Diário de Crom — parte 1

Faz pouco mais de quatro luas que despertei. A primeira notícia foi que o reino fora destruído. Nada a respeito dos meus amigos ou família. De alguma forma acredito que estão a salvo. Somos matadores de dragões, protetores do reino. Se eu sobrevivi às adversidades…

Lamento pela minha falta de força para protegê-los. Se tivesse me dedicado não estaria aqui. Preciso dar meu melhor para enfrentar Zoltrix, isso se o braço esquerdo voltar a mover. A mordida profunda na escápula quase me matou. Preciso me livrar desses pensamentos e ajudar meu corpo a se curar. Sonho com a derrota, acordo encarando olhos amarelos.

Hoje pude juntar forças para conhecer os arredores. É tudo tão estranho. As estruturas são de madeira, com telhados angulosos e paredes de tecido. Meu salvador incubiu-me de cortar lenha para receber o inverno. Pelo que entendi pagarei pelos gastos. Não consigo sentir o braço, tenho pesadelos onde sou inútil em combate.

Minha rotina envolve: Acordar, cerimônia do chá, engolir o chá, cortar lenha, cerimônia do almoço, trabalhar, cerimônia de despedida ao sol, receber medicamentos e meditar. Na cerimônia de meditação.
Tudo parece tão calmo. Até os anões falam devagar. Uma vez vi um deles fechar os olhos, abrir as mãos e sentir a brisa. Os mestres não têm pressa em ensinar. Reconheço-lhes somente pela reverência que recebem, já que todos usam as mesmas vestes. Aqui as pessoas inclinam o corpo e abaixam a cabeça em sinal de submissão. Nenhum deles ostenta um corpo forte. Sinto um grande vazio no peito.

Confessei para O Senhor da Ilha minha descrença nas habilidades combativas ensinadas aqui. Ele me perguntou se gostaria de sanar minha dúvida. Aceitei o desafio. Um de seus pupilos me enfrentará com o braço amarrado nas costas. Humilhante. Sinto pena de meu adversário franzino. Já derrotei inimigos mais temíveis. Não vou machucá-lo para não assustas os nove mestres. Em breve retorno com o relato de minha vitória.

Nunca fui tão humilhado. Dancei sem saber a coreografia. Meu adversário me contemplou com o olhar vazio. Soquei seu estômago com toda força. Ele apenas sorriu e disse que o combate não havia começado. Voltei à minha posição e fiz a reverência. Então, ele veio como quem pressentia cada movimento. Aprendi que o corpo todo é uma arma. Nem meu irmão Thorsten bate tão forte. A verdade é que não consegui acertá-lo depois daquele soco. Acordei enfaixado na cama. Se este é o resultado, mal posso esperar para que o meu treinamento comece.

O Senhor da Ilha veio me convidar para a cerimônia do chá. Ele não falou muito e também não fiz questão depois da surra de ontem. Antes de começar os trabalhos, ele me disse:
“Mantenha a mente vazia. A desconstrução é gradual e faz questão de reger seu próprio tempo. Destruir implica em espalhar detritos.”

O contraste dos braços é evidente. O direito foi fortalecido pelo trabalho enquanto o outro murcha. Estou fraco. A dieta de frutos que o mar provê e arroz fez com que meu corpo se manifestasse além das indisposições intestinais. Faz pouco tempo que reparei que sou o único doente. A tosse é meu som. Talvez seja algo no ar, ou as inflamações no ombro. Fico pensando como isso tudo aconteceu. Lembrei da vez que rumamos pelo Caminho Das Fadas. Elas cobraram metade do Vitriol que tínhamos, mas valeu a pena. Preciso parar de pensar durante a meditação e seguir os conselhos do Senhor da Ilha.

Tive um sonho.
Estava no vazio, com linhas por todo o corpo. Uma chama dançava no abdômen. Por um instante tudo ficou em desarmonia e vi as linhas se distorcerem enquanto a chama oscilava. Ao entender o motivo da desarmonia acordei com um sorriso no rosto. Cumprimentei a todos e ao aproximar O Senhor da Ilha, vi que compartilhávamos desse mesmo sorriso.
“Chegou a hora”, ele disse.

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