FátimaBonnerGate: precisamos repensar nossos memes

Os tempos de crise são ótimos para repensar a sociedade. Quando nos vemos em uma situação aparentemente sem solução é que refletimos de maneira mais urgente e, no entanto, mais sóbria. E não tem nada de mais pungente acontecendo em nosso país do que a separação de Fátima Bernardes e William Bonner.

Bora pra action

E nada me decepcionou tanto quanto a repercussão do divórcio das estrelas. Se o Brasil já foi considerada a pátria dos memes (carece de fontes), a fórmula parece estar se esgotando. Vamos lá.

Primeiro temos o novo clássico esmagares minha rata. Confesso que sou fã, mas seu uso se esgotou em tempo recorde. E não foi uma surpresa ao vê-lo na minha timeline:

Claro que não pode faltar Inês Brasil:

Ah, dá pra brincar com a parada de "sumido", também.

É sacanagem que fizeram um perfil do Tinder. Alguém ainda usa o Tinder?

Até mesmo trocadilhos com o nome do programa emergiram em minha timeline.

E, é claro, a piada do "apagou as fotos":

Enfim, nada surpreendente, ou particularmente engraçado. Apenas um piloto automático de memes. Um humor tão previsível quanto um capítulo do Zorra Total.

Um sintoma normal da natureza dos memes ou uma crise nacional?

O meme internético segue uma ciclo muito similar ao meme cunhado por Richard Dawkins. É algo como o gráfico abaixo demonstra:

Mas como sei que aqui não tem nenhum cientista de foguetes, vamos colocar isso em algumas fases para melhor entendimento. Aqui falando especificamente dos webmemes:

  1. SURGIMENTO | O meme aparece em algum canto da internet como algo original e engraçado.
  2. EXPANSÃO | O meme começa a se espalhar e ganha tração. A graça original é expandida com a compreensão dos envolvidos chave na disseminação do meme.
  3. MASHUPS | O meme sofre adaptações e mistura-se a outros memes e ideias, o que mostra visões diferentes para o tema e acrescenta humor.
  4. MASSIFICAÇÃO/REPETIÇÃO | O meme começa a ser usado de forma massificada e começam a surgir ideias e usos repetidos.
  5. SENTIDO DIFUSO | Com o uso massificado, pessoas que desconhecem o sentido original do meme começam a usá-lo fora de contexto. O meme perde o sentido, e consequentemente, o que restava da graça.
  6. O FIM | O meme chega aos veículos tradicionais de mídia e é decretado seu fim.

É natural que os memes do FátimaBonnerGate sejam intrinsicamente sem graça? Obviamente, não. Se analisarmos friamente, os memes sobre o casal deveriam estar entre os pontos 1 e 2 nesse momento. Afinal, no momento em que escrevo esse texto, não passamos nem 24h do acontecido. Então, qual é o caso afinal?

It's the end of the world as we know it

Estamos vivendo um ponto de virada, que o FátimaBonnerGate deixou evidente. Em uma espécie de Memeception, a própria cultura do meme internético no Brasil entrou no ciclo dos memes.

Nos encontramos claramente entre a fase 5 e 6 dessa cultura. A fabricação de memes, antes artesanal, hoje está completamente massificada e acessível a todos. E já vemos muito dos memes em grandes veículos de mídia.

A cada novo acontecimento, já esperado que milhares (milhões) de pessoas reajam criando memes repetidos sobre o ocorrido. O sentido inicial já foi perdido, mas continuamos sendo inundados por "oi, sumido", "esmagares minha rata", entre outros. E a repercussão que antes, no máximo alcançava um buzzfeed, agora é motivo de listas em veículos DITOS SÉRIOS.

Richard Dawkins não mente: é o fim.

E como iremos viver nessa Era Pós-memes?

Será que conseguiremos sobreviver em um Brasil onde não haverá piadas no twitter e no facebook? Será que teremos que apelar para teorias da conspiração para manter nossas almas em paz? Acho que seria demais pro meu coração.

Eu tenho a única solução possível: trazer de volta as RAGE FACES.

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