Expectativas

Vive-se a geração da ansiedade, da depressão e dos psicofármacos devido à arte ácida de criar expectativas. E a solução não está em apenas não criá-las. Sabemos que é inviável não esperar nada dos caminhos que tomamos e das pessoas que estão do nosso lado na jornada da vida. Como humanos, é natural projetar continuidade em algo que nos faz feliz. Ou em algo que pode nos deixar feliz. Qual será a solução, então?
Óbvio que esse problema não surgiu da integração tecnológica das mídias sociais nos últimos anos ou do fluxo absurdo de informações que estamos submetidos no dia a dia. Mas esses fatos agravam a situação. Porque, querendo ou não, a velocidade absurda com que se vê um feed do facebook dá a impressão de que a vida é também construída na mesma velocidade. Quando, na verdade, é um evento relativamente lento. Tive essa sensação quando, depois de passar vinte minutos lendo um livro, peguei meu celular e vi que nada havia mudado. E no intervalo seguinte. E depois de uma hora, também. Pensei: MAS SERÁ QUE NÃO É POSSÍVEL QUE NADA ACONTECE NESSA DESGRAÇA? E aí eu percebi o quanto me tornei imediatista com algo que não altera em nada o desfecho da minha vida. Nesse tempo, as pessoas vão continuar assistindo à aula, cozinhando comidas intragáveis, sofrendo desilusões amorosas, odiando ir na academia e postando fotos em lugares paradisíacos (carinhosamente, espero que exista um cantinho no inferno pra vocês, bundões). Ou seja, a rotina continua sendo rotina e não se vive sem ela.
E como não criar expectativas e se decepcionar vendo o belo outdoor da rede social? São vidas perfeitas que parecem estar num ritmo alucinante de felicidade ininterrupta. São opiniões ditas com tanta convicção que parecem uma nova teoria sobre a gravidade. São pessoas tão bem sucedidas que até parece que elas trapacearam com algum código secreto. A sensação que se passa é que existe um mundo paralelo com pessoas vivendo um eterno canal Off. E isso é foda. Porque não há espaço pacífico para insegurança. Para passar catorze horas dormindo sem pesar a consciência. Para ter aquela leve gordura abdominal que muita felicidade trouxe. Que exagero vivemos. Que tristeza. Que doença.
O problema é que quando não estamos fazendo nada em prol desse estado de falsa plenitude que é estudar e trabalhar muito, se alimentar de maneira saudável e malhar todos os dias, vivemos o eterno sentimento de culpa de que poderia se estar fazendo algo produtivo. Matamos o doce sabor do fazer nada. E, como que para tentar compensar, a gente fala em conversas entre amigos como alguma ajuda psicológica faria diferença, mas que não temos tempo, nem dinheiro pra isso. O mercado de qualquer substância que altere a nossa consciência sabe disso e celebra o nosso caos em propagandas de cerveja pós-trabalho, funcionando como um anestésico temporário praquele serviço insuportável. Como se isso não fosse apenas tapar o buraco com uma peneira.
E se formos para o lado de não esperar nada? Esse exercício diário que muito se assemelha a desconfiar de tudo e de todos tem data de validade curta. É completamente contra o senso do ser humano de coletividade. Num tempo que as pessoas se importam cada vez menos com as outras e se atropelam para conseguir mais dinheiro, mais poder ou mais fama, a tendência ao individualismo se torna perigosa. E aí, a frase "O homem é o lobo do homem", dita por um tal Hobbes há um tempão atrás, só tende a ser mais verdade. Quando, na minha interpretação, o cara queria nos avisar mais ou menos assim: "Galera, todo mundo é meio fdp, mas tentemos diminuir isso e façamos do nosso planeta um lugar menos merda de se viver".
Além disso, o sofrimento de expectativas derrotadas deveria ser visto como um aprendizado. Não para deixar de criá-las, mas no sentido de ter esperança para que, se alguma meta nossa não se realizou na hora que queríamos, seja melhor para nós que ocorra em outro momento. Ou que role algo no lugar que seja muito mais afudê. E sobre as expectativas que depositamos nas pessoas: o outro não tem como adivinhar o que a gente deseja e sentir as coisas na mesma intensidade do que a gente sente. A nossa visão de mundo é única e foi montada por experiências que são só nossas. Se não existem pessoas iguais, por que deveriam existir sensações iguais?
A vida se constrói com o tempo, contando degraus de uma enorme escada. Embora, em alguns delírios de ego, a gente pensa que sobe sozinho. É sempre bom lembrar que não existe subida solitária. Tropeçamos e precisamos de ajuda. Não é sinal de fraqueza e tampouco há problema nisso.
Não existe vida sem parceria na subida.
Só tenho a agradecer por continuar tendo pessoas espetaculares que sobem a escada comigo e que me puxam pra cima quando eu, como humano que sou, tropeço. Espero estar fazendo isso por elas. E pelas próximas pessoas que ainda vão subir comigo: sejam bem-vindas. Caminhemos, portanto.
Sei que leva um bom tempo e que parece ser um saco.
Mas quando se chega no topo, sobra a paisagem.
A vista deve ser sensacional.
Guilherme Ruschel Rosa