Santa Cecília Meireles,

Desde agora, quero pedir perdão se você não gostou da forma de tratamento com a qual iniciei este texto. É que eu rejeito a exclusividade dos cristãos católicos de receberem o mérito da canonização e, lendo uma reunião de crônicas suas, seria impossível referir-me a você de outra maneira. Através dos teus olhos, encharcados de poesia, contemplei a simplicidade e beleza que há nas coisas inumanas. Por isso, não me surpreenderia em vê-la coroada como a Padroeira da Natureza.

Todavia, Cecília, uma de suas poucas prosas sobre o Homem inundou meu coração de angústia, embora seja permeada de sutileza, característica própria dos poetas. Percebi, em Vestido Negro, sua inquietação acerca de uma mudança de hábito: a de que ninguém mais se vale da vestimenta preta para vivenciar o momento de luto.

Na verdade, você vai mais além. Observa que “não mais queremos bradar aos ventos como estamos tristes, doloridos, que nos sentimos sozinhos”, etc. São coisas tão necessárias, não é mesmo? Precisamos tanto reconhecer nossa própria fraqueza! E, sem o momento de apurar o vazio e dor internos, deixamos as feridas expostas por tempo demais, e logo apodrecem. Assim, vamos nos tornando menos humanos a cada mágoa no espírito.

Tenho muito respeito às suas três Marias, ao restante dos familiares e à sua memória, Cecília. E creio fortemente que, para você, a vida era uma explosão de fogos de artifício. Porém, confesso que Deus, ou o que quer que as pessoas acreditem, fez muito bem em ter recolhido você em 1964. O que se sucedeu nas décadas seguintes até aqui foi algo que afligiria ainda mais a sua alma. Tudo o que você criticou à época, acentuou-se.

Ao contrário do que muitos dizem, o progresso não é linear. Estou no século 21 e reconheço que avançamos em muitos aspectos, mas, por outro lado, demos alguns passos de Curupira. Em se tratando da tristeza, maquiamos cada vez mais os sentimentos, de forma que queremos estar sempre de bem com a vida, mesmo que por aparência. Qualquer sinal de angústia já é motivo para que apontem nossa fragilidade, como se fosse algo grotesco, um crime. Todos passamos por episódios em que a alma parece estar quebradiça, só que hoje não há espaço para que este pedaço sensível de nosso ser venha à tona. Precisamos sustentar sempre, aos que nos rodeiam, a impressão de que estamos firmes e somos imunes a toda sorte de contratempo. Que seres superficiais e hipócritas nós nos tornamos, Cecília!

Vou ilustrar. Não sei se você vem sempre nos visitar, mas, hoje em dia, temos uns aparelhos chamados celulares. Eles desempenham diversas tarefas por meio de uma tela. Dentre elas, a de fotografar sem utilizar rolos de filme. Pois é! O que você vai estranhar é que o objeto que mais gostamos de registrar é nós mesmos. Ou seja, um autorretrato. Em seguida, expomos a foto para que outros vejam o quanto estamos felizes — embora os sorrisos sejam, na maioria das vezes, por detrás, bastante amarelos. Contudo, os mesmos celulares conseguem modificar a imagem para que pareçamos muito mais luminosos e perfeitos do que de fato somos. Por fim, os outros usuários sinalizam que apreciaram a foto; e quanto maior o número de pessoas que gostaram, mais cresce em nós a falsa sensação de que somos aceitos, reconhecidos, e tornamos a nos expor vez a vez, como num ciclo.

Outra atividade que esses celulares fazem é trocar “cartas” entre si instantaneamente, e sem depender de papel e Correios, se posso resumir assim. Daí, quando o casal vai a um restaurante para comemorar o aniversário de casamento, por exemplo, prefere gastar tempo enviando mensagens para pessoas aleatórias em vez de resgatar a memória e saborear o momento juntos. Vê se pode um negócio desse, Cecília! E o mesmo acontece entre amigos, familiares, enfim, qualquer tipo de relacionamento. Em outras palavras, ao mesmo tempo que esses celulares trouxeram para perto quem estava longe, fez surgir, igualmente, outras distâncias.

As áreas verdes, das quais você já sentia falta outrora, estão mais rareadas. Os prédios tomaram conta de quase tudo. Tempos atrás, notei que um joão-de-barro fazia um ninho num poste em frente à minha casa. Se não tivesse, muito por acaso, olhado para cima, não teria reparado nele, nem no espetáculo de engenharia que me coloquei a observar nas horas seguintes. Estamos nos sufocando, Cecília. Sempre apressados, cuidamos mais em não tropeçar nos buracos do asfalto do que aproveitar átimos de plenitude em apontar o nariz para a lua brilhosa e assistir seus vizinhos siderais.

Leia só isto, Cecília: agora emulamos cada vez mais os sons dos bichos, e também simulamos os ambientes naturais dentro do urbano. As edificações têm se apropriado mais e mais desse conceito. Bastante válido, mas nada se compara à sensação real de sujar a sola dos pés na grama molhada. Eu mesmo tenho uma lista de músicas com barulhinhos de água para relaxar. É delicioso, devo confessar, mas preferia a experiência de ter um riacho perto de casa, algo que, a esta altura, só mesmo refazendo céus e terra, ou mudando para um lugar remoto…


Tenho tantas outras coisas que gostaria de compartilhar, Cecília, mas vou já chegar ao derradeiro ponto final para não te deixar enfezada. Já me distanciei por demais do tema que me levou à reflexão no início. Da tristeza, fui à devastação ambiental.

Só não quero que fique com a impressão de que sou um completo pessimista. Há muitas coisas boas no século 21 que me proporcionam prazer e alegria. Escrevo e compartilho sobre elas sempre, e assim continuarei. É a poesia que me ajuda a deslocar o olhar do imediato e “urgente” para outros fatos mais importantes, que ocorrem sem alarde, de um jeito simples e gratuito. Este texto, enfim, é apenas um desafogar num instante de agonia. Estou aqui bradando o meu dolorido desabafo pois sou humano, e sei que você me compreende de onde quer que esteja. Mesmo agora sendo santa, como ousei nomeá-la, o que na verdade tornou a tarefa mais fácil. Soou quase como uma oração.

Sabe, Cecília, quem sabe você e eu tenhamos nascido em momento inoportuno, pela insatisfação com os costumes de nossos respectivos tempos. Talvez, lá no início, no pé da árvore genealógica do mundo, alguém tenha feito amor tão tardiamente, que atrasou todo o curso da humanidade. Ou parte da humanidade, para não generalizar. Engraçado pensar nessa possibilidade! Você, como jornalista, poderia apurar se esta suposição é verídica, não é mesmo? Vá lá, corra aí pelo céu — serena e formosa a saltitar pelas nuvens — , só para ver quem foi o indivíduo vagaroso, tardio. Eu continuo daqui, folheando este seu livro que não quero acabar mais, de modo que adio seu fim como posso, pois lugar tão gostoso e quentinho!