a geração Y não está perdida (ela sequer existe)

Esta postagem é uma reposta direta ao oversharing do texto sobre o mimimi da geração Y - e não ao texto em si. O que me interessa aqui é o fenômeno social que acontece a cada vez que alguém resolve falar sobre como a “minha geração” é mimizenta.

Não existe mais “comportamento de geração” (mas não conte isso por aí! tem muita gente que ainda ganha dinheiro com isso e não vai gostar de você). Essa é apenas mais uma das classificações sócio-culturais arbitrárias que a internet tornou difusa demais. Da mesma forma que fez sentido criá-la há algum momento, agora é necessário enterrá-la. Quem (ainda) te empurra isso quer te vender solução fácil para um problema complexo: não dá mais pra definir comportamento se baseando apenas na década de nascimento. Tem (muito) Gen Z querendo carreira, tem (vários) Gen X fundando startup, tem (uma porrada de) Gen Y que não é mimado e (muitos, infelizmente) Baby Boomers que desaprenderam a ouvir não. E, mais que isso, no meio de tudo tem sempre uma geração antiga falando que as mais novas é que são mimadas. Ou seja, você (seja lá qual sua geração) não tem essa exclusividade de ser mimado; pare de se achar problemático porque algum texto na internet tentou pôr isso na sua cabeça.


Então, quando alguém da sua geração falar “somos a geração perdida”, “somos a geração que deu errado” ou algo do tipo, lembre-se: somos apenas a primeira geração que atingiu a crise da meia-idade nas mídias sociais - crise de carreira e propósito na vida não é exclusividade da Gen Y. A maioria dos indivíduos de gerações antigas já passou por esses problemas; a diferença é que eles desabafavam entre amigos e família e seguiam adiante. Hoje em dia, temos o potencial de amplificar o desespero da crise. Mesmo assim, isso não quer dizer que a geração esteja perdida ou sequer que ela tenha uma cara bem definida. Não deixe que a indecisão e desespero de alguns se torne a sua, e muito menos de todos aqueles que nasceram 7 anos antes ou depois de você.

Mais que isso, quando alguém de outra geração falar “essa geração nova é mimada” lembre-se: quem diz isso ouviu a mesma coisa quando era mais novo. Lembre-se também que as gerações mais velhas criaram as mais novas (se não foram pais, criaram o mundo no qual crescemos) o que faz com que eles tenham parte da responsabilidade pelo comportamento de gerações mais recentes. Não caia no blaming game que alguns veículos da mídia tentam passar: não nascemos “mais mimados”, nós fomos criados mimados. Assim como nossos pais, os pais dos nossos pais… mas não precisa ser assim daqui em diante.


Por que eu disse que “não existe comportamento de geração”? Porque se a gente olhar da forma errada, vai resolver os problemas errados: o problema não está em quem nasceu entre 1980 e 2000, está na sociedade que aprendeu a questionar o modelo “trabalhe a vida inteira na mesma empresa + tenha filhos (mas não os crie) + seja (superficialmente) feliz”. Se não aprendermos a não nos desesperar pelo excesso de liberdade, todos que nascerem após 2000 sofrerão da mesma forma (nomeie as próximas gerações como você preferir). O fato é que nós quebramos o molde e não precisamos criar outro. A falta de um modelo para seguir pode ser desesperadora no início - o que gera tantos textos apocalípticos - mas é libertadora e reconfortante no longo prazo.

Dúvidas? Todos temos, principalmente quanto à carreira e nosso papel no planeta - com ou sem molde socialmente estabelecido. Mas o excesso de questionamento não torna ninguém mimizento em si. Mais ainda, isso não obriga ninguém a compartilhar textos desalentados, porque quando você compartilha a desesperança você está propagando-a.

Então, por que não reverter este jogo? Quantos textos desesperados você já leu, curtiu e compartilhou até hoje? E isso melhorou a sua vida? Por que não confiar no seu poder - e de sua geração, sociedade, neotribo, you name it - de aprender a amar a vida que leva? Da próxima vez que se deparar com um texto “socorro! minha gerassaum fracassou!” pelas internets, ao invés de compartilhar com os amigos, faça o seguinte: feche o texto, inspire e expire por algum tempo e continue lutando por aquilo que você deseja - seja uma startup, uma família, virar monge budista ou ordenhar unicórnios.


É por esse tipo de comportamento (oversharing de desespero) que, desde meu primeiro texto, eu venho dizendo: nosso questionamento de valores é muito mais profundo do que a maioria das pessoas propõe. Não adianta questionar o modelo de “lealdade a uma empresa pela vida toda” se você passa a ser escravo do modelo de criar uma startup que valha US$1bilhão em menos de 2 anos. Mas andar de mãos dadas com o desespero alheio não vai transformar ninguém. A nossa geração - e todas as que vierem pela frente - tem o trabalho de quebrar com a existência de modelos em si, e não com apenas um ou outro modelo que pareça antiquado.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.