A melancolia excruciantemente bela de “Your Wilderness

The Pineapple Thief finalmente acerta em cheio e sai da bolha que o prendia

Quando o single “No Man’s Land” foi lançado no YouTube em 24 de maio, já estava claro que Your Wilderness (Kscope, 2016) retomaria a carga emocional da maioria dos registros do conjunto. Depois foi a vez de vir a público “In Exile”, muito mais direta e aquela que definitivamente ficará mais tempo soando na cabeça dos ouvintes logo após a audição. A canção como um todo é muito bem construída, levada por cordas constantemente lancinantes e coros e dotada de uma constância quase mântrica. O refrão é tão simples quanto belo, uma verdadeira declaração de independência: “don’t be afraid to miss me” (“não tenha medo de sentir a minha falta”). Não há qualquer outra faixa no disco que seja tão direta ao ponto quanto “In Exile”. A notória diferença é que nos discos anteriores, as faixas mais breves vinham na forma de um rock mais pesado e bastante baseado em riffs de guitarra, como “Nothing at Best” ou “Shoot First”. “In Exile” representa um salto de maturidade na medida em que atrela ótima composição tanto em termos líricos quanto musicais à forma da música pop. Os próprios vocais, sempre em uma série de densas camadas ao longo de toda a faixa, são gravados com inclinação para os tons mais agudos e quase que sussurrados. Por mais emotiva que seja uma seção, em Your Wilderness o canto nunca chega ao movimento dramático do refrão de “Sooner or Later” (de Variations on a Dream) ou “The World I Always Dreamed For” (de 10 Stories Down). Temos constatações tristes aos montes, um estado de consolo, sofreguidão por uma despedida que precisa ser esquecida. Your Wilderness abraça o ouvinte no escuro como o Pineapple Thief nunca fez.

Difícil calcular o quanto Bruce Soord, o líder indiscutível do Pineapple Thief, foi inspirado pelo rock insular do penúltimo trabalho de David Gilmour, On an Island (Columbia, 2006), mas a questão é que Your Wilderness é todo permeado por um isolamento bastante característico. Mérito do batizado correto das oito faixas do álbum, é até mesmo possível dizer que chegar a tal conclusão não requer uma única audição: “In Exile”, “No Man’s Land”, “That Shore”, “Fend for Yourself”, “Where We Stood”. Felizmente, a sensação de notório recorte de uma realidade, de uma relação, de uma situação, de uma tragédia, não fica apenas no campo lexical dos títulos. Com uma progressão que só faz acentuar a certeza de que Your Wilderness precisa para realmente ser visto como uma obra fechada, Soord estabelece uma jornada reflexiva com a beleza melancólica, mas irresistível, de uma praia de Ingmar Bergman.

A primeira novidade de Your Wilderness é sentida desde o primeiro segundo por qualquer fã de rock progressivo que não tenha vivido em Marte nos últimos quinze anos. Ainda que o ouvinte não esteja 100% certo sobre a identidade do convidado de honra mesmo após prestar atenção na levada e em cada virada de “In Exile”, sentir o timbre de cada peça do kit de bateria, qualquer dúvida se dissipa no ar assim que soa o primeiro solo de guitarra e surge absoluto Gavin Harrison, o monstro revelado pelo Porcupine Tree e que conquistou até mesmo Robert Fripp, que não hesitou em angariar o seu talento para mais uma volta triunfal do King Crimson com um trio de bateristas complementado por Bill Rieflin e o carismático Pat Mastelotto. Contratado para a ocasião, Gavin Harrison não deixa pedra sobre pedra em mais um trabalho de estúdio irrepreensível com direito ao acompanhamento em hi-hat tão utilizado no Porcupine Tree (“Start of Something Beautiful”, “Halo”) já em “In Exile” e os infalíveis pequenos pratos de efeito que pontuam uma infinidade de momentos, como ocorre muito claramente nos versos iniciais de “Take Your Shot” e na introdução de “The Final Thing On My Mind”. A dinâmica de bumbo duplo nas viradas, outra marca registrada de Harrison, também pode ser sentida e injeta uma bela pegada às faixas mais enérgicas de Your Wilderness.

