Acordos societários
Esse texto foi escrito como apoio pro vídeo acima onde falei um pouco de acordos societários. Como já dito, uma empresa é um mito, uma história que você cria com algumas restrições (tipo lei) mas de maneira geral com muita abertura para definições do que é bom pra vocês. Aqui sugiro algumas perguntas cujas respostas ajudaram (ou a ausência de resposta atrapalhou) a mim e/ou outros empreendedores próximos.
Se você precisar de apoio para ter essa conversa com segurança ou estiver tendo dificuldades de convergir em respostas, sugiro dar uma ligada para pessoas com experiência em CNV (comunicação não violenta), como Kiu Coates e Thiago Saldanha ou falar com galera da TargetTeal, como Marco Barón. Separei as perguntas em 3 famílias: decisões, saída/entrada e grana.
Decisões do dia a dia e estratégicas da empresa:
. O que é uma decisão estratégica dos sócios e o que é uma decisão que a Diretoria/Operação toma? O que sócios podem ou não definir à despeito de suas funções na empresa? Exemplo: alguém quer trocar um ingrediente do produto porque é mais barato/saudável/sustentável/etc. Quem toma? Já vi como resultado dessa conversa definições tipo:
- Qualquer definição de investimento maior do que R$50.000 e/ou de novas operações (loja/fábrica/sede) para contratos de 30 meses tem que passar pelos sócios (todas as outras podem ser feitas pela diretoria sem aprovação)
- Qualquer novo produto tem que passar pelos sócios
- Contratações e demissões não passam pelos sócios
- Aumento salarial anual do time tem que ser validado pelos sócios
- Funções/Responsabilidades/Cargos dos sócios não é assunto dos sócios, mas da operação. Ex: eu no Brownie hoje tenho um líder que não é sócio. Ele pode me demitir ou mudar minha função dentro da área dele como quiser à despeito da opinião dos sócios
- Sócios definem o Presidente da empresa.
- Sócios dão a visão de longo prazo (“queremos crescer nosso faturamento e lucro sem parar” / “vamos focar em novos negócios e manter a operação atual mais ou menos como está”) e diretoria desenha planejamento estratégico (quais os nossos objetivos e como vamos alcança-los)
- Sócios aprovam mas não desenham o planejamento estratégico
. Quando há discordância entre sócios, como decidir? Consenso? Como é o processo para tomada de decisão por consenso? (se deixar para o estilo "feira" é bem capaz de chegar a um "cansenso" onde só se chega a um acordo para sair logo da reunião). Uma pessoa = um voto? Por % da empresa? Há algum processo de tomada de decisão colaborativa que vocês podem rodar antes de ter que apelar para essa regra última? Vale lembrar que votação é um modelo que consideramos democrático, mas que potencialmente deixa 50%-1 das pessoas tristes. Há MUITAS maneiras de se conduzir uma conversa para chegar a uma decisão "democrática" sem votação. Sociocracia (vídeo curto e com legenda) pode ser algo a ser estudado aqui :)
. Dividendos serão divididos quando: (i) terminarmos a obra da nova sede, (ii) salário do funcionário que menos ganha estar acima de R$1.200 e (iii) reservarmos pelo menos R$100.000 em caixa para investimentos futuros. Eles serão divididos proporcionalmente às cotas que temos da empresa.
Há muitas possibilidades! Esses estão só alguns exemplos do que vocês podem sentir que é importante definir e algumas definições que podem sair. Vocês podem escolher não compartilhar os dividendos em proporção às cotas da empresa, vocês podem decidir que um sócio basicamente manda em tudo. Cada um sabe de si.
Lembrando, as vezes é melhor definir poucas e importantes coisas e na medida em que se sentir necessário, acrescentar (ou eliminar) combinados.
Quais os acordos de saída e entrada?
. Se eu quero sair da operação, posso continuar como sócio?
. Seu sócio não está agindo da maneira que você acha que respeita os acordos que vocês fizeram. Qual o processo que se segue? Aqui você pode ter algo para responder no nível da operação e no nível do corpo societário. Talvez um sócio possa ser demitido da sua operação e se manter como sócio. Talvez não ;)
. Se nós 2 queremos nos tirar, como fazemos?
. De quem é a marca? Quanto ela vale?
. Quero sair, posso vender? Para quem? Esse alguém pode estar fora da sociedade? Quanto vale minha parte?
. Queremos adicionar mais sócios ao nosso corpo societário? Se sim, queremos fazer um plano (ex: "quem estiver na empresa há pelo menos 5 anos e cumprir os objetivos X, Y e Z pode comprar 2% da empresa por R$2.000") ou queremos tocar isso de maneira mais orgânica?
