Como definir (e medir) os Valores da minha empresa? (nível 2)

Escrevo esse texto para quem está interessado em definir os valores da sua empresa e como complemento do vídeo acima. Quem quiser um conteúdo mais simples para definir os valores da empresa vai para o outro post que fiz sobre o assunto!


Como inspiração para definição dos valores de empresas que visam impacto positivo no mundo, eu curto muito o trabalho do Richard Barrett, que escreveu o livro A Organização Dirigida por Valores, por 3 principais motivos:
1. Vejo muita sinergia entre esse trabalho e o da Comunicação Não Violenta, que é algo que estudo e pratico há alguns anos e que contribui em muito para eu ter relações mais íntegras e profundas comigo mesmo e com quem me relaciono. Ao trazer a linguagem dos valores/necessidades para o trabalho, me sinto muito apoiado na hora de lidar com as situações mais difíceis do dia a dia.

2. Esse trabalho se propõe a medir cultura, algo que para mim sempre foi muito sutil e difícil de tangibilizar. É claro, vale sempre lembrar que todo modelo é falso, mas alguns são úteis. Para mim esse modelo cai na categoria dos falsos e muito úteis.

3. Ele permite uma série de cruzamentos e aprofundamentos que pode contribuir para (utilizando vocabulário tradicional de negócios) avaliações de desempenho, planos de carreira, planejamento estratégico e até auto-conhecimento de cada um que participa da sua empresa.

É muito importante deixar claro que eu alterei estruturalmente o trabalho do Barrett para fazer essa proposta, aqui incorporo alguns aprendizados do processo que passamos no Brownie do Luiz e outros com quem tenho trocado. Como todo texto "mão na massa" que tenho escrito aqui, opto em pecar pela simplicidade para não ficar tão longo, por isso se você tem interesse em fazer isso de maneira realmente estruturada e investir uma boa energia nisso, leia o livro da foto acima e/ou entre em contato com pessoas que trabalham especificamente com essa metodologia e podem fazer um trabalho mais sólido, como o Fausto (Fausto.amadigi@gmail.com). Aqui estou propondo o basicão pois entendo que o ritmo de vida do empreendedor muitas vezes nos bota numa posição de querer soluções rápidas e simples que, é claro, vem com um custo, nesse caso explorar menos o potencial da solução e fazer o trabalho com menos segurança.

Como definir os valores?

O que eu entendo do trabalho desenvolvido pelo Richard é que mais do que definir valores, o nosso trabalho é revelar os valores que já estão lá. Se sua empresa já opera, já tem Seres Humanos contribuindo no dia a dia para fazer o negócio acontecer, então já há valores norteando as decisões, nosso trabalho é revela-los e cultiva-los (ou conscientemente nutrir outros), e não definir algo do nada.

Defini-los numa sala fechada (como sugerido no outro texto) é muito comum, principalmente no século passado, quando passou a ser uma boa prática ter valores nas empresas, e é uma maneira mais fácil e segura de chegar a um resultado, mas imagino que para o tipo de empresas que queremos criar e para a qualidade do engajamento que queremos da nossa equipe, adaptações do método do Barrett podem cuidar melhor das nossas intenções.

Como definir os valores?

  1. Faça uma cópia dessa planilha e leia com calma a lista de valores, traduzindo o que for necessário para a linguagem da sua empresa. Na primeira versão que fizemos no Brownie do Luiz havia a palavra "serviço". Para mim serviço tem a ver com fazer algo sem esperar nada em troca. Quando perguntei para uma pessoa da nossa equipe ele falou que serviço é quando você fica de bobeira no trabalho fazendo hora fingindo que está trabalhando. Mais do que chegar a uma definição para tudo, faça seu melhor para botar palavras que significam algo parecido para todos.
  2. Dá um tapa no design, bota sua logo, cores que você usa e faz um trabalho que mostre o carinho que você tem, é nas coisas sutis que conseguimos um engajamento mais inteiro de nossa equipe.
  3. Defina que parâmetros você gostaria de cruzar depois. Eu sugeri área da empresa e tempo de casa, mas você pode cruzar gênero, raça-étnica, escolaridade, idade e tantos outros. Isso não impacta tanto na definição dos valores, mas nas possibilidades de trabalhar em cima desse material no futuro. Acho valiosa a possibilidade da pessoa participar anonimamente também!
  4. Esconda a coluna "potencialmente limitante" (mais sobre ela à seguir).
  5. Peça para sua equipe preencher a planilha nas 3 dimensões, uma por pessoa: o que ele valoriza hoje nas suas atitudes diárias, o que ele percebe que a empresa valoriza no seu dia a dia e o que ele desejaria que a empresa valorizasse para conseguir alcançar seus objetivos. É para sinalizar 10 em cada coluna, não mais e nem menos.
  6. Compile os dados! Eu não fiz uma planilha de compilação ainda, se você a fizer e quiser deixa-la pública, me manda que eu boto aqui. O mundo agradece =D

O que fazer com os resultados?