O “blue” progressivo de Your Wilderness é destaque do início ao fim, mas faltam pouco menos de sete minutos para o término do disco quando Soord arremata com a mais das perguntas: “how did we get to be this cold? / how did I let you get so far from me?” (“como ficamos tão frios assim? / como eu deixei que você ficasse tão longe de mim”). A próxima faixa, “Where We Stood”, apenas encerra esse amargo diagnóstico como o réquiem que se esperava de um trabalho tão consistente como este.

Quando a caixa de bateria ataca em “Take Your Shot”, somos apresentados a um dos raros momentos de euforia do disco, mas este também não é tão duradouro. Com um canto levado pelo violão de Soord, um recurso do qual o músico não abre mão em nenhum dos exemplares da discografia, “Take Your Shot” traz uma carga roqueira e um alívio congruente com a tônica do disco na forma de provocação: “you held me down and took the fight / to the heart of my life / you set me up all of this time” (“você me segurou e entrou na briga / pelo amor da minha vida / você me enganou todo este tempo”).

Com a descarga da raiva em “Take Your Shot” e o espírito mais leve, chega aquela que é a mais clara representação do consolo com a situação dada, a própria expressão da tentativa de algum conforto no isolamento, no diálogo com a maré que traz consigo tudo que importa e foi ali deixado, no som do rufar das vassouras de Harrison na caixa de “Fend for Yourself”.

Fazem aparições também John Eliwell do Supertramp com um belo solo de clarinete em “Fend for Yourself”, uma faixa com um ar de fim de tarde cinzento em praia deserta irresistível, além de Darran Charles do Godsticks com algumas contribuições pontuais na guitarra e momento abrilhantado em primeiro plano no solo de “Take Your Shot”, e também Geoffrey Richardson do Caravan como responsável pelos arranjos do quarteto de cordas.

Com oito faixas que totalizam apenas 41 minutos de duração, Your Wilderness é o trabalho mais curto de toda a discografia do The Pineapple Thief, que agora conta com onze títulos. O trabalho anterior, Magnolia (Kscope, 2014), representou um nítido esforço para tentar se aproximar mais do público estadunidense e cair no gosto de um nicho além daquele ávido por qualquer coisa que flerte ligeiramente com o rock progressivo, mas resultou em um disco bastante insosso de modo geral, já esquecido pouco tempo depois. Mas Your Wilderness veio para retificar isso e trazer o melhor dos dois mundos: um som tão sofisticado e belo quanto capaz de ser difundido em públicos de vários perfis diferentes.

Foto: Rob Monk

Não é só a banda que esteve todo este tempo relegada a um segundo plano do cenário do rock progressivo mundial, mas Bruce Soord é muito provavelmente um dos guitarristas mais subestimados da sua geração. Coloque a agulha em qualquer sulco de qualquer exemplar da discografia do The Pineapple Thief e não demorará muito até que um exemplo de excelente bom gosto guitarrístico surja. Podem ser riffs roqueiros de grande pegada como em “Nothing a Best”, “Show a Little Love” (de Someone Here Is Missing, 2010) “Judge the Girl” (Abducting the Unicorn, 1999) “Catch the Jumping Fool” (10 Stories Down, 2005) ou “Burning Pieces” (All The Wars, 2012), solos memoráveis como em “Kid Chameleon” ou “PVS” (137, 2002), ou partes essencialmente acústicas tão singelas quanto em “God Bless The Child” e Snowdrops” (Little Man, 2006), a atenção de Soord para o trabalho nas seis cordas é admirável. As notas abafadas e repletas de harmônicos acidentais com uma mão direita leve e solta, uma das marcas registradas de Soord, podem ser conferidas já na faixa de abertura de Your Wilderness, principalmente na passagem que marca a entrada dos instrumentos de forma mais agressiva do “overture” “In Exile” (aos 1’34”), e em diversos outros momentos do álbum. Não há muito espaço para improvisos, é tudo muitíssimo bem controlado em um trabalho de produção e engenharia de som de primeira linha a cargo também de Soord. As guitarras repletas de sujeira da faixa-título de Tightly Unwound parecem algo vindo de uma banda absolutamente diferente, uma anomalia na paisagem sonora de Your Wilderness.

