Um Piscar de Olhos em Kill Bill Vol. 1

Uma reflexão sobre como Kill Bill se encaixa no livro “Num Piscar de Olhos”, de Walter Murch

Em um trecho da sequência de ação final de Kill Bill Vol.1, existe um toque de edição muito simples, mas que, porém, diz muito sobre o filme. Beatrix Kiddo (ou A Noiva), arranca o olho de um dos “Crazy 88´s”. Então, o filme fica preto e branco, e durante vários minutos permanece assim.

Após algumas cenas de pancadaria, Beatrix encontra-se cercada por vários oponentes, e é nesse momento que aparece o citado toque de edição: No exato instante em que ela pisca os olhos, o filme volta a ficar colorido. Uma espécie de “corte” sutil, mas extremamente efetivo.

Tão rápido que nem consegui pegar o frame dos olhos fechados

No livro “Num Piscar de Olhos”, Walter Murch traz reflexões sobre qual seria o motivo de nós aceitarmos tão bem a existência da edição, ou dos cortes, num filme. Segundo ele, os filmes são fragmentados de maneira similar aos nossos sonhos e por isso, os aceitamos. O cinema seria, então, o local onde vamos para sonhar acordados. O fato de assistirmos aos filmes em uma sala escura evidencia isso.

Uma coisa sensacional que ele diz no livro é o seguinte: “No escuro do cinema, estaríamos dizendo para nós mesmos ‘isto parece a realidade, mas não pode ser a realidade por que é muito descontínuo visualmente, portanto deve ser um sonho.’ Ao mesmo tempo é revelador pensar que a frase utilizada pelos pais para acalmar seus filhos assustados com um pesadelo — ‘não se preocupe querido, é apenas um sonho.’ seja praticamente a mesma utilizada para acalmar uma criança assustada com um filme — ‘não se preocupe querido, é apenas um filme.

E não é que faz sentido mesmo?

Tendo isso em mente, gostaria de destacar outro fato. Recentemente, vi uma entrevista de Tarantino onde ele comenta sobre Kill Bill, e uma informação me chamou a atenção. Tarantino disse: “(…) Um Drink no Inferno, Kill Bill, todos eles acontecem no universo especial dos filmes. Assim, quando todos os personagens de Cães de Aluguel ou Pulp Fiction vão ao cinema, Kill Bill é o que eles vão ver, Um Drink no Inferno é o que eles vão ver.

Ou seja, Kill Bill trata-se de um filme que se passaria dentro do universo dos filmes. É essencialmente, portanto, uma obra que busca a todo tempo deixar claro que é autoconsciente de sua natureza cinematográfica, a ponto de exagerar suas características como filme. O que quero dizer é que não é um filme que busca um raccord, essencialmente, mas sim um filme que busca simular e exacerbar a experiência de se assistir um filme, como se fosse uma paródia de si mesmo.

Oi, eu sou um filme.

Voltando para o que Walter Murch disse sobre o cinema ser a basicamente um sonho, eu diria que Kill Bill trata-se de um “sonho lúcido”. Sonhos lúcidos acontecem quando a pessoa percebe que está sonhando dentro do sonho, e aí começa a se aproveitar disso e das infinitas possibilidades que sua imaginação permitir ali naquele mundo mágico. Eu diria que Tarantino com esse filme está buscando a todo tempo nos manter cientes desse ‘sonho’ ali dentro da sala do cinema.

A montagem de Kill Bill a todo tempo busca nos lembrar que tudo se trata de algo meramente imaginário, principalmente nas cenas de luta. Sempre é possível ouvir efeitos sonoros destoantes da realidade do cinema contemporâneo, mas que já foram muito utilizados em filmes antigos. Notas musicais inspiradas em filmes de luta chineses, e até mesmo a substituição do live action por animação.

Com relação à imagem, vemos uma diversidade de jump cuts dentro das cenas. Sobreposições de flashbacks com textura vermelha em vários momentos. Ou seja, Kill Bill é um filme que procura deixar claro para o espectador a todo o tempo, de que tudo é falso. Tudo é imaginário. Por mais que muitas coisas ali sejam inverossímeis, não importa, pois o espectador a todo tempo é lembrado de que aquilo não passa de um suposto filme B. Desse modo, do mesmo jeito que uma pessoa que tem um sonho lúcido começa a tentar fazer coisas impossíveis no mundo dos sonhos só por que já sabe que nada daquilo é real, Tarantino também faz coisas impossíveis, que são admiradas e não estranhadas pelo espectador, exatamente por que ambos sabem que nada daquilo tem a menor intenção de parecer real.

A cena em preto e branco chama minha atenção exatamente por isso. É um momento do filme onde o emissor deixa claro para o receptor que ambos estão brincando de cinema. O espectador está brincando de assistir um filme, e o cineasta está brincando de fazê-lo.

As músicas pop encaixadas no meio da briga, o sangue que jorra seguindo o ritmo dos golpes e da música — e consequentemente do corte- e também a óbvia simulação de um filme de Kung Fu das antigas. Tudo nessa pequena cena em preto e branco afasta o espectador do filme, mas ao mesmo tempo o aproxima. De certa forma a diegese é quebrada, ao mesmo tempo que cria uma diegese nova, desta vez em um universo maior, o universo dos filmes.

O piscar de olhos da noiva, que finaliza o trecho em preto e branco, é ao meu ver nada mais que Tarantino olhando para o espectador após tantos minutos de violência pesada e dizendo a seguinte mensagem: “Não se preocupe, querido, é apenas um filme.”

Kill Bill é um filmaço!