Origens

Sabe, hoje não vai ser escrito nenhuma impressionante história sobre alguém que larga o seu emprego, sua família, sua casa e sai para desbravar o mundo. Nem sobre quem vai morar o resto da sua vida em outro país. Não vai ser dito nada sobre perder suas amarras. Não haverá nenhuma analogia sobre o passarinho sair da gaiola.

Aqui, é sobre uma âncora chamada Guilherme.

Não me entendam mal. Nada penso de negativo sobre pessoas que abrem mão das suas seguranças pra viver fora de um padrão de vida que elas mesmas criaram. Cada qual deve encontrar sua melhor forma de viver e ser feliz com ela. Mas eu não sou árvore sem raízes.

"Por que tu não te manda desse país? Fazer Medicina no Brasil é uma merda". "Por que tu não aproveita um intercâmbio e fica um ano fora?". "Por que tu gosta tanto de voltar pra tua NH quando chega o final da semana?".

É simples.

Não largo desse país porque tenho uma relação de amor e ódio com o mesmo. Sabe aquela história do velhinho que tá brabo com a velhinha, mas, mesmo assim, não deixa de proteger ela com o guarda-chuva? Pois é. Minha pátria, definitivamente, está fadada a ser sempre aquele corredor que se classifica pro tiro final, mas que só pega o prêmio de consolação. Não importa. É o meu país e é nele que eu quero ajudar as pessoas. Jamais vi graça em altíssima qualidade de vida a 10.000 km de casa. Dirigir um carrão e morar em uma mansão não me é mais importante do que passar um dia com meus pais, irmãos e amigos. Há quem ache que é. Que sejam felizes na sua loucura assim como sou na minha.

Quanto ao meu desespero pra voltar à gloriosa Novo Hamburgo. Outro consenso de que, às vezes, falta-me bom senso. Mas tentar tratar esse bairrismo é apenas uma medida paliativa. NH é fora da curva, seja pela referência mundial em xis, seja pelas voltas de carro (palio do amor ❤) no silêncio da madrugada. Mas não só por isso. É por ser uma das minhas raízes. Talvez eu saia de lá, mas sempre vai ficar a saudade da cidade-falida-com-ruas-esburacadas que guarda as noites mais engraçadas da minha vida.

A nossa tendência ao ego é de achar que somos insubstituíveis. Em algum momento pensaremos, inevitavelmente, que o centro do mundo é a nossa cabeça. Até a gente entrar num avião e perceber o quão mínima é a nossa existência no mundo. Por mais que admiremos as atitudes de grandes figuras da história e que tenhamos uma coisa louca por nossos ídolos, a roda continuaria a girar se eles não tivessem existido. Essa consciência de ser meio formiga parece sofrida, mas é o início de uma longa caminhada pra entender que, pra mim, a felicidade está nos pequeníssimos detalhes.

Se há pontos negativos de ser assim? Sem dúvida. Nenhuma escolha se faz sem abdicar de algo. Eu nunca vou conhecer um país diferente por mais de um mês direto. Ir a Brasília, coração do nosso BR, me trouxe essa descoberta: estar em casa é um significado muito mais sentimental do que material.

É abrir mão da ideia geral de "grandeza".

Pra pegar o que é seu por essência.

É estar com quem a gente quer estar.

Em momentos que a gente escolheu viver.

É um chimarrão com a família num domingo de manhã.

Guilherme Ruschel Rosa

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