As comparações com a trajetória de Steven Wilson são inevitáveis. Assim como fez Wilson no fim da década de 1980, Soord lançou seu trabalho sob a alcunha The Pineapple Thief em 1994, depois de sair do Vulgar Unicorn, um projeto bastante de tons bastante groovados e espaciais, o que também explica o título do primeiro disco. Seria Abducting the Unicorn a versão britânica de Matança do Porco (EMI, 1973) do nosso Som Imaginário? Claro, a irônica semelhança entre os nomes (Porcupine Tree, Pineapple Thief; o artigo “The” dependerá do disco que tiver em mãos) e ambas as bandas serem referenciadas pela sigla “PT” ou “TPT” não ajuda, tampouco o estúdio de Wilson se chamar No Man’s Land, nesse sentido.

Nos primeiros registros do The Pineapple Thief, não eram poucas as vezes em que a voz anasalada de Bruce Soord fazia lembrar muito Billy Corgan, as mãos e o cérebro do Smashing Pumpkins. No entanto, foi apenas em Little Man (Cyclops, 2005) que Soord realmente encontrou o registro ideal e o seu próprio caminho vocal, o que foi especialmente importante nesse álbum em particular. Sob qualquer prisma, Little Man é o trabalho mais sofrido já gravado por Soord. Sofrido, não sofrível. Mesmo que você esqueça a arte do disco (seja na versão original ou no “remaster” de 2010 da Kscope) e fingir não saber de Felix, o bebê prematuro que o líder do The Pineapple Thief perdeu com apenas três meses de vida, Little Man é de um sofrimento ímpar. Como ouvir o piano simplório e repetitivo de “Wilting Violet” e fingir que “I wish I thought a little harder / To make the mess I’m in / Learned to crawl a little further / When there was someone within”) é apenas mais uma letra sem sentido para ocupar o ambiente sonoro de uma banda de rock? E Soord continua pelo resto da canção se lamentando: “I wish I gave a better answer” (“Eu gostaria de ter dado uma resposta melhor”). O encerramento, “We Love You”, não é para os fracos. É, na verdade, um teste de resistência, um final com o qual é difícil não se comover e se sentir pelo menos por aquele momento junto de pais abalados pela inversão da ordem natural das coisas. O disco precisa acabar em algum momento, mas com Little Man não restam dúvidas de que Soord poderia gritar aos quatro cantos que “we need your soul / to feed our world” (“Nós precisamos da sua alma / para alimentar o nosso mundo”) até o fim dos tempos.

Tightly Unwound (o tipo de título paradoxal que faz pensar se o músico não seria fã do último filme de Stanley Kubrick, Eyes Wide Shut), a estreia da banda na gravadora Kscope (que também conta com Porcupine Tree, Anathema, TesseracT, entre outros em seu catálogo) em 2008 veio junto de uma produção muito mais apurada e uma vontade de trabalhar de bons riffs em músicas mais curtas e deixar as partes mais sentimentais para os épicos “Different World” e “Too Much To Lose”, um fechamento bastante inspirado em “Comfortably Numb”. Uma pena que o mesmo não possa se dizer da parte gráfica do disco, remanescente de um recorte mal feito de alguma tela que Max Ernst esqueceu de jogar fora.

