Cosmologia da Linguagem

Gustavo Dutra
Aug 29, 2017 · 2 min read

Sinto os bilhões e bilhões de anos do universo
na aspereza decrépita e irregular das cascas das árvores
e no fulgor branco sobre o verde das primeiras folhas
Vejo a evolução caótica e imprevisível do amanhã
nos sons translúcidos oriundos do encontro das águas
que correm por entre as montanhas gélidas de sabe-se-lá-onde
Escuto às vibrações do crepitar da fogueira
que celebra o amarelo-laranja do contínuo nascer e pôr do sol
do ínfimo tempo da vida de cada coisa
e do infinito tempo de vida de todas as coisas
que morrem e revivem e estão em eterna mutação
Saboreio a tenra complexidade icástica da fragrância orgânica
que vaga no espaço cósmico do gole quente do chá
servido em cuia meticulosamente talhada à mão
Inalo o cheiro dos festivos espíritos, velhos e novos,
pintados com tintura escura de urucum
escondendo o desconhecimento da linguagem
da própria linguagem em clareira aberta na mata fechada

Não sou parte do universo,
sou o próprio universo
que experiencia a si em fruto desabrochado da água
Partícula que viajou no interior rochoso de um flamejante cometa
e que, à luz da evolução, chega à consciência
e se firma
tomando da linguagem o que dela pode.


)
Gustavo Dutra

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Escritor de poesias, contos, crônicas e código. Discute criação poética no ‘Um barco ao mar’ (YouTube).

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