Amizade e sexo:
“Me desculpa mundo se eu acho que pode existir amizade pós-pegação”
Dicotomia que o sonho moderno alimenta
Não sei se é errado, mas acho que se você saiu meses a fio com alguém, com ou sem a bênção de uma categoria social pré-definida, as pessoas envolvidas podem ser amigas. Sexo e amizade não são faces opostas da mesma moeda, mas são moedas completamente diferentes, podendo coexistir simultaneamente ou em diferentes momentos.
Não sei se soa esquisito, mas por trás de qualquer relação que tem mais que o “Chegaí, bora foder” existe, sim, uma amizade. Escolha outras palavras mais suaves, caso prefira: parceria, cumplicidade, companheirismo… que seja. Mas existia algo além do sexo se no pós-sexo acontecia mais que virar pro lado e fumar um cigarro ou se os envolvidos curtiam pra valer o boteco, o cinema, o museu e tudo o mais que acontecesse antes do sexo.
Não combina com a ideia cool de modernidade líquida, talvez. Mas se a conversa no Whatsapp incluía mais que “tá livre essa quarta?”, se houve prazer em compartilhar outras amizades e apresentar o casinho aos amigos próximos, se houve intimidade para contar coisas que não se conta a qualquer um… se isso tudo (ou se qualquer um desses) rolou, a parte sexual pode ser líquida — mas o resto, jamais.


É claro, muitas pessoas surgem na nossa vida para somar no aspecto sexual e nada mais. Não há nada de errado nisso, não é isso que estou falando. Nós construímos dezenas e até centenas de relacionamentos na vida, dos familiares aos amigos, e isso inclui pessoas com as quais não queremos nenhum laço afetivo ou intimidade. Diferentemente da musa inspiradora de “Sorry”, de algumas pessoas a gente só sente falta do corpitcho.
Parceiros sexuais vêm e vão enquanto nossa sexualidade evolui de forma não-linear, nossos interesses mudam enquanto a gente se descobre e, na base disso tudo, nossa libido sempre varia . Mas, podemos dizer o mesmo das pessoas que não foram nossas parceiras sexuais? Pergunto: por que o sexo tem de tornar as relações mais efêmeras? Acho que essa obrigatoriedade não é natural. Se houve mais que sexo, saiba preservar a relação para além do momento onde ambos são parceiros sexuais (e ambos sabem disso). Se houve muito mais que sexo, saiba dar tempo e espaço para que seja possível preservá-la.
Bottom line: não ponha uma pessoa na caixinha “ex / não falar nunca mais” só porque você parou de sair ou transar com ela. Não brinque de mãe Dinah e deixe pra resolver o que fazer dx ex (eita) num futuro onde vocês podem se curtir de outras formas.
Nada se pierde, todo se transforma
Nada de “me desculpe”, pensando bem: acho que muitos ex é que se devem desculpas pelas portas fechadas ao final de cada relacionamento. Aos outros e a si mesmo: intimidade, afeto, confiança e amor são coisas que nunca morrem, mas se transformam e assumem outras facetas ao longo do tempo, mas continuam trazendo muitas experiências boas — e isso é algo que apenas os mais fortes de alma conseguem fazer. Falta ser um pouquinho ainda mais forte para cultivar o que persiste depois que o fogo e a paixão acabam.
