A mão do especialista: como um comercial do SEBRAE antecipou o golpe

Gustavo Ricci
Feb 16, 2017 · 5 min read

Antes de tudo, se você ainda não viu essa obra-prima da publicidade assista agora mesmo:

Pois bem, o comercial é de 2014 e mostra 3 dos maiores técnicos de futebol da época: Muricy, Tite e Oswaldo de Oliveira. Nele, os treinadores fazem algumas analogias entre futebol e empreendedorismo para fazer propaganda do SEBRAE. Até aí, tudo bem.

Mas, analisando o vídeo atualmente, podemos notar algumas mensagens ocultas que apontavam para os acontecimentos futuro. Notadamente, o golpe sofrido pela presidenta Dilma. Vamos aos fatos:

Os personagens

Os três técnicos tem personalidades e estilos de trabalho bem diferentes. Aqui começa a ficar claro o que cada um deles representa.

Muricy, é um treinador rústico, que fala errado e cujo bordão é "aqui é trabalho". Logicamente, ele representa o PT.

Tite, é estudioso, engravatado, entende tudo de esquema e prega a "meritocracia". É a imagem do PSDB.

Oswaldo de Oliveira, por outro lado é um cara que ninguém entende direito como foi parar ali. Tem alguns títulos, mas nenhum deles teve realmente a sua mão. É o Temer e o PMDB.

Assim já podemos começar a entender a mensagem que (provavelmente os illuminatti) tentaram nos passar com esse comercial.

O filme, plano a plano

O filme começa com um plano do chão de uma barbearia. O local não poderia ser mais íconico. A barbearia é o lugar onde os homens falam de diversos assuntos, principalmente sobre política. Só os homens. Aqui fica claro: o golpe será uma pauta masculina. Não há lugar para mulheres nessa história (assim como não houve no primeiro anúncio do ministério do Temer). O fato do chão ser enquadrado, mostra exatamente como foi construída a narrativa do golpe: os pedidos de mudança vieram de baixo, do povo.

No plano aberto confirmamos os atores do golpe. Enquanto o PT e PMDB estão ocupam as cadeiras (um metáfora bem clara para os cargos de presidente e vice), o PSDB apenas espera sua vez.

Um plano mais rápido antecipa o principal ponto da história. Muricy tem sua barba cortada. Ou seja, Lula precisa ser extirpado.

Na primeira participação de Tite no filme e logo indaga: "Time que está ganhando não se mexe?". Ou seja: mesmo com as inúmeras conquistas sociais do PT, isso justifica manter no poder uma presidenta que pode impedir as reformas impopulares?

No que Oswaldinho responde, sem titubear: "Bobagem, tem mais é que reforçar. Ou então, aparar os excessos, né Muricy?." Essa parte não precisa nem comentários de tão direta.

O interessante a ser analisado aqui é que a imagem aparece através de um espelho, ressaltando o tom farsesco do golpe. "A história se repete como farsa". Seria o impeachment da Dilma, um espelho desbotado de 64?

Muricy, apesar de perguntado apenas assente. A resposta vem de Tite. Ou, seja, o PT já está sendo colocado de escanteio no diálogo. Tite fala sobre tecnologia, qualidade, mudar para surpreender. Aquele papinho que conhecemos muito bem de figuras como o querido prefeito paulistano.

No meio desse papo, temos um rápido plano de Muricy COM UMA LÂMINA NO PESCOÇO. Ou seja: a hora está chegando.

Completamos com uma frame onde Tite aparece completamente "Aeciado", com os olhos fixados.

Essa cena é fundamental para compreender a mensagem. Após o discurso pró-meritocracia e pró-mudança da ordem institucional temos um rápido take de Oswaldo que apenas olha através do espelho. É a posição peemedebista: estou aqui, é dele que estão falando. Mas não vou me manifestar.

Aqui temos o último grito de socorro do PT. Ainda incrédulo que será realmente derrotado clama pela importância do partido: "Trabalho, meu filho. Tem que ter trabalho".

E fecha com a frase símbolo, que talvez deixe algo no ar para o futuro governo: não adianta fazer os esquemas, armações, conchavos. Para governar é preciso experiência. É preciso "A mão do especialista".

Depois temos alguma explicação sobre os serviços do SEBRAE de uma forma mais direta, que não nos cabe a análise aqui. Essa é a parte real para esconder a mensagem subliminar. Mas o último plano do filme é esclarecedor: o PT está de fundo, quase esquecido. O PMDB está em primeiro plano, mas com a navalha próxima à cabeça. E o PSDB apenas senta, olha com uma cara de condescendência e espera sua vez.

Poderiam ter sido mais diretos? Eu acho que não. E você?

Gustavo Ricci

Written by

Redator, futebolista amador e fã do Wilco.

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