. Se queremos um sócio-investidor, ele terá responsabilidades diferentes das nossas? Será que faz sentido definir um preço para esse risco que ele está tomando? Ou seja, se investiu R$50.000, ele vai receber dividendos por esses R$50.000 para sempre ou podemos definir um valor, tipo R$500.000 ou R$1M que se ele chegar a receber isso, ele sai/para de receber pelo dinheiro que botou?
Sociedade e grana:
. Como entender o impacto do dinheiro que cada um bota na empresa?
- O dinheiro que um sócio coloca equivale ao trabalho que outro está colocando sem ganhar nada? Muitas vezes esse acordo é justo quando um sócio continua no emprego, trabalha bem menos na empresa e tem fôlego financeiro para botar uma grana que seja necessária enquanto outro está trabalhando de graça ou quase isso tempo integral na empresa.
- O dinheiro simplesmente entra no caixa e é isso, nada a fazer?
- O dinheiro entra como empréstimo e depois a empresa devolve corrigido? Ou seja, eu posso botar R$20.000 ao longo do primeiro ano e quando a empresa começar a lucrar ela me devolve isso com correção de inflação e nós ficamos quites?
- O dinheiro investido aumenta as minhas cotas na empresa? Ou seja, estou investindo e ganhando mais % das cotas?
Eu vi MUITA zica acontecer nesses pontos relacionados a grana, em especial porque muitas vezes quem bota a grana está distante e entende muito pouco do que está se passando, quem usa não registra bem como usou e muitas vezes algum desses decide sair.
Quando eu falei sobre dinheiro no vídeo eu critiquei mais do que propus alternativas. Uma conta relativamente comum que vi empreendedores de negócios com propósito fazerem para avaliarem o valor das suas empresas (ou pelo menos contra balancear a conta de valuation) é a seguinte:
Dinheiro no caixa da empresa + matéria prima em estoque + produto acabado em estoque + dinheiro a receber (vendas a prazo) + equipamentos/bens físicos (se possível bota na conta algum chute de depreciação) - contas a pagar - dívidas = X.
Esse é índice que eu gosto de chamar de "foto do portuga". É como muitos negócios familiares tradicionais avaliam como está a saúde de sua empresa ao final de cada mês. Essa é uma versão bem simples do balanço patrimonial que podemos fazer sem tanto esforço.
Essa conta vale menos para empresas de serviço. Se eu passo anos numa empresa de consultoria, mais do que os computadores que compramos, o valor desse negócio está em contatos, experiência, entrosamento do time e reputação. Aí o negócio é mais complexo. Ao mesmo tempo, se você usufruiu do seu tempo como sócio, imagino que você tenha ganhado também contatos, experiência e reputação, então automaticamente você já está levando muita coisa. Quando eu saí do corpo societário de uma empresa de consultoria que trabalhei eu vendi minhas cotas por muito pouco, até porque sabia bem do fôlego da empresa naquele momento, ao mesmo tempo fiquei com os clientes que atendia, o que me possibilitou já sair de lá com meu orçamento mensal garantido para uma nova vida.
Não há resposta fácil aqui. Me parece que conversar antes de dar xabu sobre esse tema é rico, pois quando dá xabu há muita argumentação possível para todo lado, porque geralmente essas conversas passam por:
. potencial de geração de grana que a empresa tem para frente (futuro que não existe hoje e para o qual essa pessoa vai ganhar pelo que ela já contribuiu no passado pelo que vem à frente e não vai trabalhar para receber, pois já é algo que merece)
. momento para muitos sócios tentarem "botar em dia" (muitas vezes com algum grau de vingança) toda a falta de reconhecimento e frustrações que sentiram nos anos que passaram
. momento de tentar garantir (mesmo que inconscientemente) uma segurança financeira para todo o futuro incerto que tem à sua frente.
Como você pode imaginar, o negócio pode ficar bem cabeludo! Ao mesmo tempo, algumas propostas que pareciam impossíveis de serem aceitas em mesas nas quais sentei para apoiar sócios na sua separação , tipo "se alguém resolver sair, sai sem ganhar nada/com 6 meses de salário", são muitas vezes um dos primeiros lugares de concordância em conversas com sócios que estão começando e a relação ainda está fluida. Então como na maior parte das coisas da vida, aqui é bem mais barato prevenir do que remediar.
Boa sorte nas prevenções!! =D
Bjs no ❤ e até a próxima
