O valor da poesia (ou por que detesto modismos literários)

Hoje pela manhã estava lendo sobre Cora Coralina, a escritora brasileira. Uma de suas frases eternizadas diz o seguinte: “Poeta não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso”.

Comecei a estudar sobre movimentos literários no Ensino Fundamental, e sentia-me dividido entre o encantamento e a decepção. Encantado por notar a riqueza de informações que podem vir à tona quando se disseca um texto. Decepcionado porque muitos professores acabam engessando a criatividade dos alunos, moldando-os ao que classificam como literatura ou não. Nesta época, vi minha insegurança quanto a “qualidade” dos meus poemas recrudescer.

Para piorar a situação, lia certos autores cujo sentimento embutido nos versos eu não compreendia, mesmo tentando virá-los do avesso. Isto faz você se sentir um ignorante de primeira, especialmente se busca ser escritor.

Aos poucos, esta visão foi mudando. Percebi que, certas vezes, o fato de não entender a semântica de determinado texto significa apenas que ele não me comove. Simples assim. Também aceitei que o que escrevo não deve necessariamente obedecer estilos literários. Minha expressão precisa apenas fluir, e não moldar-se em conceitos. Me sinto okay sendo assim.

Penso não desprezar determinada produção agindo da forma explanada acima. Apenas aceito que, enquanto humano, complexo e diferente do meu próximo, posso não me sentir tocado por aquele algo invisível que deixa a gente num estado de deslumbramento, e ninguém é obrigado a entender completamente o que escrevo. É tudo muito subjetivo.

Anexo à esta ideia mais duas frases. A primeira, é da escritora e poetisa brasileira Hilda Hilst:

Eu acho que a poesia será sempre importante, porque a poesia pretende humanizar o outro. E nessa época nossa de brutalidade e selvageria, através da poesia, pode haver um instante de redenção pro Homem

A segunda é do poeta brasileiro Mario Quintana:

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Os dois trechos reforçam as palavras incríveis de Cora e vão ao encontro do que penso: a poesia como algo humanizado, e não uma forma de escrita pelo qual as pessoas podem se achar mais ou menos cultas em relação a outras.

Para mim, poesia é quase como óculos, através dos quais enxergamos e ressignificamos a realidade à nossa volta. Me faz pairar sobre o racional, e consigo olhar até mesmo para temas tristes e solitários de outra forma. Isto não é engodo, é uma via de sobrevivência. Sigamos neste estado de poeta, o poeta segundo Cora, compartilhando e recebendo humanidade.

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