Roll over, Elvis!

Os anos 50 chutaram a porta da música com o estilo mais eufórico de todos os tempos, o Rockabilly. A postura rebelde e cheia de atitude dos jovens americanos da época se estendeu a todos os aspectos, inclusive o musical. Cansados da falta de animação suficiente de estilos como o Blues, o Jazz e o Country, os jovens vestiram suas calças jeans, oriundas dos marinheiros, e suas jaquetas de couro e ansiavam por algo que os representassem, que representasse o espírito aventureiro e muito pouco responsável da época. A ânsia por algo não era à toa, apesar de extremamente melódicos e carregarem toda uma carga de luta dos escravos, como o caso do blues, os estilos da época exploravam muito pouco a velocidade e o ritmo, o que foi acelerando aos poucos, com o surgimento do Rythym and Blues, até chegar no ponto perfeito da batida da bateria e os solos de pentatônica. A premissa era básica: Como o próprio blues, considerado o pai do Rock, teria três acordes, porém de uma forma acelerada. A influência de música country era nítida, tanto no canto, quanto na forma de tocar guitarra. Dali para frente, mesmo sem saber, os músicos formariam a base do que se seguiria na música até hoje. Os formatos das bandas tradicionais começavam a se formar, só havia um problema: O baixo tradicional não conseguia acompanhar a bateria e as guitarras, a solução foi a criação do baixo elétrico, no final de 1951. Muito além dos aspectos musicais, o marketing havia chegado no mundo da música. Os artistas não venderam só suas composições, eles vendiam um modo de agir, o rock era um estilo de vida. Assim como em tudo, os anos 50 foram marcados por um enorme embate em questões raciais, e isso obviamente se refletiu na música, o que leva ao maior injustiçado dentro desses 10 anos, Chuck Berry.

Apesar de ter sido tardia a sua entrada na música, o mundo conheceria os primeiros licks do Rock, como é conhecido hoje, através dos dedos do que seria uma lenda da música. Sempre acompanhado por solos de guitarras insanos para a época e ritmos totalmente dançantes, Chuck Berry foi, com certeza, o músico que mais deu sua identidade para o rock. Influenciou músicos como George Harrison, Eric Clapton e Keith Richards. Lançou seu primeiro álbum em 56 e já se diferenciou das vertentes que haviam na época, priorizando muito mais a guitarra que os metais, que eram uma influência trazida do Jazz. A época, inclusive, foi o que mais prejudicou o garoto de Missouri. Nos anos 50, os Estados Unidos viviam uma intensa segregação racial e luta entre brancos e negros, a discriminação era tamanha que em vários locais públicos e institucionais havia uma separação nítida, como em quartéis generais e universidades. Isso se refletiu na música, artistas como Ray Charles e Little Richard sofreram com isso. Com Chuck, a discriminação no seu ramo profissional veio como um crime, ele perderia seu posto merecido para um outro músico não tão expressivo quanto ele: Elvis Presley.

Não é que Elvis não tenha tido expressividade alguma, sua importância no universo do rock é inteiramente válida e suas interpretações chegaram a marcar mais em sua voz que na gravação original, mas a sua genialidade não foi como músico. Presley foi o primeiro e talvez o maior produto do marketing na mídia, tudo era planejado em sua carreira, o modo como se comportava, como se vestia, as poses para as câmeras e até mesmo a sua ida para o exército caiu como uma luva para o aumento de sua fama. A problemática da situação transcende a música, Elvis nunca compôs uma canção que interpretou, mal tocava algum instrumento e provavelmente não mereceu a maioria dos títulos que lhe foram concedidos, inclusive o de rei do rock. A alcunha que cerca o “rei” sempre em que é mencionado seu nome nunca passou de um mero reflexo de um período em que os EUA viviam seu auge de aversão aos negros pós-escravidão, os resquícios de um dos períodos mais nefasto da história da sociedade eram tamanhos. As mídias têm e muito sua contribuição para essa injustiça. Embalados pela segregação, Elvis era sempre o favorito, estava sempre lá, ao contrário de Chuck, que também aparecia nos veículos, mas não com tanta frequência.

Apesar da representatividade em quesitos musicais ser muito maior, Chuck Berry morreu sem ter o reconhecimento que merecia. O garoto que anunciou para Tchaikovsky e Beethoven que agora era a vez do rock foi encontrado morto pela polícia, no dia 18 de março de 2017. Considerado por muitos um dos melhores guitarristas da história, seus dedos deslizavam pela guitarra em riffs sempre empolgantes e presença de palco inesquecível. Roll over, Elvis! O rock tem um rei, e nunca foi você.

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