Quando fizemos no Brownie do Luiz, houve uma convergência muito grande de 4 palavras: amor, colaboração, humildade e espírito empreendedor nas colunas 2 e 3. Foram as 4 respostas que mais saíram com uma grande distância para as outras respostas, por isso definimos esses como nossos 4 valores. Amor é um que temos muita dificuldade de conseguir tangibilizar e reforçar no dia a dia (tem pai que bate no filho "por amor"), por isso mesmo ele não está mais na lista (essa da planilha que passei é a que usamos hoje e ainda não re-fizemos esse exercício como empresa desde então).

Depois de definidos, vale:

  1. Encontrar palavras que expressem aquele valor e reflitam sua cultura. Nós fomos bem tradicionais, mas nesse post o escritor sugeriu "sangue nos olhos", "de boa na lagoa" e "ser ninja". É importante que as pessoas lembrem do que foi escolhido, e ser despojado é uma estratégia para ajuda-los nessa tarefa.
  2. fazer uma boa descrição do que cada um deles significa no contexto da sua empresa. A Zappos fez um trabalho lindíssimo sobre isso. Há esse e esse trabalho que detalham melhor cada valor e o que eles significam. Nessa outra eles falam como eles reforçam cada um no seu dia a dia.
  3. analisar as políticas e atuação da sua empresa à luz dos seus valores. Onde você está sendo incoerente (e o que fazer sobre isso) e onde você tem oportunidades de potencializar o impacto dos valores?
  4. priorizar projetos e decisões levando em consideração seus valores. Lembre deles na hora que estiver decidindo algo! Com o tempo fica cada vez mais natural. Você pode fazer uma matriz como a abaixo com seus valores e outros parâmetros que acha importantes levar em consideração para decidir. Botei uma situação totalmente aleatória abaixo:

Se você não tiver uma convergência grande, não há resposta pronta, e nós como empreendedores somos aprendizes da arte do improviso, né? Então há algumas possibilidades:

  1. Você simplesmente apresentar o resultado como ele saiu. É uma solução mais caótica, mas muito transparente (e mais próxima ao processo sugerido pelo próprio Barrett) e que permite ao time ver como o próprio time enxerga a empresa. Nesse caso você não teria uma definição de 3 ou 4 valores mas algo como uma nuvem de tags de valores.
  2. Você pode fazer diálogos sobre os que mais saíram para tentar chegar a uma lista menor.
  3. Você pode arbitrar uma escolha e apoiar seu time a entender porque você definiu aqueles após a pesquisa.

Se sentir que há muito desalinhamento de cultura hoje, pode fazer esse exercício primeiro com menos gente, com pessoas que você considera mais importantes e/ou mais alinhadas à cultura que você gostaria de ter, facilitando o trabalho de diálogo caso as respostas sejam divergentes.

O que eu acho importantíssimo é: a partir do resultado, qualquer que seja, haja sobre ele! Se você encontrar valores que o Barrett considera "potencialmente limitantes" como culpa, controle, inveja, busca por status (eles estão com Sim na planilha) faça algo sobre isso no foco onde isso surgiu (geralmente surge em resposta a uma liderança). Se você viu coisas que entende que tem muito potencial ou algo se revelou que foi uma surpresa para você, explore isso. Algumas estratégias foram faladas no vídeo :)

Você pode estar se perguntando: "tá, mas nós só estamos usando as colunas 2 e 3 da planilha, o que faço com a 1?" No Brownie ela é insumo para a Pausa Para Reflexão (nossa versão da avaliação de desempenho). Essa primeira coluna pode ser muito valiosa para você como gestor entender melhor sua equipe e até mesmo cada um deles refletir sobre si para se entender melhor. É um bônus de aprendizado de si e insumos pra conversas.

Para finalizar, se você fizer esse trabalho de levantamento de valores, terá nas suas mãos um material muito rico para fazer diversas coisas, desde entender sua equipe a pensar futuro, de conversas que você pode ter hoje a um acompanhamento da evolução do que sua equipe valoriza ao longo do tempo. Se você teve uma sensação de que vale aprofundar nesse tema, manda bala porque pode ser bem rico!

Pronto! Dúvidas? Manda bala e vamos trocando sobre esse trabalho de botar nossa equipe no mesmo barco ☺

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