Essa tendência prosseguiu com Someone Here Is Missing (Kscope, 2010), um dos melhores trabalhos de toda a trajetória do conjunto de sotaque britânico. O disco todo é inspiradíssimo e surpreende logo de cara com a excelente dobradinha “Nothing At Best”/”Wake Up The Dead”. As guitarras estavam tinindo e a cozinha arrumada como nunca, com destaque para o baterista Keith Harrison (mais uma tremenda coincidência, já que não há qualquer parentesco entre Keith e Gavin). Além do louvor por um bom disco, a banda atraía mais alguns novos holofotes com a capa assinada por Storm Thorgerson, célebre pela identidade visual de discos icônicos do rock progressivo de ontem e de hoje, como Atom Heart Mother, Dark Side of the Moon, Animals, The Division Bell, entre muitos outros do Pink Floyd, Houses of the Holy e Presence do Led Zeppelin, The Lamb Lies Down on Broadway e Trick of the Tail do Genesis, De-loused in the Comatorium e Frances The Mute do The Mars Volta. All The Wars (Kscope, 2012) manteve o alto patamar de produção e composição e conta com faixas-chave, como a faixa-título e “Build a World”, que também rendeu um EP homônimo mas a maré de boa sorte e bons esforços, retomada agora com Your Wilderness, fora interrompida abruptamente com o decepcionante Magnolia, quando Bruce Soord dispensou os colaboradores habituais e tomou as rédeas, mas não vingou.

Your Wilderness consegue a façanha de configurar o trabalho mais denso e completo nos 15 anos de vida do Pineapple Thief com o menor “running time”. A constatação aritmética de que se trata do álbum mais curto da carreira da banda parece falaciosa quando soa a última nota de “Where We Stood”. Ou seja, o todo deste belíssimo registro é muito maior do que a mera soma das suas partes. Um convite bastante curioso para quem descartaria um disco como Abducting the Unicorn baseado exclusivamente em uma informação sintomática, os mais de 18 minutos da última faixa, “Parted Forever” (não, o tema da separação não é exatamente uma novidade na obra da banda). Este lançamento de 2016 faz com que o empreendimento de Soord conquiste mais ouvidos propensos a se sensibilizarem com um trabalho com a virtude inegável de carregar na tinta emotiva sem escorregar para o piegas nem se assemelhar a um teste de resistência musical. O mesmo não pode ser dito com tamanha veemência a respeito do cardápio anterior do conjunto e, afinal de contas, de nada adiantaria ter um chamariz como Gavin Harrison assinando as baquetas do registro se o saldo final não fosse de qualidade equivalente.

Foto: Rob Monk

A dedicação a um trabalho mais polido, de produção irretocável, e belas melodias estão rendendo frutos cada vez maiores a Bruce Soord e seus companheiros. Os primeiros comentários sobre Your Wilderness a pipocar na imprensa britânica não poderiam ser mais elogiosos. Antes, Soord já participara de uma roda de perguntas e respostas com os bastiões do progressivo moderno Steven Wilson do Porcupine Tree e Mikael Åkerfeldt do Opeth em matéria publicada na edição de agosto da Total Guitar. Como ocorre com o bom goleiro, que não precisa ser competente apenas, mas ter sorte também, a edição traz ninguém mais, ninguém menos que a divindade viva da guitarra Jeff Beck na capa, algo que por si só já deve levar a figura de Soord a um público mais amplo que talvez ignorasse a discografia do The Pineapple Thief até então.

É curioso notar como um disco cujo lírico procura compreender o desconhecido do outro para adentrar na sua própria floresta repleta de sentimentos selvagens seja responsável por aquela que é a melhor aposta do Pineapple Thief para se comunicar com toda uma geração de apreciadores que desconheciam a banda até o momento ou simplesmente nunca lhe tinha dado a devida atenção. De alguma forma, ao abrir o disco com “In Exile”, Soord parece elaborar uma interessante figura alegórica. Assim como Steven Wilson fez com “Dark Matter” ao comparar o conceito de matéria escura da física quântica ao artista independente, Soord canta sobre um casal que visivelmente não pode mais ser, mas também pode ser o caso de estar se despedindo de todo um cenário que não comporta mais as suas pretensões, altas e justificadas. Compreensivo, deixa que sintamos a sua falta e até que o odiemos simplesmente por ter evoluído como todo bom artista sabe fazer. “Don’t be afraid to miss me. Don’t be afraid to hate me.

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Your Wilderness está à venda na loja virtual da gravadora Kscope, no iTunes e também está disponível nas plataformas de música por streaming Spotify e Deezer.


Originally published at sociedadepublica.com.br on September 20, 2016.