Fé Cristã e Política: uma pequena entrevista com David T. Koyzis

Aqui vai o resultado de alguns dias de espera e conversa produtiva. Quase não acreditei que o Dr. David tinha conta no facebook. Adicionei na “cara de pau” e nos tornamos amigos na rede social. Então entrei em contato, conversei e fiz várias perguntas. Todas foram respondidas, o Dr. David foi extremamente atencioso e compreensivo com minha curiosidade e meu péssimo inglês. Mas tudo ocorreu bem e o que vocês leitores vão ver agora é o resultado disso.

Agradeço ao meu amigo Douglas Araújo do canal Teologueiros por traduzir a entrevista, me dar apoio e acreditar em mim. Ele sabe que eu o amo muito.

Agradeço também a minha namorada Caroline e a minha irmã Mirian por todo o incentivo. Amo vocês.

Dr. David T. Koyzis

David T. Koyzis é um cientista político cristão. Nascido próximo Chicago(EUA) e atualmente reside no Canadá. Ele é doutor em Filosofia pela Universidade de Notre Dame(Canadá), foi professor de Ciência Política da Redeemer University College(Canadá). Atualmente é pesquisador em Política no St. George’s Centre for Biblical And Public Theology(Canadá). É autor de dois livros: Authority, Office and the Image Of God(2014) e Political Visions and Illusions(2003) que foi traduzido para o português e publicado em 2014 pelas Edições Vida Nova. Koyzis também está trabalhando na segunda edição de Political Visions And Illusions.

Nessa entrevista, perguntei sobre o cristianismo e a política, a relação da Igreja com as ideologias políticas, a missão da Igreja Cristã e o seu livro Visões e Ilusões Políticas(Vida Nova, 2014).

1. Guilherme: Primeiramente, uma breve apresentação. Quem é David T. Koyzis e como se envolveu com a fé cristã, filosofia e política?

David: Nasci num local próximo a Chicago e cresci em uma família cristã que era politicamente consciente. Uma das minhas lembranças mais antigas é do assassinato do Presidente John Kennedy e do impacto gigantesco que teve na política americana. Como um jovem eu era fascinado pelo escândalo de Watergate que derrubou Richard Nixon. Ao mesmo tempo, meus parentes por parte de pai em Cyprus se tornaram refugiados após a Turquia invadir a ilha em 1974. Tudo isso me influenciou a estudar política de uma maneira mais focada. Quando eu tinha cerca de 19 anos comecei a ler Abraham Kuyper e seus herdeiros espirituais e intelectuais no cristianismo e na política e eu fiquei profundamente impressionado com a convicção deles de que nossa fé tem implicações na vida pública. Essa convicção tem animado meu trabalho ao longo das décadas, incluindo estudos de pós-graduação e ensino universitário.

2. Guilherme: Como a tese do seu livro, Visões e Ilusões Políticas surgiu?

David: A ideia para o livro surgiu em mim durante meu primeiro ano ensinando um curso introdutório sobre Ideologias Políticas. Eu não consegui encontrar um livro que tratava o que eu achava que deveria ser tratado em um curso desses, então eventualmente eu escrevi o meu próprio. Foi publicado originalmente em 2003 e deve sair numa segunda edição no começo do ano que vem.

Minha tese é que cada uma das ideologias políticas contemporâneas incluindo liberalismo, conservadorismo, nacionalismo, democracia e socialismo estão certas sobre uma coisa, mas elas pegam essa uma coisa e fazem disso um ídolo. No caso do liberalismo, essa uma coisa é a liberdade do indivíduo, que é um bem genuíno. Mas com o desenvolvimento do liberalismo pelos séculos, a liberdade do indivíduo veio a espremer outras considerações legítimas incluindo nossas obrigações para com as comunidades que nos formaram. O liberalismo tentou tornar todas essas comunidades em meras associações voluntárias, mascarando então as diferenças entre casamento, família, Estado e a instituição da igreja. Nenhuma sociedade pode sobreviver a longo prazo onde tais obrigações são reduzidas à contrato voluntário.

Como você vê o Cristianismo no espectro político? Incluindo a relação dos Cristãos com o estado, militância, e atividades no ambiente social. Cristãos podem se posicionar em algum espectro? Há um limite pra isso?

David: Se você está dizendo sobre o espectro esquerda/direita, então eu não acredito que a fé Cristã pode ser encontrada ao longo dessa linha bi-dimensional. Como Cristãos, nossa confissão mais básica é que nosso mundo pertence a Deus e não a nós. Somos meros mordomos do cosmos, responsáveis perante ao Deus que nos criou e nos redimiu. Isso inclui a vida política. Devemos reconhecer a complexidade irredutível que Deus construiu em sua criação, incluindo a sociedade humana. Se perseguirmos o direito dos indivíduos, arriscaremos negligenciar a integridade daquelas comunidades que não podem ser facilmente reduzidas à produtos de uma agregação de vontades individuais. Se nós decididamente perseguirmos a grandeza da nossa nação, estaremos em perigo de abraçar uma política totalitária que ignora os limites normativos do estado e a integridade das instituições não-estatais.

