Ideias também fazem sexo

Muito antes da internet se tornar o que é, o biólogo evolucionista Richard Dawkins cunhou o termo “meme” como uma analogia ao que chamamos de “gene” - só que no campo das ideias.

Um meme sobre genes!

Antes se referir às imagens do Chapolin ou aquelas coisas que saturam em 2 dias (“diferentona”), meme significava algo mais genérico, mas também muito importante. Na proposição de Dawkins, ao invés de propagar características genéticas, memes propagariam ideias. Ao invés de ser constituído por citosina, guanina, timina e adenina; são feitos de sons, textos e imagens — tudo o que pudermos usar na comunicação.


Falando sobre genes, a variabilidade deles foi incrementada quando a reprodução sexuada surgiu. Ao invés da simples cópia de células e indivíduos, onde a evolução das espécies dependia de raros erros de duplicação (mutações genéticas), o sexo passou a permitir a combinação de dois códigos de DNA em um novo. O entrelaçamento de características acelerava a evolução de uma forma que a reprodução assexuada não conseguia, o que gerou uma diversidade maior e mais acelerada de espécies. A co-existência dinâmica destas espécies, somada ao sexo, trouxe o processo de evolução até nossa espécie.

Em suma, jamais seríamos o que somos se as cadeias de DNA de espécies ancestrais não tivessem sido fundidas e seus materiais genéticos não tivessem sido recombinados.

Ter “sangue azul” nem sempre é bom — mesmo sendo de Habsburgo

Por fim, correndo o risco de ressaltar o óbvio: quanto maior a variabilidade, melhor. Não precisamos apelar pro Carlos II da Espanha, que é um resultado conhecido das reproduções co-sanguíneas que aconteciam nas famílias reais europeias (embora a sede pelo poder não tenha limites, a genética tem: Carlos II não deixou herdeiros). Mais certeiramente, para responder a mudanças no ambiente, nada melhor que mais variabilidade genética — sabemos desde Darwin que sobrevive aquele que melhor se adapta. Nesse sentido, o inverso é verdadeiro: menos variabilidade implica em mais risco de extinção.


Adaptável, evolucionariamente estável e dotado de cultura, o ser humano precisa evoluir também no campo das ideias. Não apenas os genes podem se recombinar em algo novo, aumentando a variabilidade e a resiliência em tempos de crise: as ideias também podem ter essa característica.

Como dito por Einstein, uma mente não pode resolver um problema criado pela mesma forma de pensamento (“é insano esperar novos resultados ao se fazer a mesma coisa sempre”), então nossas ideias precisam transar para resultar em novas ideias que respondam a novos desafios e driblem as ameaças do ambiente que levam até à extinção.

Se chegamos até aqui graças à variabilidade genética, continuaremos evoluindo à medida em que incrementarmos a variabilidade memética: nossas ideias precisam fazer mais sexo — e quanto mais diferentes elas forem, melhor para todos.