto para a sua coleção. Levaria, pois, um dos teclados mais baratos. Com pesar, se convenceu de que não precisava de todas as funções e qualidades do produto mais caro, e se encaminhou com o escolhido para o balcão, onde efetuou o pagamento enquanto conversava com a caixa, uma mulher conhecida de rosto que trabalhava ali desde que ele começara a ser cliente ou mais.

Nenhuma inspiração surgira durante o tempo que passou no percurso de ida e volta ou nos momentos que gastara no shopping. Sentia-se, na verdade, com menos vontade de escrever quando chegou em casa. Experimentou suas camisetas mais uma vez, para certificar-se de que poderia cortar as etiquetas sem risco, e viu como o boné ficava na sua cabeça. Sentiu-se bonito e resolveu deixá-lo lá até a hora de dormir. Saiu do seu quarto e foi até o escritório, onde a cena do crime permanecia intacta. O corpo partido em vários ainda não fedia, mas já estava frio. Recolheu os pedacinhos, limpou o chão e a mesa, despejou tudo na sacola de recicláveis e apagou aquele momento de fúria da sua mente. Com cuidado, como se segurasse um bebê recém nascido, instalou o novo teclado. Retirou o plástico protetor das teclas e das laterais e então ligou o computador. Seu trabalho estava intocado e o encarava desafiadoramente; as letras e as palavras debochavam da sua cara, ele podia escutar.

Leu os últimos parágrafos que escrevera, apagou algumas frases, substituiu certas palavras e salvou as alterações. Com um suspiro, fechou as janelas e programas abertos e desligou o computador. Foi para a sua cama, onde leu um pouco até suas pálpebras pesarem e ele sentir que conseguiria dormir. Antes de cair nos braços de Morfeu, pensou novamente nas formigas. Se elas pensassem, escreveriam livros e pintariam quadros? Fariam contas e desenvolveriam tecnologias avançadas? Se as formigas pensassem, pensariam em humanos antes de dormir? O último pensamento era de resposta fácil: é claro que pensariam. Elas pensariam nos humanos o dia inteiro.