Ligando os pontos

Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto.

Fico assim por alguns minutos, batendo a ponta da lapiseira no papel em branco a intervalos regulares como uma máquina de costura, mas sem remendar nada. Ligar estes pontos também não seria de modo algum proveitoso, a não ser que a abstração passasse a andar de mãos dadas com a razão. E isso não iria acontecer. Nunca. A confusão de sentido me serviria apenas para indicar simplesmente que você está aqui, como sabiamente escreveu Duvivier.

Mais três pontos e eu fico reticente. Então começo: “O meu amor”. Rabisco. Não é bem isso. Não é assim que quero começar. Ponto.

Amasso a folha sem cerimônia. Jogo o embrulho sobre a lixeira e o observo quicar e rolar sobre o monte de outras bolinhas até cair no chão. Alguns dos outros pontos são visíveis daqui. Se assemelham mais a marcas de bala sob esta iluminação bruxuleante de velas; são marcas gráficas dos segundos torturantes que perfazem esta noite moribunda; sua presença jaz em peso neste quarto.

Foco. Preciso escrever.

Talvez seria mais fácil tirar uma fotografia sua, porque eu ainda não possuo nenhuma. Assim obteria rapidamente a sua imagem fidedigna e pronto.

Desisto da ideia. O caminho mais fácil não seria a resolução do meu problema. Escrever é expurgar, aliviar. É libertar uma parte deste ser que me leva cativo os pensamentos para navegar livremente pelas outras páginas do meu caderno, cheio de estrofes e parágrafos que, a esta altura do tempo, são apenas lápides de quem amei nesta vida. Lido bem com a morte como ponto final, mas seu início é sempre de esperança. Sim, por vezes remendada, mas ávida esperança. Leio cada texto e relembro paulatinamente de cada alma ali representada. Nenhuma delas me causa dor mais por não terem me correspondido. Muito pelo contrário, meus textos são como escapes. Por isso prefiro escrever. Fotos, por mais úteis que sejam, são apenas registros estáticos do todo. Mas quando deito a imagem de quem me inspira no papel, posso saboreá-la aos poucos e subjetivamente a medida que corro os olhos pelas linhas. Também posso voltar a lê-la sempre que quiser. Basta abrir o caderno, como um álbum de fotografias.

Você é novidade pra mim. É a primeira vez que peno para escrever a respeito do que sinto. Você é rebelde, teima em ser indomável, azucrina minha mente sem marcar hora. Mas de hoje não passa. Então recomeço pela enésima vez: “Seus cabelos”. Detestei começar assim, mas paro antes de rabiscar a frase prematura. Se eu reescrever sempre que ficar insatisfeito, não vou terminar nunca. Talvez você seja assim mesmo, sem pé nem cabeça.

Seus cabelos.

Negros. Finos. Lisos ou levemente cacheados dependendo do dia. O estado desta alma eu reconheço pelos fios, dispostos de acordo com seu humor. Às vezes eu largo-me neste breu por meio da imaginação, embora seja uma ideia prazerosamente péssima. Ponto.

Este olhar.

As pálpebras arqueadas emolduram olhos castanhos e cinzentos que se acendem com a luz como carvão incandescente. Quando há riso, eles perdem espaço no rosto, então eu fico confuso, já não sei se prefiro uma forma a outra, porque eu amo estes olhos, porém adoro igualmente a risada, ao ponto de que seria desimportante o fato de talvez deparar-me com esta alma na esquina, impossibilitado, por algum motivo, de estabelecer qualquer contato, contanto que de repente algo pudesse lhe provocar uma risada audível, escancarada, porque daí eu voltaria para casa leve, tendo a plena sensação de um dia ganho. Ponto.

A espera.

Eu falo e esta alma ecoa uma resposta. Eu respondo e não tão cedo esta alma vai dizer algo mais. Aguardo, incontido de ansiedade. Isso não é de todo ruim. É como esperar uma carta. Adoro cartas. Ponto.

Ouvi-lo.

Parte da minha discografia está comprometida. Cada canção é um frasco. E muitos dos frascos acabaram preenchidos com sua alma liquefeita. Mas isso foi tão voluntário quanto “escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto”, como disse Cortázar. “Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio”. O que quer dizer que estes frascos serão meu alento ou meu tormento no futuro. Ponto.

Rabiscos.

Meu quarto aos poucos torna-se cenário de um dilúvio. Ponto. A correnteza vai me levando. Destrincho meus pensamentos, evoco cenas do papel. Ponto. Vou tecendo desta alma também as imperfeições que já posso identificar. Ponto. “O amor é cego mas hoje eu posso ver tão bem”. Ponto. O coração releva, tenta ser paciente. Assim se vai, etecetera, ponto, ponto, ponto, ponto, ponto.

Arfo.

Perto daquilo que considero o último parágrafo, detenho-me para reler o texto na íntegra. Ligo cada gotícula de grafite, e é quando me vem a doce surpresa: tenho a reconstrução de nosso único encontro. Quantitativamente o único porque creio que a vida calhou de construir labirintos para que ainda não houvesse outras oportunidades. Qualitativamente foi único porque minhas sensações puderam provar do que até então eram meras peças avulsas e desconhecidas de vários quebra-cabeças. Foi a chance que tive de ligar olhos aos olhos, nariz ao nariz, boca a boca; meus ouvidos à sua voz e minhas mãos aos seus cabelos. Suspiro de nervoso. Estremeço frente à vivacidade da lembrança. Agarro-me a ela com unhas e dentes, afrouxando os membros o suficiente para não sufocar. Meu peito enruga de saudades como os dedos após muito tempo imersos na água. Ponto.

Mas ponto por quê?

Espera.

Não posso terminar com um ponto.

Reflito um pouco mais.

Não é final, apesar de tudo.

Aquieto-me.

Não ainda.

Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto.

Fico assim por alguns minutos, batendo a ponta da lapiseira ao cabo da linha a intervalos regulares como uma máquina de costura, mas sem dar acabamento a nada. Então limpo o suor da testa, exaurido porém satisfeito. Fecho o caderno e finalmente deito-me, em par com a paz.