The Republia Times (ou “Como parei de me preocupar e comecei a amar a inteligência nos games, grandes e pequenos”)

The Republia Times (Lucas Pope, 2013) foi feito para a “fase de aquecimento” do Ludum Dare, um grupo de desenvolvedores engajado na realização de novos jogos. O desafio do evento é produzir um game, com temática votada por seus próprios usuários, em um prazo irrisório, um fim de semana. Atualmente na sua vigésima-nona edição, o Ludum Dare já colocou milhares de games para votação em uma espécie de versão expressa de Steam Greenlight que Geoff Howland fundou há doze anos.
O gamer que já tiver gastado algumas horas com as intrigas de Papers, Please (Lucas Pope, 2013) notará facilmente a semelhança temática, em primeiro lugar, e depois a permanência da forte herança do clicar e arrastar dos antigos jogos de PC. Você é o novo editor-chefe do jornal de Republia e assume o cargo logo após a vitória na guerra contra a Antegria e derrocada dos rebeldes. Sua tarefa é selecionar as notícias para publicação a dedo visando melhorar a imagem do governo perante seu povo, que não tem lá muitos motivos para ser fiel a ele. O encerramento do introito é hilário: “Para evitar que você seja influenciado, sua esposa e seu filho estão mantidos em um local seguro”. Note a insígnia do “Ministry of Media” no cabeçalho.
Com um poder de síntese impressionante, The Republia Times é um exercício diabólico delicioso de mídia e poder. Assim como em Papers, Please, o briefing é realmente unilateral e maniqueísta no começo, a única alternativa de sobrevivência possível (ou seja, “linha de jogo”) é trabalhar em prol do projeto de dominação de corações e mentes do governo. Com o desenrolar dos estágios, surge o outro lado da moeda na figura do rebelde clandestino que lança uma saída: “Eu sou Kurstov, líder dos rebeldes. Nós precisamos da sua ajuda”. “Nós podemos resgatar a sua família. Mostre deslealdade nas edições. Você tem 4 dias”, na mensagem subsequente.

The Republia Times: design funcional e tudo muito familiar na mesa de um editor-chefe sob pressão
O jogo ensina que, além do conteúdo, a exposição das matérias é fator decisivo para definir seu impacto sobre o público-leitor e dá três opções de tamanho para cada uma das notícias que chegam à redação em animação notável pelo saudosismo duplo, tanto em matéria de gaming quanto de sala de imprensa. O bom humor sarcástico se faz presente em diversos momentos entre uma fornada e outra do jornal: “O governo não pode controlar o clima ainda, de modo que artigos sobre a meteorologia não afetam a lealdade”.
O tempo urge e você tem pouco mais de um minuto, das seis da manhã às seis da noite no relógio do universo do jogo, para fechar a edição daquele dia. O caro desenvolvedor dá o merecido descanso ao guerreiro de Republia com o botão “Dormir” (“Go to sleep”) como deixa para o próximo dia, ou estágio, de trabalho e dá o devido feedback sobre o resultado da influência da seleção e formatação das notícias que você fez.
Há duas vertentes de desempenho no jogo, ora o jogador deve se empenhar para aumentar a lealdade do povo através do destaque das notícias de cunho populista, ora é necessário abraçar a filosofia do “pão e circo” e do ócio com gosto, pois sabemos que os cidadãos de Republia “são fascinados pela meteorologia” e há uma série de notícias de escândalos e polêmicas com personagens do show business e dos esportes. Assim como Arstotzka, a nação absolutista de Papers, Please, tudo fictício, mas muito verossímil.
Simuladores e “god games” já se utilizaram da representação da imprensa como recurso não só de humor, mas de retorno a respeito do sistema das consequências das ações do jogador. Mais notoriamente a série Sim City de Will Wright, que desde muito cedo trabalhou com o hiperbólico para o bem ou para o mal. “Único cidadão com cárie é tratado e passa bem” era o jeito de mostrar em uma manchete que numa megalópole bem administrada, a natureza e o tamanho dos problemas são outros. A grande sacada do conceito de The Republia Times é uma mudança de paradigma de cento e oitenta graus, com o jornal passando de mero reflexo a propagador, agente ativo de determinada ideologia. Tropico e suas sequências brincam muito com a caricatura dos regimes sul-americanos e também permitem ao jogador estabelecer qual será a linha de trabalho dos meios de imprensa, com o apoio de um ou outro setor da sociedade conforme a escolha (militares, religiosos, intelectuais, etc.).

