Quando percebi que escolhi o curso errado

Em algum momento da minha adolescência, me perdi. Não sabia mais qual carreira desejava seguir ou qual curso escolher (na época, acreditava que não fazer faculdade não fosse uma opção). Engenharia? Direito? Medicina? Sempre fui um bom aluno, apesar de hoje perceber que poderia ter aproveitado meu tempo melhor fazendo coisas mais produtivas, afinal, ter vários 100 no histórico do ensino médio e fundamental não significam muita coisa no Brasil. Com isso, sempre fui incentivado a escolher um curso visto como “elite” do ensino superior, em que os profissionais quase sempre conseguem boa colocação no mercado e bom retorno financeiro.

Cheguei ao último ano do ensino médio e optei por fazer Engenharia Civil. Não nego que a ideia de um bom salário e ter status não me influenciaram, mas não foram as únicas. Sempre gostei muito de matemática e outras áreas da exatas e tinha certo interesse pela construção civil, logo pensei que fosse uma excelente opção. Fiz o ENEM, fiquei angustiado enquanto esperava o resultado e, quando concorri à vaga, a “surpresa”: não consegui a aprovação que muitos consideravam certa.

Porém, nem tudo estava perdido. O SISU permite que tenhamos uma segunda opção de curso, e optei por Engenharia Mecatrônica, em que fui aprovado. Então, começaram minhas dúvidas. No início, não pretendia me matricular, inclusive já havia procurado um cursinho para continuar estudando para passar em Cívil, mas minha família começou a fazer um lobby imenso em favor do curso. Disseram ser uma área em crescimento, com grandes oportunidades futuras, e que eu deveria seguir por ela etc. Acabei cedendo. Não sabia muito essa área, mas, de qualquer forma, pensei ser interessante para adiantar a grade básica dos cursos de Engenharia até conseguir uma transferência ou aprovação em Civil e mesmo para conhecer mais sobre a Engenharia como um todo.

Já estava me acostumando com a ideia de ser um “Engenheiro Mecatrônico” e quase não pensava mais trocar de curso, mas no meio do ano, após o primeiro período, fui aprovado em Engenharia Civil. Então, minha cabeça explodiu. Finalmente consegui a aprovação que tanto queria e não sabia o que fazer. Já era véspera de volta às aulas e eu só tinha 3 dias para decidir. Foram mais 3 dias de muita angústia em que eu praticamente não saia do quarto. A comodidade de deixar as coisas como estavam e o lobby familiar (de novo!) falaram mais alto e eu acabei continuando na Mecatrônica. Errei, mas, talvez, nem tanto.

Acho válido destacar que quando eu falo sobre lobby familiar, não significa que meus pais não me apoiariam caso eu desejasse fazer outro curso ou coisa do tipo. Na verdade, eles são bastante compreensíveis. Porém, eu via a felicidade deles ao me verem fazer esse curso depois de tantos anos se esforçando para pagar meus estudos. Não achava justo gerar mais despesas para eles.

Mecatrônica é uma área que engloba várias outras, entre elas: mecânica, elétrica, eletrônica e programação. Somos apresentados a essas áreas durante todo o curso e, hoje, no 4º período, percebi que uma das áreas fundamentais desse curso, a mecânica, não me agrada nem um pouco. Por outro lado, as áreas de elétrica e eletrônica têm sido bastante interessantes. Entretanto, o que eu gostei mesmo foi de programar. Ainda não sei se isso significa que devo fazer um curso como Engenharia Elétrica ou Ciência da Computação, mas significa que não estou no curso certo.

Partindo desse princípio, comecei a buscar alternativas de cursos na minha cidade. Me interessei por alguns e aí surgiu outro “problema”: o medo da mudança, do que os outros vão pensar, de perder tempo e ficar para trás etc Adaptando a Lei da Inércia, posso dizer que é mais fácil levarmos uma situação, mesmo que incomoda, para frente do que começar uma mudança. Mudanças podem ser dolorosas, e o medo de sentir essa dor acaba por nos travar.

Ainda não tomei nenhuma atividade quanto ao que farei, só sei que minha vida vai mudar nas próximas semanas. E, se posso deixar um conselho, é que sempre sigam sua vontade, mesmo que isso signifique não agradar alguém. Deixei-me influenciar por muito tempo pela opinião alheia e tive medo de desapontar quem eu amo ou parecer um fracassado diante da sociedade (fica para outro texto uma reflexão sobre esse tal “fracasso”) e percebi que não é algo que tenha valido o esforço. Não nego que tive bons momentos e fiz novas amizades, mas o meu âmago não estava feliz, e isso não pode ser uma coisa boa.