Uma breve entrevista com N. T. Wright

Guilherme Piton
Feb 25 · 8 min read

Introdução

Olá, amigos. Faz um tempo que eu não alimento minha página no Medium, mas tinha um bom motivo: eu estava esperando esse momento. Eu amo os escritos do Wright. São de uma erudição e de um amor pela Palavra de Deus que eu nunca tinha visto. Com todas as polêmicas, ele pra mim, é um grande homem de Deus. Conseguir conversar com ele mesmo que por e-mail foi uma honra.

Fiquei algumas semanas tentando imaginar o que perguntar ao maravilhoso e polêmico N. T. Wright, um dos maiores teólogos e intérpretes do Novo Testamento que temos. Depois de muito pensar e com a ajuda do meu amigo Matheus Lapa, um grande leitor das obras desse homem de Deus, eu e o doutor tivemos nossa “conversa” no dia 21 de Dezembro de 2018.

O e-mail dele não foi difícil de achar. Eu tenho um grande amigo, um irmão, que me ajudou muito nisso: o Douglas do canal Teologueiros. Ele tem o contato de todo mundo nessa esfera cristã. Não sei como, mas ele tem. E ele me encorajou a falar com o Wright também. Conversamos muito sobre isso e graças aos encorajamentos e questionamentos do Douglas eu fiz isso aqui.

Agradeço a eles e a minha namorada, Caroline, que aprendeu a amar o Wright tanto quanto eu. A Juliana, uma amiga lá do Telegram, do podcast Os Piácast, que traduziu essa entrevista. A todos que me ajudaram nessa empreitada, eu peço que Deus os abençoe.

Para quem não conhece, N. T. Wright é anglicano, ex bispo de Durham (2003–2010), professor de Novo Testamento na Universidade de St. Andrews, na Escócia. Wright tem escrito sobre o Apóstolo Paulo e o Jesus Histórico, sendo conhecido como um expoente da “Nova Perspectiva Sobre Paulo”. Além de escrever obras acadêmicas, ele escreveu uma série de comentários do Novo Testamento e também escreve livros para o grande público. Aqui no Brasil, algumas de suas obras mais populares foram publicadas pela Ed. Ultimato. A Edições Loyola publicou “Paulo: novas perspectivas” e a Editora Paulus publicou “A Ressurreição do Filho de Deus”, terceiro livro da série sobre Cristianismo Primitivo. A Ed. Palavra publicou “Os Desafios de Jesus”, “O Regresso do Peregrino”, a Ed. Chara publicou “O Dia Em Que A Revolução Começou”. Recentemente a Ed. Sal Cultural publicou o livro “Justificação: O Plano De Deus E A Visão De Paulo”, obra que expõe a visão de Wright sobre a justificação em resposta aos seus críticos. A Ed. Thomas Nelson também publicou “Paulo: uma biografia”, livro que procura traçar quem era o apóstolo o Paulo a partir dos seus escritos.

Vamos a entrevista!

Entrevista

N. T. Wright: Obrigado por estas perguntas. Para responder a qualquer uma delas de forma adequada levaria a escrita de um pequeno livreto. Perdoe-me por estas respostas estarem breves e incompletas. Mas agradeço pelo seu interesse em meu trabalho.

Guilherme: Primeiro, quem é N.T. Wright? Qual é sua relação com a igreja de Cristo e com o trabalho teológico e histórico?

N. T. Wright: Sou inglês, nascido no extremo nordeste da Inglaterra. Completei os estudos Clássicos e Teologia em Oxford: e lecionei lá e em outros lugares, incluindo Montreal, antes de trabalhar para a igreja da Inglaterra por vários cargos, terminando como Bispo de Durham (2003–2010). Desde então, tenho sido professor de Novo Testamento na Universidade St. Andrews, na Escócia. Amo escrever, especialmente sobre o primeiro século, e especialmente sobre Jesus e Paulo, dentro de seus próprios contextos. Sou casado com Maggie a 47 anos, e temos quatro filhos e cinco netos. Amamos as ilhas escocesas, especialmente Harris; e amamos música.

Guilherme: Segundo, de onde veio essa paixão pelo cristianismo primitivo e especialmente pelo Apóstolo Paulo?

N. T. Wright: Sempre amei história e especialmente a história do primeiro século, mas eu também amava a bíblia e desde muito cedo, porque ela alimentava e nutria a minha fé viva em Jesus, que eu tenho desde criança. Então tudo vem daí!