3. Guilherme: No Brasil, têm existido uma polarização entre direita e esquerda e uma descoberta de conservadorismo político/filosófico em parte dos jovens. Vemos Cristãos se posicionando em ambos os lados e lutando entre si sobre o papel da igreja na política, no apoio a candidatos e nas diretrizes que eles defendem. Como podemos entender essa questão?

David: Pra começar deixe-me mencionar que eu não acredito que a igreja como instituição deveria estar endossando partidos políticos e/ou candidatos. Isso vai bem além do seu chamado divino, que é pregar o evangelho fielmente, administrar os sacramentos e manter a disciplina no meio de seus membros. Ninguém deve atrelar a igreja institucional à uma agenda política falível.

Por outro lado, a igreja como corpo de Cristo deve de fato ser politicamente ativa, assim como deve participar de qualquer outra área da vida. Ainda assim nós devemos evitar de amarrar a causa de Jesus Cristo à uma ideologia secular, que foi uma das principais razões para eu escrever meu livro.

À longo prazo, seria bom se Cristãos pudessem cooperar em estabelecer movimentos políticos ou partidos para buscar políticas que fizessem justiça aos indivíduos e a variedade de comunidades das quais eles fazem parte. À curto prazo, talvez sejamos forçados a apoiar aqueles movimentos e partidos que temos razões para acreditar que irão fazer o menor dano. É assim que nós tendemos a votar em democracias de língua inglesa como no Canadá, onde moro atualmente. Não é uma situação ideal, mas a vida Cristã é muitas vezes sobre tentar fazer as coisas certas quando confrontado com escolhas menos felizes.

4. Guilherme: Como a política pode auxiliar na missão da igreja?

David: Bem, eu não acho que eu colocaria a pergunta dessa forma. Nós não deveríamos estar confiando no estado para facilitar o Reino de Deus. Talvez uma pergunta melhor seja: Qual é o papel da política na missão da igreja? Pra essa pergunta eu responderia dizendo que se a missão da igreja, o Corpo de Cristo é estendida à toda a criação, então naturalmente inclui a vida política.

5. Guilherme: Como colocado na terceira pergunta, muitos jovens têm descoberto conservadorismo político e filosófico aqui no Brasil. Especialmente em reação à visão política de esquerda que muitos estudiosos propagam desde a fase de redemocratização após o período militar. Ao mesmo ritmo, esses jovens também têm abraçado a Fé Reformada, lendo Abraham Kuyper, Francis Schaeffer e David Koyzis. Qual é seu conselho para esses jovens?

David: Em um nível eu entendendo a atração do conservadorismo, que geralmente não tem ambições como recriar a sociedade de acordo com uma ideia única e impôr ela a todos. Como um aviso de advertência, o conservadorismo tem muito a recomendá-lo: se a mudança está por vir, deve vir gradualmente e cuidadosamente. Nós devemos rejeitar visões ideológicas que prometem muito e cumprem pouco. Nós devemos respeitar a história e nos abster de fingir que podemos de alguma forma romper com ela.

Por outro lado, os conservadores muitas vezes não tem visão para um movimento de progresso. Conservadores parecem satisfeitos em botar o pé no freio, arrastar os pés e desacelerar as coisas. Mas se os seguidores de outras ideologias estão se movendo em direção ao abismo, os conservadores estarão só adiando o inevitável. Como Cristãos, precisamos de uma visão positiva da justiça com a qual movemos para o futuro. Jovens devem estar procurando articular e implementar visões assim, enquanto prestam atenção aos escritos e experiências daqueles que são mais velhos do que eles.

6. Guilherme: Quais são suas recomendações de leitura para os Cristãos que querem entender a relação entre fé e política?

David: Eu não sei se tudo está disponível na sua língua. Claro, eu recomendaria meu próprio livro, Visões e ilusões políticas. Eu espero que a Editora Vida Nova decida traduzir a segunda edição em Português. Mas existem muitos outros. Eu pessoalmente me beneficiei dos escritos de James W. Skillen, Bob Goudzwaard, Jonathan Chaplin e muitos outros.

7. Guilherme: E por último, quando você virá ao Brasil?

David: Eu gostei muito da minha viagem ao seu país dois anos atrás e estou ansioso para retornar em breve. Estou tremendamente animado com que o Espírito Santo está fazendo no Brasil e eu adoraria fazer parte disso de alguma forma. Aguardo ansiosamente o próximo convite.

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