A DOENÇA SOCIAL DO MUNDO

Completam-se agora 24 horas. Até aqui, minha conta não fecha. Preciso desabafar sobre o mundo. Sei que esse post poderia chegar à várias pessoas, mas, muito provavelmente não vai. As pessoas podem não ter coragem de admitir para si mesmas, mas o que eu digo aqui é 100% verdade.
A EXPERIÊNCIA
Estive, ontem à noite, no clube Chalezinho, uma boate em Belo Horizonte. Como é possível que tenhamos chegado a esse lugar? Não o estabelecimento em si, mas esse lugar social? Não faz o mínimo sentido a maioria das coisas que lá aconteceram. No entanto, sempre acontecem. A conta não fecha.
Cheguei por volta das 21h, entrei e pedi uma água com gás e assim permaneci. Não tomei mais do que isso. Uma questão de princípios. Dinheiro não é o problema. Apesar de não estar sobrando, a gente trabalha e ganha mais. Gasto, entretanto, como quiser. Desculpem-me! Não pago mais de 15 reais por uma long-neck, não pago mais de 20 reais por um energético e não pago mais de 30 reais em um copo de um monte de bebidas misturadas com um nome bonito. Já paguei, agora não mais. A conta não fecha.
O mundo, senhoras e senhores, não é nem de perto aquilo que se vê lá dentro. Então, por que buscamos esse ambiente? Fugimos de que? De quem?
O SOCIAL
Com certeza não fugimos do sujeito que pude observar por 10 minutos trabalhando no banheiro. Precisei parar na porta para confirmar que não havia sido uma coincidência. Não foi. O que vi foi um cara bacana que, a cada mijada de alguém, passava, em seguida, com um borrifador e um pano. Assim que usávamos o banheiro, o sujeito borrifava e passava o paninho com sua tranquilidade peculiar. O banheiro parecia, então, permanentemente limpo para aqueles que podiam pagar por esse luxo.
Muito provavelmente, o sujeito que opera esse esquema dificilmente paga um salário digno ao funcionário que, com um sorriso no rosto, limpa o chão a cada mijada para que o rapaz possa sentir cheio de flores do campo quando entra no banheiro. Este mesmo rapaz é aquele que acaba de pagar 400 reais por um combo de vodka com energético.
Conclusão intermediária 1: Somem-se as mais de 30 mesas reservadas para os donos de combos aos camarotes e espaços fechados da casa e subtraiam-se os valores pagos aos funcionários que deixam o chão limpo. Percebem como a conta não fecha?
O SOM
Na volta do banheiro, passo pelo balcão, peço uma água com gás. Dá-lhe água com gelo goela abaixo. Ao fundo, uma música de gosto duvidável. Qual é? Todos sabem que a bandinha é mais ou menos. Vamos combinar que não é a melhor coisa que tem para se ouvir, mas a gente ouve e parece justificar a tortura melódica internamente. Alguns fatos que precisam ser ditos:
1 – Todos sabemos que essas bandas só sobem ao palco em função de algum tipo de relação com alguém que supostamente tem o poder de colocá-las lá; 2 – Todos sabemos que essas bandas são aquelas mesmas que, por um sistema de lobby vão parar nos programas de televisão para que. os telespectadores possam “julgar” seu talento; 3 – O dinheiro que financia a chegada dessa banda ao programa de TV, todos sabemos, é o que pagamos pela long-neck de 15 reais; 4 – É importante para a boate que a banda chegue aos programas nacionalmente veiculados. Por isso praticam o tráfico de interesses e os colocam lá, aumentando assim seu lucro é a importância da marca…
Conclusão intermediária 2: Se somarmos isso tudo, você continua a pagar 15 reais pela long-neck, leva a banda para o programinha, paga para votar na banda que você colocou lá, eleva o status da marca da casa de shows e, no final, a cerveja que custava 15, passa a custar 18. Viram? A conta não fecha.
A SAÍDA
Lá pelas 3 da manhã, convoquei os amigos presentes a tomarmos o rumo de casa, ou de qualquer lugar que tivesse comida. A resposta de todos foi prontamente a mesma – os que beberam e os sóbrios: Vamos agora! Não aguento mais.
Ainda que a conta fosse justa (e não é), ou ainda que fosse justificada a cobrança para que os funcionários que nos serviram fossem melhor remunerados (também não é o caso), nada justifica que, após todo esse trajeto, ainda me cobrassem os famosos 10% de taxa de serviço. Pois é. Eles o cobram. A conta ainda não fecha.
Do meu jeito, ao sair, despedi do Cristiano – sujeito simpático, que fica na liberação do Chalé. Deve passar por cada coisa lá… Mas, hoje, quando disse brincando que precisava trocar a minha foto de identificação do sistema de segurança… Perguntou, com um largo sorriso no rosto:
- Essa aí ao seu lado é sua namorada?
- É sim – respondi.
- Então não precisa trocar nada. Você já tem um amor. Não precisa ficar bonito pra ninguém.
Conclusão Final: Não faz sentido que eu pague pelo conforto que não quero, por um suposto valor agregado que não se converte em experiência positiva. Não quero pagar para estar em um lugar com “gente bonita”, como costumam dizer lá dentro.
Quero pagar (e muito dinheiro) para estar cada vez mais perto do rapaz do banheiro, da moça que empurrava o carrinho de bebidas, do sujeito bacana do bar que me serviu as 6 águas com gás. Quero estar perto de quem vive o mundo tal como é, como se apresenta. Tal como o Cristiano o descreveu. Diante de minha preocupação pequena com a minha aparência na foto do sistema, a melhor coisa que ouvi na noite foi essa: Você já tem um amor. Essa foi a única conta que fechou.