Guilherme: Aqui no Brasil, algumas discussões envolvendo o que se chama de “Nova Perspectiva sobre Paulo” (ou novas perspectivas) vêm ganhando um certo fôlego devido a curiosidade de vários irmãos e pouco material tem sido traduzido e produzido em solo brasileiro.. A sua obra vem sendo mencionada e criticada por setores reformados e mais “conservadores” por ir de encontro a algumas concepções que já estão fincadas na teologia. Quando você começou a questionar sobre as interpretações tradicionais sobre Paulo? O que você acha de “danoso” nessas interpretações?

N. T. Wright: Este é um tópico enorme e você tem que ter cuidado ao descrevê-lo. Quando fiz meu doutorado nos anos 1970, eu fiquei a par de muitos quebra-cabeças na interpretação de Romanos e Gálatas. Gálatas me parece ser “contra” a Lei e Romanos a favor dela. Gradualmente, estudando Paulo em seu próprio contexto, e com cuidadosa atenção ao seu uso do Antigo Testamento dentro de seu contexto judaico, percebi, junto com outros estudiosos, que as tradições do século dezesseis na interpretação de Paulo imaginaram sua luta contra os judeus legalistas como a batalha de Lutero contra os católicos romanos de seus dias. Simplesmente, isto é historicamente incorreto e prejudicial a um entendimento histórico de Paulo. Mas isto não é simplesmente um julgamento negativo. Nada está perdido (embora alguns muito ávidos expoentes da chamada “nova perspectiva” fizeram isso soar como se tudo desaparecesse dentro da sociologia). Ao invés disso, vemos muito mais claramente como todo o entendimento de Paulo sobre Deus, Jesus, o Espírito, a Igreja, o futuro, a própria salvação. Tudo pode ser visto em três dimensões, e exposto poderosamente. Eu insistiria que qualquer um que esteja confuso por isto a ler alguns dos meus livros mais recentes. Por exemplo, a minha biografia sobre Paulo, que lancei recentemente.

Uma das questões chave é que muito da teologia ocidental presumiu que o objetivo da vida cristã é “ir para o céu quando morrer”. Toda a bíblia é escrita para nos colocar em outra direção: O reino de Deus vem NA TERRA COMO NO CÉU. A cena final na bíblia não são as almas salvas subindo, mas a Nova Jerusalém descendo do céu para a terra, para que Deus habite com os humanos. Uma vez que você enxerga isso, tudo muda.

Muitos intérpretes da nova perspectiva não colocam realmente o cenário todo assim. É uma luta contínua porque muitas coisas precisam ser repensadas. Mas quando fazemos o esforço — como tentei por muitos anos — um cenário maravilhoso surge, da plenitude da nova criação prometida por Deus.

Guilherme: Partindo disso, qual é a proposta de trazer essas novas leituras sobre Paulo e o primeiro século? Como isso influencia a igreja e qual seriam as suas implicações na Teologia Dogmática/Sistemática?

N. T. Wright: Houve um problema nos anos mais recentes, em que muito da teologia dogmática e muito do estudo bíblico se separaram um do outro. Nós precisamos urgentemente colocá-los juntos novamente, embora as pessoas receiam em fazer isso! Minha própria visão é a de que quanto mais colocamos Paulo e os primeiros cristãos — e o próprio Jesus! — dentro de um contexto judaico do primeiro século, mais as verdades centrais da Trindade, encarnação e ressurreição, expiação, o Espírito e a salvação podem ser expressados, ensinados, orados e vividos. Eu não sei porque alguns teólogos relutam em repensar a mensagem da bíblia em seu contexto do primeiro século. Parece-me o mais natural a fazer.

Guilherme: Acusam-no de negar a doutrina da justificação pela fé como aspecto soteriológico, como se não houvesse imputação da justiça de Deus no pecador. Acusam-no de defender uma justificação no âmbito eclesiológico e que isso se assemelha a teologia católico romana. Como você entende a doutrina da justificação e recebe essas acusações?

