Resenha: A morte de Ivan Ilitch

Não é a toa que Nabokov considerava obra máxima da literatura russa.

No primeiro capítulo do terceiro tomo de Guerra & Paz, Tolstói constrói uma metáfora que divide o homem em duas vidas: a vida que vive para si e a vida que vive para a história, a vida em colmeia.

A vida que se vive em colmeia é a vida do dia-a-dia, de quem trabalha, de quem precisa mastigar as palavras para falar, pois não pode ofender. É a vida que promove a combustão dos fatos históricos: que torna o rico mais rico, que torna o poderoso mais poderoso.

Já a vida que se vive para si é aquela vida que se passa na nossa cabeça, nossos desejos, nossos sonhos, nossas esperanças. Aquela relação que se tem consigo mesmo fora da vida em colmeia. É a vida que se vive a partir do que se conquistou na vida em colmeia.

É nessa vida para si que todo o livro A morte de Ivan Ilitch se passa. Sim, o livro retrata toda a vida de Ivan até seu leito de morte. É uma reflexão pesada e, por mais que tenha sido escrito há muito tempo, ainda é bem real.

Toda a reflexão acontece sobre a vida em colmeia e a grande sacada está em perceber ao longo do livro como a vida em colmeia nos torna distantes das pequenas coisas que conseguem satisfazer a vida para si.

Na doença, no leito de morte, toda a vida em colmeia parece não fazer tanto sentido. Se não há cura, se não há médico que possa o curar, Ivan está fadado a colher os frutos de uma vida que o levou a própria morte.

Nessa publicação da Editora 34, traduzido direto do original, a narrativa é prazeirosa e rápida — 90 e poucas páginas. Eu li o livro em uma sentada durante uma tarde de domingo. O baque, o soco no estômago a que o livro se propõe, vem no fim, sorrateiro e inesperado, igual a morte.

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