uma vida menos material

exatos dois carnavais atrás, minha atual jornada começou pela desconstrução. Schumpeteriana? Não. Ainda não havia criação, apenas vontade de implodir algumas internalizações de costumes sociais que estavam em dissonância com quem eu queria ser — e já estava me transformando. Não seria trabalhando no mesmo lugar, cercado pelas mesmas pessoas e com a mesma falta de tempo que eu começaria esta jornada. Então veio o famoso trio: demissão+meditação+viagem. Ah, e é claro: uma boa dose de lowsumerism. Há quase dois anos eu apenas compro roupas e eletrônicos para repor o que perco (e nem reponho tudo), pois ainda não sei viver sem meu notebook ou meu celular.

Romper com a necessidade de estar sempre comprando alguma coisa foi uma forma de abrir espaço para o que vinha de novo na vida: depois de 25 anos sem fazer isso (todos os 25 que eu havia vivido até então), qual outra forma de permitir que o desconhecido entrasse mais naturalmente no meu cotidiano sem romper mais drasticamente com o status quo?


Desapegar, neste sentido, é um pouco como a filosofia lean; famosa, implementada pela Toyota no Japão e já conhecida (superficialmente, na maioria das vezes) por boa parte dos gestores de todo o mundo. Uma vez que você pára de acumular, os problemas saltam na sua cara_ as roupas que se desgastam em 5 lavagens, as que você nunca usa, as que você realmente ama, as que ficam amafanhadas em 5 minutos de uso, o eletrônico cuja utilidade você precisa lembrar jogando-o no google e por aí vai. (mas a vantagem é que, ao contrário da Toyota, aqui você não corre risco de perder o emprego se não corrigir o problema em meia hora)

O poder que parar de acumular tem em expor as falhas no momento é imenso e isso acontece porque parar de comprar por comprar traz uma novidade: atenção. Chame de awareness ou mindfulness se quiser, mas o fato é que você passa a olhar para o que você já tem como você nunca fez antes, e então sua relação com as suas posses muda. Mesmo com a quantidade menor, o momento em que você olha pro armário e pensa em se desfazer de algumas peças torna-se mais fácil: você simplesmente aprende como quer se vestir e quais roupas são boas para isso - e quais devem ser passadas adiante.


Engraçado é que o desapego material começou de forma espontânea: eu estava poupando para a viagem e focando nas técnicas e curso de meditação que aprendia na época. Depois, durante o mochilão, eu até comprei algumas roupas, mas porque sempre achei roupas e arte os melhores souvenirs. Após o mochilão foi quando deixei as compras de lado definitivamente. Quer dizer… um notebook parou de funcionar, uma bermuda se descosturou bastante, meu celular travou de vez e um par de tênis se desfez. Mas apenas repus cada um deles e nada mais. Porque eu não precisava e nem desejava. Porque eu já havia aprendido a pensar em “compra” apenas como um ato de necessidade. Ah, e é claro: me desfiz de muito mais roupas do que comprei na viagem. Meu armário estava consideravelmente mais vazio após meu retorno e meu número de aparelhos eletrônicos se manteve.

Embora meu lado lowsumer tenha nascido sem planejamento, hoje em dia percebo como ele é indissociável da busca por autoconhecimento e trasnformação pessoal. Se você está sempre preocupado em comprar coisas novas, não vai parar pra olhar pra quem você realmente é; no máximo para quem suas compras novas dizem que você é. E não há nada de errado em pensar em como suas compras te definem, afinal de contas quem não te conhece muito bem (e mais o Google, a Amazon…) te compreende melhor através do que você compra e usa. O verdadeiro problema está em você mesmo não se conhecer bem. E isso só vai mudar quando você abrir espaço o suficiente para prestar atenção em quem você é, olhando para dentro de si e não para o que você consome.


Sobre a minha jornada em si, estou dando o “passo seguinte”: agora é hora de gerar menos lixo e comprar de empresas mais sustentáveis (socialmente e ecologicamente!).

Dicas e sugestões? Quem mais já entrou nessa onda?