O horizonte se afasta de nós na mesma velocidade em que corremos até ele.

Uma nova definição de sucesso

Gosto muito de música clássica. Aliás, meus amigos sabem do gosto que tenho ao trabalhar ao som de Bach ou Chopin.

Me dá prazer, também, encontrar grandes intérpretes. E se tem alguém que me encanta é a pianista chinesa Yuja Wang. Por sinal, escrevo este post ao som dela. Aqui um vídeo para você saber de quem se trata:

Aos 28 anos a Yuja já é reconhecida e premiada internacionalmente, viajando com frequência para tocar com as mais renomadas orquestras ou em exibições solo.

O que ela e outros grandes músicos têm de especial, para mim, é a total entrega e devoção à sua arte. Veja, por exemplo, o maestro brasileiro João Carlos Martins, que teve sua carreira interrompida mais de uma vez. Se questionados, pessoas como eles certamente diriam "não há no mundo outra forma de expressar minha natureza que supere esta".

Já volto a este ponto.

O que é sucesso, afinal?

Nos últimos séculos nos acostumamos a associar sucesso a alguma variação da combinação entre realizações pessoais, reconhecimento ou notoriedade e alguma extensão de riqueza na forma de patrimônio pessoal. Não chega a ser culpa da nossa geração ou da que nos antecedeu, necessariamente.

Desde Descartes e Newton que, em especial no Ocidente, a forma de ver o mundo tornou-se progressivamente mais objetiva e materialista. Do positivismo Comtiano que inspirou nosso "Ordem e Progresso" estampado na bandeira brasileira até a administração moderna de Peter Drucker, que disse "o que não pode ser medido não pode ser administrado", nos tornamos mais e mais obcecados por números e medidas lineares e objetivas.

Ao ponto que por muitas décadas o meio empreendedor ignorou quase por completo tudo o que é intangível e, portanto, imensurável. Inclusive e especialmente o que é dito "subjetivo". Tudo isso foi removido do papel das organizações em benefício do que é objetivo e mensurável, inclusive os critérios do que é sucesso e o que não é.

Bem, tudo o que é subjetivo diz respeito ao sujeito, ao indivíduo, ao íntimo e à expressão da própria identidade. No momento em que o sujeito é removido da fórmula do sucesso abre-se caminho para que a glória do sucesso seja atingida mesmo com uma vida oca, sem identidade, sem emoção ou sentimento. E esta fórmula, embora envelhecida, persiste até hoje.

O Resgate do Propósito

As últimas décadas viram emergir novos movimentos de reconexão com a identidade, missão e propósito de empreendedores e organizações. Apesar de termos ainda um longo caminho pela frente, este processo vem se acelerando e tenho certeza que veremos transformações bastante consistentes nos próximos anos.

Aliás, venho falando disso em meus textos anteriores. Há muitas pessoas trabalhando por estas transformações. E no foco estão o senso de identidade e propósito. Movimentos como o Capitalismo Consciente, Sistema B e diversas outras organizações, fundações e movimentos capitaneados por jovens no mundo inteiro estão dedicados a isso no setor privado.

Mas, acredito que ainda há pontos importantes a considerar.

O problema do Individualismo

Por um lado, a liberdade individual é um ponto positivo do nosso modelo de organização social, que permite e responsabiliza cada um pelos próprios atos e suas consequências. Por outro, o individualismo tende a nos encerrar nas consequências imediatas das nossas escolhas.

Ignorar a interdependência é ignorar a amplitude das próprias decisões. Isso acontece, por exemplo, quando alguém movido por resultados financeiros de curto prazo usa de sua capacidade de persuasão para impulsionar outra pessoa a fazer escolhas que a prejudicam.

O que mata um de nós, mata a nós todos.

O problema da Meritocracia

Um dos conceitos mais amados por empreendedores e executivos é, quando simplificado, uma falácia validada por miopia. Fique claro, sou a favor da Meritocracia, ela supera qualquer alternativa, mas que seja prudente e responsável.

