O textão vai virar mar, o mar vai virar textão.

Como fugir dos vícios e falácias da retórica moderna, utilizar a lógica como mecanismo de captura dos argumentos válidos e aproveitar os “textões” da internet para enriquecer suas experiências literárias.

Antônio Conselheiro, o Messias da Guerra de Canudos, certa feita, profetizou: “O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão.”

A predição mais famosa do revolucionário cearense ilustrava a noção de dois “Brasis”, representados pela modernidade e progresso das cidades grandes e pelo atraso do grande sertão. Na cabeça de Conselheiro, a insurreição de Canudos representaria a virada de mesa de um povo. Em uma comunidade com acesso farto às terras produtivas e trabalho comunitário sem a supervisão de capatazes desumanos, um local santo brotaria dos castigados latifúndios e, milagrosamente, salvaria a extensa região, libertando seus habitantes da pobreza e da exclusão social.

Não por acaso, resolvi aproveitar boa parte da profecia do barbudo do agreste como parte do título que inicia o artigo. E nem precisei de um método darwiniano para chegar às poucas palavras que resumem o comportamento do leitor 2.0, um pirata solitário que vive a navegar em um universo novo, atulhado de conteúdo, muitas vezes inócuo, tendencioso ou falacioso.

O “trocadalho” em questão, do “carilho” ou não, reflete o que há de pior em nossas redes sociais atualmente: o “textão” da vez como verdade universal.

Quando uma mera introdução sobre determinado tema transforma-se em um postulado normativo, corremos o risco de mergulhar em um mundo superficial; um mar de pontos de interrogação, negociados como pontos de exclamação por falsos vencedores.

A proliferação de compartilhamentos no Facebook, LinkedIn, Twitter e outras redes sociais segue o princípio da Caça ao Tesouro. O primeiro que encontra o pote de ouro na internet realiza uma leitura superficial do material e nem perde muito tempo; compartilha sem dó com todos os colegas de rede.

Quantas vezes por dia zapeamos a timeline da nossa rede social favorita e identificamos artigos, textos, matérias e editorias de todos os tipos com os seguintes enunciados clássicos utilizados para chancelar o conteúdo compartilhado:

“Lacrou!”, “Disse tudo!”, “Mitou!”, “Texto definitivo”, “Genial!”, “Refutem!”, “Compartilhando antes de ler.”, “Concordo com tudo.”, “Não podia concordar mais.”, “Endosso cada vírgula.”.

Você também fica assim?

Filosofia, Política, Economia, Paisagismo em casinhas de campo da Barbie, Futebol, Ginástica Artística…

Parece que o “textão” virou a salvação da lavoura, em todos os campos da atividade humana. Se na Idade Média — conhecida injustamente como a Idade das Trevas — as universidades ensinavam o Trivium, conjunto de matérias representadas pela Gramática, Lógica e Retórica, hoje em dia o trivial reina absoluto no país dos 35 milhões de analfabetos funcionais.

A ênfase da forma sobre o conteúdo, a desvalorização do sentido, a falência da finalidade e a subjetividade em relação aos porquês tornaram-se o crème de la crème das publicações que saltitam às telas de nossos computadores, tablets e smartphones. Para a orientação, prevenção e combate do próximo texto engajado, repleto de consciência social, ambiental, política e toda a logorreia repleta de malabarismos que os autores, jornalistas e blogueiros — que se multiplicam como Gremlins — utilizam nas redes sociais, precisamos usar as armas corretas. Não, você não necessitará de um crucifixo, dentes de alho e uma estaca de madeira…

Se você não quer se afogar em um caudaloso mar de “textões” picaretas na internet, aprenda a distinguir exposições argumentativas falsas e alcance uma boa base para julgar de forma correta tudo o que a sua mente assimilar. O pequeno manual a seguir contém três dicas que podem valer ouro na hora de separar o joio do trigo e, claro, na hora que o chamarem para o pau em fóruns de internet, comentários de blogs, em grupos do Facebook e na blogosfera em geral. Como diria o irrefutável Bruce Buffer:

It’s time!

As seis regras de George Orwell para escrever bem.

Antes de bater à porta do autor responsável pelo clássico “1984”, tenha o seguinte pensamento em mente: se você deseja escrever bem, deve, antes de tudo, aprender a ler.

Quando você aprende a ler, adquire um vínculo especial com o escritor. Alimentar-se de um texto é fundamental para construir essa relação e uma lição clássica para a vida inteira. Revelar as intenções do autor, a construção das frases, seu vocabulário, como ele trafega pela narrativa, o capricho na expansão do tema e a forma como ele se conecta à realidade…

Todos os fundamentos listados, adicionados à compreensão dos grandes vícios da literatura atual — formalismo, niilismo e solipsismo — podem proporcionar uma visão de mundo de acordo com uma perspectiva que não é sua.

Agora que o pontapé inicial foi dado, vamos ao guia de redação elaborado por George Orwell. OBS: Como curiosidade, a Revista Economist também utiliza o guia como introdução em seu Manual de Estilo.

