Saco de cocô voador

Gustavo Estevão
May 12, 2016 · 2 min read

O golpe não é “simplesmente” político, este golpe é na nossa cara, na cabeça, no estômago, o que torna tudo mais difícil ainda de se digerir. Certa sempre esteve Clarice Lispector que dizia que “a vida é um soco no estômago”, agora jaz aqui a prova de que a política não é apenas um soco, mas um brutality direcionado às partes entre a virilha e a testa, que volta e meia passando pelos olhos e pescoço, trás a sensação de cegueira e anulação do grito. Talvez os sentidos voltem para que seja possível ver a grande cagada que foi feita nos últimos meses no governo, um governo que não tolerou a corrupção e exatamente por esse motivo, caiu. Talvez o sentido disso tudo nem faça tanto sentido assim pra muita gente. Talvez devamos pedir desculpas a uma mulher que fez tanto pelo nosso país, que venceu as eleições de forma democrática e justa, que foi humilhada numa câmara de analfabetos políticos. Talvez esse golpe já estava sendo construído quando os jornalistas da Globo News perderam (ou deveriam ter perdido) seus diplomas e empregos, quando com seu jornalismo sensacionalista (e vocês tem culpa disso) e tendencioso já colocavam a insatisfação deles próprios como uma insatisfação geral da nação, dizendo a todos os ventos que algo estava errado. E estavam, eles mesmos. Junto com a nossa visão e fala, perdeu-se a imparcialidade do jornalismo sério e tudo se transformou numa espécie de saco de cocô voador, que indo pra todo lado ia sendo preenchido até a borda, agora ele estourou. Na nossa cara. Fiquemos aqui com esse cheiro do ralo, que não deve sair depois do banho, com os pés gosmentos de andar por um país que infelizmente não leva em consideração a opinião popular, de populares pensantes. Talvez, agora, a gente aprenda a dar valor ao nosso país, mesmo com os nós na orelha que a política nos dá. Talvez daqui a 10 anos, todos possam perceber que fomos ingênuos, mesquinhos, preconceituosos e influenciados. Talvez a gente descubra que temos a força que todo mundo diz que a gente tem. Talvez, talvez, talvez não.

Gustavo Estevão

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