hom… em?
Pensa comigo.
Gostar de cachorro é coisa mais de homem ou mais de mulher?
E de arquitetura? E de decoração?
E ter roupas cor-de-rosa? E ser viril? E querer ser cuidado?
O que é coisa de homem?

Mas assim, eu quero a essência, não a estatística. Se formos pelos números, por definir o que o homem é em função do que o vemos ser, o grupo “homem” tem de ser extinto*. Só pode sobreviver quem deixar de ser homem. Afinal, pelos dados, somos responsáveis pela esmagadora maioria dos estupros, além das chacinas, das guerras — das tantas violências próprias de um sistema racista, machista e economicamente injusto.
E fomos assim durante boa parte da história da humanidade. Não dá para dizer que é coincidência, né?
Voltemos à essência. As perguntas iniciais são para ensejar a seguinte reflexão: se existem coisas que estão fora do campo de definição dos gêneros, sob qual fundamento podemos sustentar que algo deva estar na órbita do gênero? Se eu te digo que gosto de pizza, isso te dá uma pista sobre meu gênero? Suponho que não.
É importante ter claro aqui que essa é uma resposta de sérias implicações. Se digo que ‘gostar de pizza’ ou ‘gostar de passar batom’ indica meu gênero, está implicado na minha resposta que pizza e batom orbitam mais um gênero que outro. Caso contrário não serviriam como características definidoras do meu gênero.
Quais as consequências do exposto? Aquilo que compuser a definição de um gênero tornar-se-á inacessível ao outro na medida de sua essencialidade ao conceito. Quem ousar transpassar essas barreiras, fora de um contexto de suposto humor, passará a ser inimigo aos olhos da sociedade, pois colocará em risco a precisão das definições de gênero e a estabilidade daí advinda. Não fosse assim, o que explicaria, por exemplo, ser tão incomum o uso de batom por parte de homens? E, ao mesmo tempo, serem tão comuns as violências quando isso ocorre? E a pizza, como te soaria se dissessem que pizza é coisa de mulher? “Não é, todo mundo come…”. Tenho certeza que muitos homens fãs de pizza se incomodariam.
Então não se sustenta. Não há gravidade ou essência que justifique manter essas órbitas. Tomemos como exemplo a coragem. Para alguns, a masculinidade contém “ser corajoso”. Coragem é importante, é inegável. Mas é razoável que todas as pessoas possam desfrutar, assim como das pizzas, das práticas e das características atualmente generificadas (principalmente sem serem espancadas até a morte, ainda quando crianças, por atos como lavar a louça**). Então não podemos usar a coragem para definir a masculinidade. Não se quisermos ser justos e racionais. Não se quisermos não afastar as mulheres da coragem. Não as afastar de coisa alguma.
Precisamos pensar sobre a masculinidade. Não só pelos horrores aos quais submetemos as mulheres, mas também pelo preço que nós pagamos. Incomparável ao machismo e à misoginia que elas sofrem, mas ainda assim enorme. Privamo-nos da sensibilidade, das emoções, do diálogo. Acabamos, com isso, emocionalmente atrofiados, gerando violência e brutalidade, entre homens e contra mulheres. Afastamo-nos do cuidado, que é uma das maiores e melhores fontes de felicidade e de satisfação. Enfim, todo um universo de vivências. Percebam, também, que quando falo “privamo-nos” refiro-me tanto ao processo individual de autorrepressão, quanto às violências de homens contra homens de práticas desviantes, o que não raras vezes deságua em ostracismo ou em morte.
O que foi dito, contudo, não serve para dizer que, se por decreto extinguíssemos o uso de conceitos definidores de gênero, as desigualdades cessariam. Se assim magicamente instituíssemos, as mulheres continuariam tendo seus clitóris cortados, seus direitos negados. As construções das identidades de gênero e das formas de identificá-las no outro, produzidas no convívio social, se dão ao longo de toda uma vida. A desconstrução não há como ser diferente.
É urgente, portanto, assumirmos o compromisso de reconhecer e fazer reconhecer, paulatinamente, a miríade de privilégios e de violências que ser homem implica. O primeiro deles é não precisar saber de privilégio algum. Até porque ter dimensão da incontável lista de privilégios é um peso. Até porque ter dimensão das violências que praticamos também é um fardo. Fardo que puxa (ou deveria) em direção ao inafastável compromisso de buscar o fim deste sistema de opressão. O dever de, por exemplo, agradecer, apesar da terrível vergonha, quando uma mulher se dispuser a apontar o ato machista que praticamos.
Sempre que formos sensíveis, cuidadosos e, por tal razão, sentirmos nossa masculinidade diminuída ou em xeque, sigamos nessa direção. Assim enfraqueceremos essa masculinidade tão destrutiva.
*Referências:
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se que 35% das mulheres em todo o mundo já tenham sofrido qualquer violência físico e/ou sexual praticada por parceiro íntimo ou violência sexual por um não-parceiro em algum momento de suas vidas. Ao mesmo tempo, alguns estudos nacionais mostram que até 70% das mulheres já foram vítimas de violência física e/ou sexual por parte de um parceiro íntimo.
A ONU (Organização das Nações Unidas) calcula que de todas as mulheres que foram vítimas de homicídio no mundo em 2012, quase metade foram mortas pelos parceiros ou membros da família.
Cerca de 120 milhões de garotas em todo o mundo (pouco mais de 1 em 10) tiveram relação sexual forçada ou outros atos sexuais forçados em algum momento de suas vidas. De acordo com estudo do Unicef, os agressores sexuais mais comuns são os atuais ou ex-maridos, companheiros ou namorados.
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