das coisas que pensei em dizer que me fazem ser aquele tipo de bicho que quero ser

o que vem primeiro é o risinho sôfrego, meio frouxo, misturando tensão e anelo mesmo

existe algo no seu olhar, quando você sabe que vamos colocar nossas partes pra brigar, que faz tremer até o pêlo quase depilado

suspira, vai, vive como se faltasse poucos dias para o carnaval de novembro

e lá vai ela — a calcinha — descendo e deslizando pela pele pelada das ruas da avenida

prende sempre no calcanhar por tempo suficiente para pensar na sua pupila dilatada

e nas marcas de tinta manchadas do dendê, ê dendê

não fecha agora, deixa eu ver

você se move pra provar que não estamos em nenhum ensaio do coral, isso é coisa séria

caralho, e prova isso mesmo gritando alto e afinado no soprano

prova de novo vírgula de novo vírgula de novo

você molhando meus barcos eu queimando suas pontes

eu me desfazendo e refazendo na cavala

desamarrando nossas moléculas e nos costurando sem dedal

eu me corto no joelho, ou era o seu joelho?

era o seu joelho, e agora?

agora quimera, somos uma porra de uma quimera

uma besta mitológica com sexos eternamente fundidos, fudidos

dois pares de olhos sempre se encarando

um casal de lábios sempre se tocando

uma só voz que sussurra pra si mesmo

é o que somos

eu morro, você morre

a gente morre umas seis

só até umas seis, esqueci a chave de casa

e eu nem lembro mais que tipo de bicho eu sou

ou o que quero ser

só não quero ser

sem você

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