Titio George e seu inconfundível bigodinho.
  • Não use uma palavra longa se uma palavra curta resolve.
  • Se for possível cortar uma palavra, não pense duas vezes e corte!
  • Não use a voz passiva quando for possível usar a voz ativa.
  • Nunca use figuras de linguagem que você esteja acostumado a ler por aí. Fuja do lugar-comum.
  • Não use um jargão quando você puder imaginar uma palavra fresca do cotidiano.
  • Quebre qualquer uma dessas regras antes de escrever igual ao Gregório Duvivier.

2- Entenda o que são falácias argumentativas e fuja delas enquanto é tempo.

A lógica é filha do filósofo grego Aristóteles. Na obra Organon, ele definiu a lógica como um instrumento para obter o conhecimento científico. Um método do discurso demonstrativo que utiliza três operações da inteligência: o conceito, o juízo de o raciocínio.

- O conceito é a representação mental dos objetos.

- O juízo é a afirmação ou negação da relação entre o sujeito e seu predicado.

- O raciocínio é o mecanismo que leva à conclusão sobre os vários juízos contidos no discurso.

O silogismo aristotélico representa a interpretação das operações listadas, apresentando uma conclusão decorrente de duas premissas. Ex:

Todo homem é mortal.

Sócrates é homem.

Logo, Sócrates é mortal.

“Sócrates”, “Homem” e “Mortal” são conceitos. “Sócrates é homem” E “Sócrates é mortal” são juízos. O raciocínio é o avanço do pensamento que floresce do cruzamento das duas premissas “Todo homem é mortal” e “Sócrates é homem”. E, por fim, a conclusão — lógico -: “Sócrates é mortal”.

Vale ressaltar que a validade de um argumento depende exclusivamente de sua fórmula lógica e não no conteúdo das afirmações. Se, por acaso, substituirmos do exemplo supracitado o conceito “mortal”, substituindo pelo conceito “amarelo”, chegaríamos ao seguinte argumento: “Todo homem é amarelo. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é amarelo”.

Mesmo sabendo que existem alguns políticos amarelões que fogem de depoimentos por aí, sabemos que não existem homens amarelos (sem piadas com os asiáticos, por favor). O argumento permanece válido, mas não verdadeiro. Para que a conclusão de um argumento seja verdadeira, as premissas devem ser verdadeiras; inexoravelmente. Este é o beabá para diferenciar um raciocínio válido de um raciocínio verdadeiro.

Caminhando pelos vales cinzentos que permeiam os dois conceitos listados, você acabará tropeçando, cedo ou tarde, com o Fabuloso Mundo das Falácias Argumentativas.

Mas, afinal, o que é uma falácia?

O termo falácia deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Ela é um raciocínio equivocado com cara, corpo e jeitão de verdadeiro. Podem aparecer nos “textões” com verniz emocional, íntimo ou psicológico, mas sem apresentar qualquer validade lógica. A lista das mais conhecidas falácias argumentativas é enorme, mas você pode conferi-las clicando aqui

As mais comuns, ou as mais utilizadas nas rinhas em que transformaram os debates na internet, são também as mais bobocas e provincianas. Você vai concordar comigo. Vamos ao Top 5:

I — Falácia do Espantalho

É a desmoralização de um argumento para torná-lo fácil de atacar.

Ex: João diz que o Partido X é o mais corrupto, afinal, os seus principais líderes são principais responsáveis por inúmeros desfalques bilionários. Maria responde que o Partido Y também é gatuno, afinal, quando estava no poder também lambuzou-se no pote de melado da corrupção, e aproveita para questionar os motivos pelos quais João calou-se no período em questão (dando a entender que João é solidário ao Partido Y).

II — Apelo à emoção

Utilizar um argumento emocional na tentativa de suplantar um argumento válido ou verdadeiro.

Ex: Lucas diz que o bandido que surrupiou seu celular deveria pagar pelo que fez e permanecer um bom tempo na cadeia. Luciana responde que Lucas só diz isso porque recebeu tudo de mão beijada dos pais, e que o ladrão, miserável e sofrido; só agiu assim por absoluta necessidade.

III — Ad hominem

Atacar o oponente em vez de refutar o argumento apresentado por ele.

Ex: Gustavo diz que a desvalorização do Real em relação ao Dólar foi acachapante, mostrando gráficos comprovando que a moeda brasileira também levou uma surra de outras dezenas de moedas ao redor do mundo. Danilo retruca, afirmando que os dados transmitidos por um mero escriba não devem ser levados a sério.

IV — Tu também (Tu quoque)

Responder críticas com críticas, como se fosse uma desculpa qualquer.

Ex: O candidato Paulo Maluco é acusado pelo ex-presidente Luís Amâncio da Selva de ladrão do dinheiro público. Maluco devolve a acusação, insinuando que Amâncio já participou de maracutaias, pedaladas, pedalinhos e outros que tais.

V — Ad populum

Apelar para a popularidade de um fato, fugindo do fato em si.

Ex: Carlos diz que um programa assistencialista do governo propicia concentração de renda. Joaquim responde que um programa responsável por ajudar milhões de pessoas não deveria ser colocado sub judice jamais.

Menções honrosas: Reductio ad Hitlerum (redução ao hitlerismo), Non sequitur e Complexo do pombo enxadrista.

