São Paulo, 11 de abril de 2016

Oriundos de outras favelas, desterrados de outras enchentes, outras chacinas, os moradores carregaram os dias de se ir à luta, os restos de ódio, as noites, as tépidas manhãs, os entardeceres para velar cadáveres, as biroscas, as feiras de sextas-feiras, as doenças venéreas incubadas em corpos infantis, os orixás e os santos pendendo dos pescoços magros. Trouxeram os ventres abertos, cesáreas improvisadas, as pernas para o ônibus, as mãos para os instrumentos de percussão, os dedos para as cordas do violão e do cavaquinho escangalhado. Levaram também as pipas, a ausência de um pai, a falta de uma mãe, o nó górdio dos estirantes, as rabiolas coloridas, o lombo para a polícia descer o cacete, o encontro com hora e data marcada para a morte surpreender. Transportaram a tempestade do amor — o mágico e obtuso amor — para dignificar o luto e fazer calar a eloquência das horas mudas. E deixaram para trás, em outras vidas, em outras chacinas, em outras enchentes, em outras barrigas adolescentes, a esperança de sobreviver e contrariar as estatísticas.

São Paulo, Brasil