Paixão

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Após alguns anos no ofício, realiza os passos com facilidade e exatidão. Depois de lavar e pesar, procura por ferimentos externos e anota à caneta informações necessárias em uma prancheta marrom carregada de uma A4 provinda de madeira de reflorestamento. Em seguida, com um bisturi, faz um corte em T, letra que por coincidência é a inicial de seu nome, que inicia-se logo acima dos mamilos e desce ao púbis. Com uma serra para ossos corta a caixa torácica ao meio e a abre. Os órgãos então ficam expostos e, antes de examiná-los, o necropsista aprecia a visão por um momento, um hábito pessoal. Tudo isto é feito com agilidade e cuidado. Manuseia os instrumentos e os órgãos do cadáver com maestria, e se um observador que não se abale com corpos, órgãos e sangue, o visse em ação, concluiria que o homem era de fato apaixonado por seu trabalho. “A parte mais linda do meu serviço, para mim…”, diz ele, e segura com as duas mãos o cérebro que acaba de retirar da pessoa sem vida deitada à sua frente, e o ergue na altura dos olhos, “É esta! Aqui, neste momento, eu seguro em minhas mãos o que proporcionou tudo para o ser humano que jaz morto nessa mesa gelada, tão gelado quanto ela. Tudo que seus olhos captaram, todos os toques e dores que sentiu, todos os aromas que passaram por suas narinas e sabores que sua língua experimentou, todos os sons que seus ouvidos processaram, desde a voz da pessoa que mais amou até o ruído que mais odiou, todos os pensamentos e sonhos, bons e ruins, que cruzaram sua mente: tudo isso só existiu porque esse órgão, seu cérebro, funcionou perfeitamente até o momento de sua morte. Você consegue entender, leitor? Ou eu apenas pareço para você um homem bizarro que olha apaixonadamente para os órgãos das pessoas mortas que disseca? Será esta minha atitude desrespeitosa? Nojenta? Penso que não”, e então dedica-se à analise criteriosa daquele amontoado de células tão e não mais importante. Eu também penso que não, necropsista.

Termina sua jornada diária, pega seu carro e dirige até sua casa. A mulher com que é casado o espera e, ao recebê-lo para o café da tarde, pensa na quantidade de corpos que ele vira naquele dia, e tenta imaginar se, quando chegar a sua hora de ser tocada pelo anjo negro, seu marido irá vê-la como mais um corpo. Depois de muitos anos de casamento, mesmo sem terem abordado o tema diretamente, o homem sabe que a sua esposa nutre aquela dúvida, mas, por algum motivo, ele prefere manter tais questões suspensas, e não a responde. Eu também prefiro.

Por fim, deita-se na cama e dorme. Em seus sonhos, ele recebe inúmeras pessoas no pronto-socorro de um hospital. Salva algumas, outras não, e espera que o saldo diário seja positivo, mas nunca se surpreende com os resultados. E então acorda, assustado, para mais um dia de serviço.