Equilíbrio Dinâmico

Qual será a diferença entre sorte e destino?

Passamos uma vida equilibrados entre dois grandes mistérios: o passado e o futuro. Diante de nossas inúmeras incertezas, nos perguntamos “Por que as coisas aconteceram como aconteceram?” e “O que ainda vai acontecer?”. E destas perguntas derivam todas as regras que usamos para tentar prever e controlar nossas vidas. Fazemos conexões, tentamos extrair sentido, conclusões, regras, filosofias de vida e até dietas.

Vamos supor por um instante que o elemento de dúvida fosse removido da equação. Imagine que você sabe exatamente os motivos para tudo o que já aconteceu em sua vida. E também sabe exatamente o que ainda vai acontecer e como controlar o futuro. Você consegue, ainda, enxergar espaço para a alegria? É possível viver evitando completamente a tristeza?

O filósofo holandês Baruch Spinoza falou da íntima relação de coexistência e dependência entre medo e esperança. Um não existe sem o outro. E nenhum dos dois existe sem as incertezas geradas por tudo o que desconhecemos. O alemão Nietzsche, por sua vez, disse que ninguém quer ter suas fantasias destruídas. Ou seja, de como somos apegados às incertezas da esperança. É como fazer apostas na tentativa de ampliar nossa alegria, pois somos felizes durante todo o tempo até que a verdade seja revelada. Podem ser alguns segundos, minutos, horas, dias e anos. Assim, a incerteza acaba por modular muitas das nossas alegrias e tristezas.

E por quê, então, como seres humanos procuramos tanta previsibilidade e controle?

É verdade que o medo do desconhecido é um dos maiores motores para esta procura. Faz parte de nossa natureza evitar ambiguidades, até mesmo como instinto de sobrevivência. Ao ver um animal desconhecido, com cara de poucos amigos e um som ameaçador, pode ser melhor correr do que perguntar se ele prefere você ou quinoa pro almoço.

Mas, igualmente importantes são as centenas de escolhas diárias que podem ser ponderadas, cuidadosas, seletivas. Não é possível nem desejável fugir de tudo o que desconhecemos.

Por muito tempo acreditei que equilíbrio e controle estavam conectados. Dominar pensamentos e emoções. Agir com cautela e moderação.

Na história da humanidade, em escritos filosóficos, científicos e religiosos de diferentes culturas encontramos a busca pelo Equilíbrio. Aristóteles chamava de virtude. A filosofia Samkhya fala das três gunas e apresenta o Sattva como o perfeito estado de equilíbrio. E até na ciência moderna ainda utilizamos l’homme moyen, o homem mediano, de Quetelet, como referência da medianidade social.

Embora conceitualmente muito diferentes entre si, qualquer que seja a abordagem, o Equilíbrio costuma ser definido a partir do que ele não é. Nem excesso nem falta, mas a justa medida entre duas tensões opostas, complementares e interdependentes. Assim, conhecemos o Equilíbrio a partir do desequilíbrio. Para alcançá-lo é preciso conhecer aquilo que ele não é.

Para ter equilíbrio e controle, é necessária a consciência do desequilíbrio.

Há um ano pratico slackline. Pra quem não conhece, é a prática de caminhar sobre uma corda suspensa e tensionada entre dois pontos. Como duas árvores, por exemplo. É um exercício mental tanto quanto físico. Costumo dizer que é minha forma de meditação dinâmica.

Quando comecei, pensava que o equilíbrio era questão de ficar parado. Quietinho, controlando a respiração e os movimentos do corpo em busca de neutralidade. Estático. Aos poucos, fui percebendo que o equilíbrio ficava mais fácil com um movimento fluído que, às vezes, até lembra o equilíbrio estático, mas é equilíbrio dinâmico fruto da consciência corporal, com movimentos tão sutis que chegam a ser quase imperceptíveis.

Hoje em dia acredito que para tudo o que quero equilibrar em minha vida é preciso conhecer os dois lados do desequilíbrio. A falta e o excesso, as duas dimensões nas quais podemos nos apoiar para gerar tensão e equilíbrio dinâmico. Dosar exercício e repouso, trabalho e lazer, meu impulso criativo e minha rotineira higiene física, emocional e mental. Procuro reconhecer e aceitar para poder tirar o melhor da tensão entre os dois polos.

Nem sempre o equilíbrio significa um esforço exatamente proporcional entre os dois lados. Mas, uma harmonia e fluidez. O que importa é manter o movimento, manter a harmonia em andamento. Para entender o que é harmonia, observe um grupo de músicos de jazz em uma seção de improviso. Há momentos em que alguém comete um erro, uma nota dissonante ou um deslize rítmico. O que fazem os demais? Aproveitam o momento e criam algo novo. Corrigir uma falha não precisa significar apagá-la, mas construir algo original sobre ela. Utilizar o erro como ponto de apoio para algo criativo, inusitado e que muda completamente o caminho e o destino.

Assim são, também, as inúmeras decisões que tomamos diariamente diante do que desconhecemos e do medo que as incertezas geram. No lugar de tentar tomar a decisão perfeita, que tal escolher o que permite manter o movimento?

Tentar encontrar o equilíbrio perfeito, estático, pode significar indiferença ou rigidez. Pode significar o fim do movimento, da fluidez, da harmonia.

Na próxima vez que estiver diante do medo ou do amor, diante da alegria ou da tristeza, faça o que fizer, mantenha o movimento.