N. T. Wright: Não há como dizer que acreditamos na autoridade das escrituras — na qual eu creio com todo meu coração e entendimento — e então estabelecer categorias do século dezesseis e insistir que guiemos nossas leituras da bíblia por elas. Claro que há muitas coisas na minha teologia que remontam a crenças católicas romanas — eles creem na Trindade, na encarnação, ressurreição e outros, não? ‘Justiça imputada’ não é exatamente uma frase bíblica, apesar de muitas opiniões! Eu sei o que isso significa — que estamos diante de Deus com base apenas na graça dada no poderoso evangelho de Jesus. Eu celebro isso todos os dias da minha vida. Mas a tarefa diante de nós não é dar respostas do século dezenove a questões do século dezesseis. Precisamos dar respostas do século vinte e um a questões do primeiro século. Precisamos confiar na própria bíblia, não as doutrinas muito posteriores que muitas escolas de pensamento construíram sobre ela.

Guilherme: Agora partindo para o cristianismo primitivo, temos vários escritos sobre esses temas, especialmente na questão da ressurreição de Cristo e da esperança cristã no contexto do primeiro século. Qual seria a grande contribuição dos primeiros cristãos para a igreja atual?

N. T. Wright: Os primeiros cristãos sabiam que eles estavam vivendo nos primeiros dias da nova criação de Deus. Nós das igrejas ocidentais esquecemos isso com frequência, e temos sido platônicos disfarçados, imaginando que temos que escapar do mundo e ir para o céu — algo que a bíblia não diz. Precisamos crer mais firmemente na ressurreição de Jesus como o começo da nova criação que um dia renovará o mundo todo, e nós com ele. Isso então irá trabalhar na nossa abordagem em todo o restante, da ética a ecologia, da arte a astronomia…

Guilherme: Você também é conhecido pelos seus estudos sobre a pessoa de Jesus. Compreender a pessoa de Cristo no seu contexto histórico e cultural: que isso contribui para a teologia?

N. T. Wright: Entender Jesus em seu contexto histórico e cultural, deve sempre ser absolutamente central para a teologia cristã. Infelizmente, esse não foi sempre o caso — em parte porque alguns historiadores tentaram diminuir Jesus e fazê-lo apenas mais um mestre judeu. Então a teologia algumas vezes tentou fazer uma figura de Deus e então encaixar Jesus ali. O Novo Testamento insiste que devemos fazer o oposto. Mas para isso precisamos entender como os judeus entendiam Deus, especialmente em termos de sua promessa de habitar com o povo no templo, como um sinal de sua intenção de finalmente encher toda a terra com a sua gloriosa e amorosa presença. Quando aprendemos a ver Jesus (como João e Paulo viam Jesus) como a corporificação viva daquela promessa, todas as coisas se encaixam. Em particular, é vital ver que o reino de Deus — na terra como no céu — realmente foi iniciado por Jesus e que nós somos seus agentes no poder do Espírito até o dia em que Deus termine o que começou.

Guilherme: Como você vê atuação da igreja na sociedade atual? Qual é o maior desafio dos cristãos hoje?

N. T. Wright: A igreja está crescendo rapidamente em muitas partes do mundo, mas em suas áreas tradicionais, tornou-se fraca e aguada. Precisamos recuperar nossa coragem no evangelho bíblico. Mas em particular, precisamos ser lembrados de que o próprio Jesus e seus primeiros seguidores eram apaixonados pela UNIDADE da igreja — apenas quando falamos e agimos em unidade seremos notados pelo mundo. Mas a unidade deve ser acrescida à SANTIDADE: há uma forma radicalmente diferente de viver e precisamos imitá-la sem medo. A unidade é mais simples se não ligarmos para a santidade; a santidade é simples se não nos preocuparmos com unidade. Fazer as duas coisas juntas é o segredo.

Guilherme: Qual é o legado que você pretende deixar para as futuras gerações de cristãos?

N. T. Wright: O legado que gostaria de deixar é de que as pessoas leiam a Bíblia toda, entendendo o Evangelho todo, comprometidas com a totalidade de Jesus — O Messias de Israel e Senhor do Mundo — no poder do Espírito.

Guilherme: Quando pretende visitar o Brasil?

N. T. Wright: Bem, na minha idade (acabei de fazer 70), espero viajar um pouco menos. Mas nunca fui à América do Sul, e parece uma boa ideia.. Talvez um dia, quando me aposentar…?

Guilherme: Obrigado pela entrevista, Dr. Wright. Deus o abençoe e Feliz Natal!

N. T. Wright: Obrigado por estas perguntas! Deus os abençoe e os faça fiéis ao seu chamado, alegres em seu trabalho e frutíferos para seu reino!

Guilherme Piton

Written by

Discípulo, estudante de História, amante da Teologia Cristã, de uma unidade nas relações, de boas novas integrais, irmão mais velho e apaixonado por café.

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