Recebeu “textão” pra ler? Analise o material cuidadosamente e tente encontrar pelo menos uma falácia cometida pelo autor da vez. Existe uma grande possibilidade de você encontrar uma aqui, outra acolá…

3- Como vencer um debate (sem ter razão).

Agora que você já está familiarizado ao conceito de silogismo aristotélico e conhece bem as principais falácias argumentativas que os sofistas vivem a destilar ad nauseam por aí, está na hora de aprender as artimanhas da erística, a rainha da disputa argumentativa no debate filosófico. É um tipo de raciocínio que admite meios escusos e repletos de falácias para se alcançar uma apoteótica vitória em um debate. Também representa a principal motivação dos “textões” engajados, politicamente corretos e recheados de ideias progressistas direcionados aos opositores do outro lado do tabuleiro.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, estudou a dialética, a erística e as táticas e estratagemas de grandes debatedores para perceber que nem sempre o argumento certo, ou verdadeiro, vence uma contenda intelectual.

A arte de discutir, e discutir de forma a vencer um debate, quer se esteja certo ou errado, por meios lícitos ou ilícitos. Um homem pode estar objetivamente certo, e ainda assim aos olhos de espectadores, e por vezes a seu próprio ver, parecer estar errado”.

É dessa maneira que o filósofo resume a tese em seu libelo “A Arte da Controvérsia” — mais tarde transformado no livro Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão. A obra reúne uma lista com 38 maneiras de vencer uma discussão.

Destaco aqui, uma listinha curta, com o que considero ser o Top 5 da desonestidade intelectual:

I- Deixe o seu oponente furioso. Uma pessoa enfurecida é menos capaz de usar o seu julgamento ou de perceber onde residem as suas vantagens.

II- Ignore a proposição do seu oponente, destinada a referir-se a alguma coisa em particular. Ao invés disso, compreenda-a num sentido muito diverso, e em seguida refute-a. Ataque algo diferente do que foi dito.

III — Se o seu oponente admite a verdade de algumas de suas premissas, abstenha-se de pedir que ele concorde com a sua conclusão. Mais tarde introduza suas conclusões na conversa como coisa resolvida ou admitida por ele. O seu oponente e outros na assistência poderão ser levados a acreditar que foi de fato com a sua conclusão que ele concordou.

IV- A fim de fazer com que o seu oponente aceite a sua proposição, apresente também uma contraproposição oposta. Se o contraste for acentuado, seu oponente acabará aceitando a sua proposição para evitar parecer controverso. Exemplo: se você quer que ele admita que um rapaz deve fazer absolutamente qualquer coisa que o seu pai manda que ele faça, pergunte se o seu adversário acredita que “devemos em tudo desobedecer aos nossos pais”. É como colocar o cinza ao lado do preto e chamá-lo de branco, ou colocar o cinza perto do branco e chamá-lo de preto.

V- Quando o seu oponente apresenta uma proposição, considere-a inconsistente com as declarações, crenças, ações ou omissões do oponente. Exemplo: Se o seu oponente defende o suicídio, pergunte imediatamente: “Então porque você não se enforca?” Se ele observar que a sua cidade não é um lugar bom para se viver, pergunte: “Então por que você não parte no primeiro avião?”.

OBS: Caso queira conhecer os 38 estratagemas, compre o livro! Você não vai se arrepender.

Fim de “textão” deve ter conclusão? Deve!

A produção de bons textos exige muita reflexão. E muita leitura! O domínio do idioma, da lógica e do pensamento nunca foi tarefa das mais fáceis.

O verdadeiro caráter literário está ligado à tradição e à identidade cultural. Sem leitura — dos grandes clássicos, principalmente — é impossível escrever boa coisa. Sem o devido polimento, a experiência de escrever pode tornar-se um desastre.

A soma de uma boa leitura com a escrita refinada é determinante para a reprodução de boas ideias, com o poder de transmitir o verdadeiro discernimento entre os vícios e as virtudes, o bem e o mal. Uma frase de T.S Elliot resume bem o que eu quero dizer:

“Nós escrevemos não somente como a nossa geração escreve.”

O passado não está morto. Ele nos alimenta.

Se você não é um bom observador do passado e da realidade que o cerca, não é capaz de se colocar na pele de outras pessoas e não consegue captar as nuances comportamentais dos seus pares, dificilmente será um bom escritor. Também encontrará inúmeras dificuldades para distinguir as funções da linguagem, virando o refém de um discurso apelativo, que pode até tocar o coração, mas que aprisionará seu cérebro em uma gaiola para sempre.

Trocando em miúdos, não seja o tiozão do caps lock, muito menos o revolucionário das palavras vazias; não caia na armadilha da ego trip e nem dê tanta importância às coisas pequenas. Apegue-se ao funcionamento da grande engrenagem que move o mundo.

Conecte-se sem medo à realidade, seja seletivo, mergulhe na dicotomia do Eu e saiba extrair de um “textão” as grandiosidades de uma cultura. Dê uma forcinha à sua sinapse, afinal de contas…

“Quem não se comunica, se trumbica.”