El Presidente, protagonista caricato, mas nem por isso menos interessante, relembra Chaplin no trailer de Tropico 5
O trabalho de desenvolvedores como Lucas Pope remete ao sistema emocional sugerido pelo então jovem Sartre: “O ator imita a alegria, a tristeza, mas não está alegre nem triste, porque essas condutas se dirigem a um universo fictício. Ele imita a conduta, mas não se conduz” (Esboço para uma teoria das emoções, publicado originalmente em 1939). Como negar a inteligência de exercícios como The Republia Times, seja na incorporação do ditatorial ou na tentativa de quebrar a regra? Nesse sentido, desenvolvedores de games são atores que podem pensar o mundo e nos divertir ao mesmo tempo, exatamente como ocorre quando assistimos a uma montagem de A Cantora Careca (Eugene Ionesco, 1950), ou quando lemos Charles Dickens.
No âmbito educacional, a característica diminuta e simplória de um jogo pode, inclusive, trabalhar em seu favor. The Republia Times poderia facilmente ser usado como recurso em qualquer sala de aula do ensino fundamental. Sim, in loco, porque uma coisa é o docente dizer “joguem Black & White (Lionhead Studios, 2001) pelas próximas duas semanas e entreguem-me avaliação sobre a questão das instituições e imagens religiosas na sociedade” e outra completamente diferente é demonstrar as históricas possibilidades do “quarto poder” de forma extremamente lúdica e em alguns poucos minutos com a projeção de um game em Flash. No nível universitário, recomendemos a apreciação de jogos como Tropico e The Republia Times como acréscimo à análise de Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976), Cidadão Kane (Orson Welles, 1941) e leitura de 1984 (George Orwell, 1949) e Chatô, o Rei do Brasil (Fernando Morais, 1994), atribuições obrigatórias do primeiro dia de aula de todo e qualquer curso de Jornalismo.
Exercer a criatividade é tarefa tão importante para professores quanto para estudantes. No caso do jogo de Lucas Pope para a web, o natural para o educador deve ser usar de pragmatismo e fazer a turma colocar a botar a mão na massa, ou seja, brincar de editor-chefe com os jornais do dia, uma tesoura (grande símbolo dicotômico, instrumento do artista e da ditadura, da colagem e da cisão) e um grande pedaço de cartolina branca. E o que aconteceria se The Republia Times fosse um jogo de navegador online, comunitário e em tempo real, com o noticiário da vida real?
Alguém pode alegar que o cenário retratado por The Republia Times não é mais verídico. Adaptando uma lei da revolução iraniana de 1979 que proibia música em vias públicas, Mahmoud Ahmadinejad baniu todos os registros musicais do outro lado do Atlântico das rádios do país em 2005. Em 2013, cinco músicos de Teerã foram presos sob a acusação de colaborarem com músicos estadunidenses e transmissões por satélite. O Clarín, principal jornal argentino, publicou os escândalos de corrupção e estratagemas populistas de Cristina Kirchner e pagou caro, tendo que se desfazer de uma série de ativos e recebendo visitinhas-surpresa de agentes da Receita Federal e policiais nas redações munidos de mandados estapafúrdios. Muitos chineses se referem ao Departamento Central de Propaganda, responsável por assegurar que a imprensa e as expressões culturais sigam a cartilha do Partido Comunista, como “Ministério da Verdade”, em clara alusão ao órgão que zela pela manutenção do mote “guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força” no romance seminal de Orwell. Em matéria de Brasil, eu daria uma boa passada de olhos pelos artigos do Observatório da Imprensa e conferiria Mercado de Notícias (Jorge Furtado, 2014) assim que entrasse em cartaz nos cinemas.

The Staple of News, do dramaturgo inglês Ben Jonson, foi encenado pela primeira vez em 1625 e continua atual
Os potenciais de games como aqueles apresentados nas edições do Ludum Dare devem ser admirados como fazemos com carros-conceito em salões de automóveis, com a vantagem de que The Republia Times e muitos outros games independentes têm valor de face, são peças de artesanato criativo e motivadoras do entretenimento em si mesmas. Qualquer um pode se divertir por alguns minutos com Oligarch Wars (entrada do usuário “enepomnyaschih” para o Ludum Dare) porque é calcado na mecânica de um clássico, Snake (popularmente conhecido como “o jogo da cobrinha”), mas também porque adota o discurso vampiresco da indústria petrolífera. Neste caso, não há um sadismo inerente ao comportamento humano, como poderiam sugerir alguns, mas o escárnio do riso, do tragicômico, e da sátira saudável que pode transformar depois de levar conhecimento. Às vezes, desenvolvedores e produtoras nos dão muito mais do que jogos (“ludum dare”), nos dão perspectivas.
Originally published at www.drinknplay.com.