Eu odeio o dia dos namorados

Grinch e sua fobia por sentir

Boa noite! Que a madrugada é sempre melhor para criar, a maioria sabe. A ideia de que o mundo diminui o ritmo de produção frenético (que se resume em repetir incessantemente processos praticamente iguais) e permite que a gente consiga libertar um pouco de nós mesmos é sensacional. Ou apenas tô tentando me escapar pois o sábado foi puramente em um relacionamento sério com a cama.

Achar um tema por semana para escrever parecia ser uma tarefa bem plausível, no entanto, graças àquelas improbabilidades da rotina, que submergem de um universo desconhecido e acabam virando ela de cabeça pra baixo, permiti-me estar, como diria o querido Manuel Bandeira: “Absorto na vida”. E ainda por cima, abuso da canalhice ao pegar uma data comemorativa para discorrer. No entanto, coincidentemente, é a que me fez refletir mais do que as que comemoram uma guerra perdida ou a independência por um monarca com dor de barriga, montado numa mula. Vem comigo?

A verdade é uma só: odeio o dia dos namorados. E não consigo deixar de odiar. Passei anos tentando justificar esse impulso violento com essa data e consegui encontrar quatro possíveis culpados. E são estes:

A data como jogada estratégica;

Os solteiros;

Os pseudonamorados;

E, finalmente, Os Namorados.

O dia simbólico faz parte da genialidade humana em perceber um sentimento em comum, forte o suficiente para instabilizar qualquer tentativa de racionalidade, e transformar isso em um potencial de lucro astronômico. Não me entenda mal: o capitalismo é o menos pior que encontramos até agora. Não o idolatro, tampouco o renego. Mas eu considero moralmente condenável se aproveitar de momentos de “fraqueza humana” para encher os bolsos. É como cobrar 500 reais pelo show da banda favorita. Pode até girar a economia. Mas cria uma associação perigosa entre material e não-material. Um diamante do preço de um carro não deveria falar mais alto do que uma carta escrita pela pessoa que se ama de verdade. Ainda que essa não tenha o maior talento para a escrita. Devia ser um momento para sentir, não para objetificar.

Existe, também, a imagem do solteiro típico, que, próximo do famigerado dia, brada frases como “O dia é dos namorados, mas a noite é dos solteiros” e demonstra sua fobia de solidão com a necessidade de mostrar que está bem. Estar solteiro não tem relação com autossuficiência. É só um momento que a gente já nasceu pertencente dele e não deve bater no peito por causa disso. Não é motivo de orgulho estar solteiro (assim como namorar também não é, é só uma característica), nem ninguém acha que isso é uma vantagem. É apenas estar. E se formos bem resolvidos onde estamos, o silêncio parece ser a melhor maneira possível de se lidar. O famoso dito popular é regra: “O que ninguém sabe, ninguém estraga”.

Há, em terceiro acusado, a presença dos pseudonamorados. Como tua primeira hipótese de definição, leitor(a), ao ler essa palavra é certamente a correta, permita-me pular essa parte. A evolução dos solteiros imaturos são os pseudonamorados. Eles falam do seu amor como se fosse o único, mas o que é único mesmo é a armadilha do ego em que estão inseridos. O instinto dessa classe (e aqui me sinto fazendo um documentário do Discovery Channel) é este: Eles tem o afã do solteiro pela quantidade e pela novidade, algo tipicamente associado à liberdade e, ao mesmo tempo, compensam a solidão advinda da solteirice com uma companhia que nunca está ali de verdade. Como botar queijo em cima do miojo e esperar que vire uma massa servida na Toscana. Vive-se uma verdade-mentira com horário marcado pra acabar. Por favor, não sejam assim. Sejam responsáveis também pelo lado ruim das escolhas de vocês e cuidem das pessoas que vocês gostam. O mundo agradece.

Por fim, existe aqui o meu maior motivo de ódio: Os Namorados. E isso não é título de filme de sessão da tarde. Fico simplesmente indignado com esses. São pessoas tão inescrupulosas que chegaram ao ponto de saber viver em harmonia com outro alguém. Que sabem tão bem, que até quando a harmonia descompassa, conseguem consertar a entonação sem precisar trocar suas cordas. Que dividem suas vitórias, suas derrotas, seus sonhos, seus medos, seus defeitos. Que transformam um almoço requentado de domingo num banquete repleto de risadas. Que tem coragem a ponto de se desnudar tanto fisicamente, quanto espiritualmente, e estarem unidos por um sentimento único. Que deixam a adrenalina fluir pelo sangue e o coração disparar quando ocorre um reencontro num terminal de aeroporto.

Vocês são aquilo que faz o velhinho esperar a velhinha com um buquê de flores. Continuem sendo os culpados disso tudo. Vocês são fodas.

Sejam felizes nesse dia e em todos os outros que virão.

Vocês merecem. De verdade. ❤