Relato de uma It-Girl Não Convicta

Eu queria ser bem-resolvida, moderna, independente. Eu queria ser capaz de acordar cedo, correr no parque, malhar e chegar mais disposta no trabalho. Queria fazer tudo isso e não contar pra ninguém, nem pro Instagram, mas ser aquela mulher que todo mundo olha e pensa: como ela consegue?

Como elas conseguem?, é o que eu penso. Conto tudo pra todo mundo, principalmente pro Instagram, enquanto elas com vinte e poucos anos, jogaram tudo pra cima e moram sozinhas — em uma casa simplesinha, é verdade — mas uma TokStok na sala tem lá seus benefícios. Eu queria arriscar, me jogar, mas chego em casa e a coisa muda: do hall do elevador ao quarto da empregada, é Gabriel Monteiro da Silva. Penso duas vezes. Três. Desisto.

Mas elas são tão independentes. Vejo aquelas meninas de Nova York, de Londres e até de Pinheiros mesmo, todas loucas, levando a vida que gostam sem conta no Personnalité, mas com uma personalidade que nenhum Visa Black pode dar. Se bem que pensando bem tem um pouco de tipo aí, tipo hipster, tipo encheção de saco, tipo não é minha praia.

Eu não sei muito bem qual é a minha praia, mas gosto bastante de Angra, com iate e marinheiro. Ai, mas só de pensar naquela gente toda igual, toda bronzeada, toda rasa, não sei… me dá vontade de acampar na Juréia, me conectar com a natureza. Gosto de ter essa vontade, de falar essa vontade, mas melhor deixar só na vontade. Quem sabe um dia?

Quem sabe quando eu me livrar da faculdade de publicidade? Recheada de gente descolada, moderna, “que pensa”, trabalha com Mac, usa camiseta legal e deixa a mesa colorida. Tudo o que eu não sou, mas admiro muito quem tem coragem de ser. E foi assim, não sendo mas admirando quem é, que entrei no atendimento de uma agência top.

Adoro, mesmo com o salário menor que minha mesada. Mas meu pai já disse que não é hora de pensar nisso, que sou nova ainda e o importante agora é conhecer, aprender o máximo que puder e fazer um networking bom. Fora que vira e mexe tem o namorado pra pagar algumas cositas.

Aliás, isso é outra coisa que eu queria falar: namoro. Acho demais aquelas meninas que sabem curtir ser solteira, não dar satisfação pra ninguém, aproveitar balada sem compromisso, viajar pra Chapada sem celular… é uma sensação libertadora, dizem. Dizem até que a gente aprende a ficar sozinha, gostar mais de nós mesmas. Eu já gosto de mim mesma, é só olhar meu Instagram, e solteira depois dos 24 é complicado.

Escolhas, né? Eu fiz as minhas… eu acho. Escolhi um pouco de tudo, sem essa de it girl ou indie girl, eu gosto de compartilhar, de variar, de mudar de acordo com a estação e com o último desfile da Patricia Bonaldi, de preferência.