Sobre realizar e “performar”

Tenho, cada vez mais forte, a sensação de que podemos fazer mais coisas acontecerem se adotarmos uma postura mais humilde sobre o fazer.

Explico: sinto que vivemos numa sociedade viciada em performance. Somos estimulados o tempo todo a nos superar, a sermos os melhores, a alcançar “o topo”. Parece que o “bom” nunca é suficiente. Passamos a querer nada menos que o “melhor”. Afinal, quase todas as propagandas, filmes, novelas e sucessos musicais pregam que “você pode, você merece”.

Tudo muito bonito… Em teoria. Mas será que essa bem intencionada ode à superação não tem efeitos colaterais indesejáveis? Talvez até, nocivos?

Vejo muita gente desistir de projetos porque estabelecem, desde o primeiro pensamento, uma exigência de que aquilo seja IN-CRÍ-VEL. A propósito, eita palavrinha banalizada, né? E quando não dizemos que queremos fazer algo incrível, dizemos que “tem que ser top”. O mantra “vamos pensar grande” é repetido consciente e inconscientemente todos os dias por multidões bem intencionadas. É a galera que só quer bater recordes, que só quer “performar”.

Me parece uma autoexigência — exagerada — de intensidade. A imposição de um de resultado de alto nível faz a caminhada parecer muito mais difícil, exigente de um esforço sobre-humano. E nesse ritmo megalomaníaco, muitas ideias e projetos interessantes vão ficando no quase.

Ah! Preciso deixar registrado: não quero fazer uma ode à mediocridade. Sei que a vontade de superação é uma força que impulsiona a humanidade e nos faz alcançar o antes inimaginável. Mas tenho pensado muito no quanto isso pode acabar sendo também uma trava, tipo uma bola de ferro pesada presa no tornozelo de um atleta que tem um potencial enorme.

Talvez o problema seja a generalização. Talvez a facilidade de acesso à informação, com tantos exemplos de sucesso sendo descritos em artigos nos blogs ou exibidos em videos no YouTube, criem uma ilusão de que um alto nível de performance é o natural, é o comum. (ainda vou escrever um texto sobre nossa mania de generalizações…)

Será que tem que ser assim? Só na base da pressão por resultados para ver as coisas acontecerem? Quero acreditar que não. Quero acreditar que talvez um pouco de relaxamento nas expectativas possa ser justamente a atitude que vai viabilizar e potencializar as nossas realizações. Quero acreditar em “dejar bajar la plancha” para aprender a deslizar montanha abaixo curtindo a paisagem. Quero acreditar que a repetição leve e divertida de uma prática, pode levar à evolução (não precisamos de perfeição).

Assim, ao invés da vontade de performar, podemos passar a cultivar a vontade de realizar. Realizar, tornar real, fazer existir, construir. E depois, ampliar, acelerar, melhorar.