Não há meritocracia ao simplesmente colocar um muro igual em frente a todas as pessoas e dizer que o escalem quando alguns saem com uma escada na mão e tênis de alta performance e outros partem descalços da lama sem café da manhã. Só há real meritocracia quando as condições são equivalentes.

Pior, competir por critérios objetivos foge à própria condição humana. Nossa condição natural é de cooperar por critérios subjetivos. Somos seres empáticos e gregários.

Muitos ditos 'meritocratas' gostam de citar exemplos de jovens de famílias de baixíssima renda, por exemplo, que graças ao seu esforço individual conquistaram vagas em universidades e bons empregos. Contrastam estes com os que "optaram" pelo crime e marginalidade.

É verdade que há algum nível de escolha consciente em ambos os contextos. Mas, afirmar que é sempre uma escolha é o mesmo que dizer que é mera coincidência o fato de a imensa maioria dos jovens presos no Brasil serem negros, pobres e terem histórico de vulnerabilidade social e violência familiar.

E qual a nova fórmula do sucesso?

Acredito que a nova definição deve incluir os seguintes elementos:

  1. Identidade

Estimular e reconhecer a coragem de entregar-se a algo que é a mais fiel expressão de si mesmo. Um ser humano de sucesso encontrou sua missão, sua voz, seus talentos, sua identidade.

2. Conexão

Valorizar a generosidade de conectar-se a outras pessoas e comunidades e a empatia e sensibilidade de fazer escolhas que sejam benéficas a todos, pensando inclusive no impacto presente e futuro destas escolhas.

3. Felicidade

Dar valor ao equilíbrio e dedicação à saúde, família, educação e cultura. Ajudar pessoas a encontrar a felicidade quotidiana, não aquela escondida na ponta do arco íris.

4. Jornada

Abraçar o sucesso como uma jornada composta de muitos desafios nos quais é possível acertar e falhar, às vezes simultaneamente. Não julgar o valor das pessoas pelo local onde se encontram ou posição que ocupam.

5. Maestria

Valorizar a competência da execução e a superação dos limites pessoais ao invés de valorizar a superação dos demais e os resultados 'a qualquer preço'. Admirar a dedicação pessoal a uma competência, uma causa um conjunto de valores.

6. Transcendência

A chave final é amar o todo mais do que se ama a si mesmo. Aprender a encontrar amor nas coisas que se faz, nas relações que se constrói, nas pequenas mudanças que se promove. Em especial, entender que amar tem mais de libertar e de desapego e leveza.

Avançamos rumo à era da sociedade empática. Renovar nosso repertório de vitórias, derrotas e valores é fundamental.

E quem são nossas referências?

Tenho em meu rol de pessoas que admiro artistas, líderes e empreendedores sociais, mas não diversos dos empreendedores tradicionais que muitos amigos e conhecidos têm — não vou citar nomes neste post, mas fique à vontade para pensar em alguns bem populares.

Tenho respeito, mas não admiração ou reverência por pessoas de notável habilidade para fundar e liderar grandes organizações multinacionais cujo negócio é evidentemente prejudicial à sociedade. Penso que a competência deva se submeter à missão, e não o contrário.

Acredito que encontrar o próprio caminho e aceitar a própria felicidade, ao invés de “perseguí-la”, utilizando cada desafio para desenvolver-se e fazendo cada escolha de forma a deixar para o mundo algo de positivo e pessoas mais alegres, sejam as coisas que precisamos, de fato, aprender a medir.

De volta à senhorita Wang, a total entrega de identidade, corpo e emoções à execução perfeita, a conexão com a obra e a orquestra, a transcendência, todos elementos que me emocionam ao assistí-la, são para mim uma bela expressão de sucesso.

Nas palavras de Albert Einstein: “Nem tudo que pode ser contado, conta. Nem tudo que conta, pode ser contado”.


Eu adoraria saber a sua definição pessoal de sucesso. Que tal compartilhar comigo e com os outros que nos leem?


Extra

Acredite em mim, vale tirar 30 minutos para ver a Yuja Wang tocando Rachmaninoff aqui: https://www.youtube.com/watch?v=gnAQIRqvVYQ e Tchaikovsky: https://www.youtube.com/watch?v=Yue6Cb5OULM